Bronze

— Eles não calam a boca, não é?

Evan vagava de um lado para outro com os braços cruzados e uma das mãos inquieta, esmagando o rosto por diversão. Havia trancado a casa para tentar afastar o barulho que vinha das ruas da Cidade Arcaica: ruído de feridos, de quase-mortos, de gente comum tendo ânsia de vômito ao precisar sair de casa.

— Senhor…

— Onde estão os bomins? Esqueça o problema dos desertores porque eu preciso de alguns deles, talvez de todos eles, para trazer o silêncio para essa cidade… Por que esses não foram mortos ainda, aliás? Eu tenho certeza que mandei eles serem mortos ontem! — Coçando os olhos injetados, falava mais para si mesmo que para o segundo-em-comando na sala. — Sim, eu mandei… Há alguma coisa de errado com os soldados? Alguns que precisam de uma correção? Cortar uma perna ou um braço eles podem, mas acabar com os caídos que não vão viver muito mais de qualquer forma eles não querem, é isso? Acabou a misericórdia? Reservaram só para os amigos que fugiram e não cumpriram com o dever?

— Senhor… — O segundo-em-comando olhou para ele como se fosse dizer que ele deveria se acalmar.

— Eu não suporto esse barulho do lado de fora das minhas instalações, você me entendeu? O General do Conselho dos Magos quer descansar depois de uma vitória estrondosa, isso não se discute!

— Senhor. — Sua voz endureceu. — Não há barulho algum. Já foram todos retirados das ruas.

Depois...

Kan buscou abrigo na parede e de lá não saiu.

Desde as últimas decisões de Desmodes, Kan permitia que os magos interessados soubessem do conteúdo das cartas assim que chegassem. Sabia que poderia justificar aquilo para Desmodes dizendo que, diante da pressão de mais de dezena de magos, não queria virar alvo mágico — e as boas relações exigiam sempre alguma forma de gesto de boa fé, de qualquer maneira.

Mas Desmodes nunca lhe questionou quanto à clara violação de conduta — e era justamente aquilo que Kan queria verificar com a pequena transgressão.

A última carta levou parte dos magos a tomar a sala de reuniões. Discutiram longamente, de pé, ocupados demais imaginando os desdobramentos daquilo para se sentarem.

Apontaram dedos. Duvidaram da informação a ponto de fazer o mensageiro voltar ao prédio do Conselho e confirmar o acontecido. Só conseguiram concordar que a intransigência de Desmodes havia passado dos limites; que sua sede por sangue superava qualquer limite razoável e que, pelo bem de Heelum, ele deveria ser deposto — sem dizer, é claro, nada remotamente próximo a isso.

Quando Desmodes chegou, chegaram também Elton, Anke, Lucy, Igor, Ramos e Sandra. Os magos de cabeça baixa foram ocupar seus lugares, silenciosamente arrastando suas poltronas.

Desmodes! — Começou Cássio antes mesmo que o mago-rei chegasse à ponta da mesa. — Recebemos a notícia mais desprezível de nossas vidas. Eu preferiria ter vivido para ver um mago-rei filinorfo do que saber do que eu soube hoje. Como pôde ter sido estúpido a ponto de fazer isso?

— O que aconteceu é imperdoável, Desmodes! — Exclamou Peri, o rosto escuro franzido em nada lembrando sua calma habitual. — Um exército invisível?!

Desmodes fez menção de dizer que alguns dos guerreiros do Conselho morreram em combate, mas o avalanche de respostas sobrepôs-se ao fim da sua. Maya e Saara falavam sobre como as cidades inimigas não estavam privadas de esferas de bronze, e poderiam resolver usá-las em retaliação. Cássio tentava a todo momento tomar a palavra, mas ofegava de um jeito estranho: dizia o que tinha para dizer e logo outra voz usurpava a atenção dos pescoços livres. Peri comentou que mais da metade dos soldados mortos morreram depois da batalha, e isto não levava em conta os desertores que, não querendo acabar com a própria vida, fugiram. Duglas comentava o péssimo efeito que aquela batalha teria sobre a tropa, enquanto Eiji dizia que o apoio dos cidadãos da Cidade Arcaica certamente sairia enfraquecido do conflito.

Desmodes inclinou-se para trás, afastando a poltrona; seu olhar desinteressado era fogo a cozinhar argumentos ao ponto de transformá-los em berros.

As portas de seu castelo abriram-se e fecharam-se, num baque sonoro, quase ao mesmo tempo; Kan pôde ver os velozes pontos negros esvoaçantes que se distribuíram num piscar de olhos entre os castelos enfileirados em Neborum. Destruíam as portas que viam pelo caminho como se fossem feitas de vidro; sumiam no interior dos magos e o silêncio voltou a imperar sem interrupções.

Maya falou algo sobre covardia, mas não pôde elaborar mais nada. Sylvie passou a olhar para as janelas da sala depois de dizer que aquilo não fora aprovado por eles, e quando Peri não conseguiu terminar o que começara a falar sobre monstros e governores, Brunno alertou para a presença de magos já dominados entre eles. Duglas duvidou num primeiro momento, mas Eiji disse que aquilo era bem óbvio.

Desmodes sentou-se.

Em silêncio vasculhou os dezessete magos, que agora tinham direito a, calados, tentar resistir inutilmente.

Os membros do Conselho dos Magos que ainda não estavam sentados puxaram suas cadeiras e, sem muita preocupação com conforto, voltaram-se sérios para o centro da mesa. Tinham as mãos sobre as pernas e a postura reta; paz alcançada, consenso feliz.

— A partir de agora — Disse Desmodes, olhando para ninguém em particular. — as reuniões servirão para que se tome conhecimento do que for decidido por mim. A guerra está fora de discussão. Portanto, também as esferas de bronze. Elas serão usadas sempre que necessário. Kan?

O único mago não controlado por Desmodes na sala olhava para a mesa como se precisasse acordar de um sonho estranho.

Na mesa, humanos coordenados como pedra; os mesmos rostos em rostos diferentes. A mesma expressão dessaturada de Desmodes.

— S-sim?

— Comece a escrever.