Recomeços

Leo e Fjor já estavam prontos quando as portas do galpão se abriram. Duas mulheres entraram, altas e de pele ainda mais escura que a deles. Pareciam-se pelos rostos, por um certo jeito de andar, certo jeito de chegar pedindo licença, aconchegando o ar em volta.

— Oi. — Disse uma delas, que vestia uma longa capa preta e prendia o cabelo num rabo de cavalo apertado. — Meu nome é Jura, e essa é a Pâmela… M-mas todo mundo chama a gente de Ju e Lala.

— Ju e Lala. — Repetiu Fjor, concordando lentamente. Trocou olhares com o irmão antes de, sem jeito, dar o primeiro passo para uma série de apertos de mão entre os quatro.

— Então os seus… Antigos membros… Fugiram? — Perguntou Pâmela, cujos cabelos encaracolados soltos arrastavam-se pelos ombros cobertos com uma larga blusa marrom.

— Sim. — Respondeu Leo. — Esses são… Eram… Os instrumentos deles.

Perderam-se por um tempo olhando a guitarra vermelha e o conjunto de bateria.

— Espero que não seja… Estranho, se… A gente usar eles. Foi o que disseram para a gente fazer. Desculpa.

Leo engoliu em seco. Sabia qual resposta era obrigado a dar.

— Não. — Adiantou-se Fjor. — Sem problema.

Depois...

A rotina deles era um ciclo diário de coleção de comida, preparação de comida e festas noturnas que iam até horas altas da madrugada envolvendo música e comida.

Aquele era o terceiro dia que passavam com eles. Assistiam, escorados numa árvore, um grupo sair em direção a Dun-u-dengo: aparentemente muitas pessoas gostavam de rock modenal — e pagavam pelas apresentações musicais que garantiriam dinheiro o bastante para abastecê-los com algumas coisas que não conseguiriam facilmente, de carnes e utensílios a minérios de cura e roupas.

— O que você quer fazer, Beni?

Olhou para ela em resposta.

— Eu queria voltar para Novo-u-joss e começar tudo de novo.

— Não dá… — Reagiu Leila, balançando a cabeça. — Essa é a nossa escolha mais óbvia… Eles vão procurar pela gente lá.

— Será?

— Eu não quero apostar que não…

— Então… De que outra cidade você gosta?

Leila, que tinha passado a olhar para o espaço entre os próprios pés, voltou-se para a frente. Brincava com as unhas das mãos, com os dedos; chegou a espremer os olhos para visualizar todas as possibilidades.

— Eu não sei… Eu não conheço quase nada do mundo.

Beni limitou-se a concordar.

Anraig, o homem que os apresentou ao grupo, aproximava-se deles com um andar manco e um sorriso no rosto. Carregava no corpo uma manta escura que combinava pouquíssimo com a temperatura nada baixa daquele dia em particular.

— Olá, Leila. Olá, Beneditt.

— Oi. — Responderam eles, não mais tão sem jeito ao sorrirem de volta.

— Sei que há uns dias viemos ajudando vocês. — Disse ele, fazendo uma pausa para, com dificuldade, se agachar em frente aos dois. — E nós nos sentimos muito felizes com isso, de verdade, e não queremos forçá-los a nada que vocês não queiram… Mas… Se vocês quiserem se juntar a nós na roda de hoje… Seria um prazer para todos.

Beni sabia que Leila não se sentira à vontade no grupo — ou, pelo menos, naquela “roda”; desde o primeiro dia, evitava ativamente o que quer que se contasse e se cantasse ali.

— Tudo bem. — Disse ela, interrompendo o “talvez” que Beni educadamente articulava.

Talvez Anraig fosse excepcionalmente carismático, pensou o baterista.

Depois...

Nada, nada me diz nada

Nada me dispara

À direção do que

Também é nada

Cem vezes mais nada

Perdido na estrada

Desse mundo escuro

Eu, que também sou nada

Vi no rio deitada

A esperança de

Viver no nada

Não preso às correntes

Que me fazem

Perdoar as rotas

Em que vi só nada…

A voz caseira de um homem descalço, já mais velho e mais sozinho em frente ao fogo moreno, levantava aos céus a música enquanto ele se balançava para frente e para trás. Olhava para um ponto fixo à frente, como se as palavras fossem concebidas ali, montadas na hora, sem planos nem sonhos — e Leila sentiu-se tão honrada por compartilhar aquele momento único com ele quanto triste: sabia que todas aquelas letras logo voltariam para o lugar de onde vieram, sem serem registradas para serem repetidas do mesmo jeito mais adiante.

