Covardes

Minoru esfregou os olhos, hábito que estava quase promovendo a cacoete. Não dormia direito há dois dias, e se aquilo continuasse era possível que em breve estaria se estapeando para se manter desperto. Era difícil dormir quando tudo dependia de algo que, se não acontecera há um ou dois dias, acontecia ainda naquele momento.

Olhou para o copo redondo e baixo na mão esquerda; fez cara de desagrado. Tinha sua sala para ficar, mas achava que ela era aconchegante demais — arrastaria o cobertor do sono sobre si em questão de segundos. A sala de reuniões, por confortável que fosse, não tinha aquele efeito: era absolutamente silenciosa, sim, mas era também um lugar grave e ameaçador. Ouviu certa vez que ela foi projetada para ser um tanto intimidadora: algo como “nossa inteligência política vai assustar nossos inimigos”.

Depois do episódio em que os políticos magos foram presos naquela mesma sala, já não tinha mais tanta certeza quanto à natureza da frase. Não era da época em que a construção ocorreu, mas referir-se a outras cidades como inimigas só foi se tornar algo comum, ainda que moralmente reprovável, com as Guerras Modernas. Pôs alguns dedos na boca para mordiscá-los enquanto pensava — e o sono o fazia refletir em círculos, seguindo em frente à base de repetições — e se os construtores daquela sala, certamente profissionais já célebres da cidade, fossem magos? E se eles quisessem dizer com a frase que a inteligência política dos magos (que, mesmo perseguidos e proibidos, infiltraram-se nas camadas do poder) assustaria os inimigos (aqueles que os perseguiam e proibiam)?

Do suspiro veio o sorriso de tolo.

Minoru constatou, com satisfação, que não estava mais assustado. Al-u-een e Roun-u-joss eram dois dos melhores exércitos de Heelum: quem entendia do assunto garantia que o Exército da Cidade Arcaica era fraco demais para o ataque combinado que lhe fora lançado. Não tinha dúvidas quanto ao lado político do assunto — a repercussão seria imediata. Sem uma base de operações, o Conselho dos Magos ficaria enfraquecido. Sem o símbolo de união de Heelum, a cidade que tanto lutaram para reconquistar no passado, outros aliados revisariam suas posições. A balança passaria a mostrar maior peso do lado até então acinzentado pela pequenez.

Virou-se devagar na poltrona; viu Kent entrar na sala, atabalhoado e com um rosto que, embebido em sono, parecia raivoso.

— Senhor Minoru? — Ele perguntou. — O que faz aqui?

— Assim como você, senhor Kent… — Minoru não resistiu à provocação das formalidades. — Não consigo dormir.

— Eu estava dormindo em minha sala. — Disse Kent. — Fui acordado por um dos guardas, pedi que me acordassem se algo importante acontecesse.

— … O que aconteceu? — Indagou Minoru, ignorando o pensamento nascente de que havia sido estúpido por ter ficado acordado.

— Soldados chegaram. Há feridos.

Minoru franziu o cenho, levantando-se da poltrona.

Quis verbalizar sua dúvida quanto ao porquê de soldados feridos retornarem à cidade, mas preferiu esperar pela próxima pessoa a entrar na sala de reuniões. Pelo que podia ouvir, não demoraria muito.

Um soldado ofegante, por todo o resto de sua aparência tão ou mais cansado que os parlamentares, surgiu na sala de reuniões. De roupa rasgada, não carregava armas; as botas marrons pareciam ter conhecido sangue.

— Fomos… Derrotados. — Começou ele. — Eles usaram esferas de bronze… Ficaram invisíveis… Foi uma armadilha.

As sobrancelhas de Kent tremiam abaixo dos fios finos da cabeça enquanto ele seguia olhando para o mensageiro. Minoru abaixou o pescoço, fechou os olhos, e pensou que aquele era simultaneamente o resultado mais estupidamente inesperado, o mais torpemente lógico e o mais absolutamente desastroso.

Jogou o copo na parede, quebrando-o de raiva. Quis chutar a poltrona, quem sabe derrubá-la com os braços, mas talvez a consciência de que não tinha foco ou forças para tal lhe sobreveio — só puxou forte os próprios cabelos, berrando mais alto que os pedidos de Kent para que se controlasse.

MALDITOS! — Gritou, assim que a voz encontrou palavras ao invés de urros. — COVARDES, COVARDES, DESGRAÇADOS!

Depois...

— Karment-u-een caiu.

Rainha fechou os lábios, e eles pareceram mais finos que nunca. Deu as costas para Lenzo e sentou-se em uma das poltronas.

— Dizem que um exército enorme vem do Norte…

— Eles usaram as esferas também? — Perguntou Rainha, com a voz dividida entre nariz aguado e dentes cerrados.

— Não sei… A-acho que não.

— As pessoas nas jirs sabem?

— Sim. Estão preocupados.

Quando se olharam, ambos os corações quebraram à visão do que eram: ela, uma garota jovem demais. Ele, um pouco menos jovem apenas. Ela, de olhos vermelhos; ele, com olhos caídos.

— O que podemos fazer, Lenzo? — Questionou ela, com a voz fina.

— Eu não sei…

— Você nunca sabe de nada?

Lenzo abaixou a cabeça.

— Desculpe…

— Não quero desculpas, Lenzo, eu quero soluções! — Ralhou ela. — Eu quero… Eu não posso deixar eles à mercê dos invasores, eu…

— Rainha… — Começou ele, pensando que era muito possível que fosse ser chamado de covarde pela sugestão que daria. — Eu acho que temos que ir embora…

Não. — Respondeu ela, balançando a cabeça com veemência.

— Podemos deixar esse castelo para o exército u-usar como fortaleza, ou…

— Não posso ir embora, Lenzo! — Passou a mão no nariz, desfazendo a tortuosidade do rosto. — Eu prometi tudo para eles e não vou cumprir nada?

— Mas… M-mas Rainha, você já deu muito para eles! Não pode dar a s-sua… Vida…

Conteve-se quando pensou que o tom de voz que usou era inapropriado. Pôs-se em seu próprio lugar, mas descobriu, num golpe cheio de conforto e ao mesmo tempo de tristeza, que ela era, assim como ele, consumida pela culpa.

Não a considerava culpada por nada. Mas, por outro lado, ela também não parecia achar que ele era culpado por coisa alguma.

— É engraçado… — Disse ela, olhando para o nada perto do joelho de Lenzo. — De certa forma meu pai deu a vida dele por isso… À força. Sabe o que significa se eu for embora? Se eu me virar e… Abandonar tudo isso?

Lenzo fez que não, com medo de que ela fosse reclamar de novo se ele dissesse que não sabia.

— Eu também não… — Confessou ela.