Os foragidos se abraçavam sem mãos, a cabeça dela inclinada no ombro dele. A guitarra que acompanhou o canto antes, com notas chorosas e roucas, no ritmo de uma canção de ninar, agora fazia um solo mais baixinho — como pedinte resignado no centro abandonado das madrugadas urbanas — enquanto uma garota, possivelmente mais jovem que os dois, falava sobre sua vida.

Nasceu em Inasi-u-een, cidade no frio de gelo do Norte, de pais que não a queriam — não de verdade, pelo menos, de acordo com a definição dela. Não podiam ter de fato a feito porque se amavam e estavam prontos para lançar alguém, com cuidado e carinho, à existência. Depois de passarem a infância inteira da garota detestando-se cada vez mais e sempre, sumiam por dias a fio deixando-a responsável por tudo, desde as tarefas da casa até o trabalho deles próprios na jir em que moravam. Quando a mãe morreu, em circunstâncias jamais explicadas por um pai choroso à mesa na madrugada, carregando um minério de luz rosa que jamais tinha entrado na casa deles, ela fugiu. Foi parar nas mãos de um homem de Dun-u-dengo, por piedade dele e necessidade dela à primeira vista, fragilidade dela e perversidade dele à segunda vista, como ficou claro a partir do momento em que ela saiu enclausurada direto da charrete para um quarto belo, mas trancado pelo lado de fora.

Delirava tanto, mesmo lúcida e racional, que transformou até o pai em herói — deveria estar procurando por ela, e certamente tinha descoberto que ela fora levada para aquela cidade. Qualquer dia ele apareceria para destruir a porta com força bruta e a salvaria de tudo aquilo.

Quem apareceu à porta, e com uma chave — além daquele homem, que veio por rosanos, com regularidade — foi uma outra garota. Elas se olharam, paradas uma à porta e a outra na enorme cama, por alguns segundos. A menina que abriu a porta a trancou de novo, apressada, e foi embora. Voltou dias depois, perguntou qual era seu nome e há quanto tempo estava ali.

Ela continuou aparecendo pelos rosanos seguintes. Vinha, trazendo às vezes lanches fora de hora. Livros — mas a outra não sabia ler, e então a visitante começou a ensiná-la. Trazia seus ouvidos, sempre, mesmo que a garota pálida de Inasi-u-een não tivesse muito para falar.

Um dia, trouxe uma guitarra. Tocou para ela uma canção modenal, e combinou que a levaria em uma apresentação. Nalguma noite que o pai não fosse até o quarto.

E o resto era história, terminou ela; foi acolhida pelos modenais para poder fugir, e tentava agora entender como se encaixava naquele mundo estranho que Heelum era.

Beneditt ficou preso ao conto, seus olhos vidrados em cada palavra soluçada da trajetória. Pareceu acordar quando a guitarra parou; viu que todos, de uma forma ou de outra, também despertaram; pescoços mexiam, cabeças viravam, mãos desprendiam-se das coxas apertadas e procuravam outro lugar para estar.

Virou-se para o lado, subitamente consciente do quanto a história podia ter afetado Leila. Ela chorava, mas não muito; lágrimas únicas e finas desciam, devagar, por um rosto duro de paz. Voltou-se para frente de novo quando um novo membro da roda recomeçou a fazer música.

Depois...

Seimor abriu a porta da própria casa.

— Como sabe onde eu moro?

— Perguntei para o secretário. Quando ele disse que você estava ocupado. — Explicou Leo. — F-fui até a…

— O que você quer?

Leo concordou com a interrupção em dois gestos quase robóticos da cabeça — “Droga“, pensou; parecia mais obstinado e enraivecido antes de bater à porta.

— Eu não estou gostando da situação da banda, e…

— Somos dois.

— Mas é… É claro, olha… Olha essas duas novas na banda! E-elas são… Elas não têm iniciativa, só obedecem, e hoje fizeram tudo errado, e… E onde nós temos tocado, S-Seimor, são lugares horríveis, distantes, quase sem público! Nós somos tão ruins assim que não merecemos lugares melhores para tocar? Só éramos bons por causa da Leila e do Beneditt?

— Sim. — Respondeu Seimor, de queixo erguido. — Vocês são péssimos agora. Mas são meus. E vou aproveitar esse fato celebrado em contrato o quanto eu puder.

Leo afastou os olhos do homem impassível, que ainda segurava a porta.

— Isso vai durar muito tempo?

— Sim.

Seimor começou a fechar a porta, mas Leo avançou sobre ela.

Espera! — O agente a abriu de novo, devagar. — … Eu quero uma chance. U-uma chance para mostrar algo novo!

— Algo novo?

— Sim. Novo.

— Vai trocar de garganta e ganhar uma voz nova.

— Não. — Disse o músico, deixado de lado a adivinhação. — Mas…

— Então duvido que eu vá gostar.

— O que você tem a perder? — Perguntou Leo, com as sobrancelhas levantadas e as mãos na cintura, antes que o agente tentasse fechar a porta de novo. — Dinheiro?

Seimor o observou com atenção. Leo lembrava-se do que Mumba havia lhe dito: ele gostava de controle. Ser pressionado contra a parede não era o jeito como gostava de conduzir qualquer coisa, mas talvez não houvesse qualquer outra abordagem possível.

— Cinco dias de ensaio… É o que eu peço!

Seimor deu um passo para fora de casa; Leo recuou, sem querer fazer o mesmo com o olhar. Já encarava Seimor com um pingo frágil o bastante de ousadia.

— Dou quatro dias.

Depois...

Leila e Beneditt começavam a se integrar como podiam aos modenais. Pegaram roupas emprestadas, em especial daqueles cujos nomes já conseguiam puxar mais fácil da memória. Aprendiam aos poucos a fazer o que os outros faziam. Já até sorriam, ao longo do dia, do jeito que eles sorriam — abertos, vagarosos, falando baixo; como se cada alegria fosse preciosa e eles mal pudessem esperar para ver mais uma.

Naquela noite passariam a noite no Deserto Noroeste, que não era tão grande, nem tão seco, quanto o Imiorina, mas tinha seus encantos. Em especial a fina linha de dunas que seguia rumo ao Leste a perder de vista; montariam acampamento por algumas horas sobre um banco de areia. Os dois carregavam trouxas de utilidades enquanto caminhavam com o grupo até o lugar.

— Ei, Anraig. — Chamou Beneditt, chegando mais perto do homem no meio da formação dispersa em peregrinação. — Vocês sempre viveram aqui? Por perto de Jinsel?

— Ah, não… Não chamamos nem mesmo essa floresta de casa. Nós não temos um lar.

— Por que não?

— Porque… — Ele parecia escolher, olhando para o chão à frente distraidamente, a melhor maneira de responder. — Não nos sentiríamos em um mesmo se tivéssemos um. Olhamos demais, Beneditt, para o abismo em volta de onde estamos.

Beneditt olhou para Leila, que seguia mais atrás, sem conseguir dizer se ela prestava atenção à conversa.

— Não entendi.

— Para as coisas que nos puxam para baixo numa compulsão. Para as coisas tristes, para as coisas que dão errado. Para o tipo de coisa que interrompe sonhos.

— Como vocês suportam viver assim?

Ele percebeu que mais e mais pessoas olhavam para ele. A conversa nunca fora particular, mas talvez ele devesse tomar mais cuidado com o volume da voz; não sentia-se hostilizado por ninguém, mas por um momento viu-se um pouco empurrado para fora do grupo — talvez em direção de um daqueles “abismos” para os quais gostavam tanto de olhar.

— Não é por pensar na tristeza que estamos tristes o tempo todo. — Respondeu Anraig, com um último sorriso antes de voltar o rosto para frente.

Beneditt apressou dois ou três passos até ficar bem perto do líder.

— Eu quase nunca vejo um sorriso aqui, Anraig… Os seus e quase mais nenhum!

— Existem tantas formas de sorriso quanto de felicidade. — Respondeu ele. — Ou de amor!

Depois...

O fogo coloria os ventos de kerlz-u-sana que subiam, ondas suaves como beijos à distância, pelas colinas das dunas. As estrelas pareciam se multiplicar no céu a cada vez que se olhava de novo para elas. Descalço e com as palmas das mãos afundadas na areia, Beneditt deixou o pescoço suspenso para trás — para poder pensar, para poder descansar; para poder se perguntar, enquanto um arrepio perpassava-lhe os ombros, por que ele estava ali: nas dunas, entre os modenais. Em Heelum.

— Eu… Posso?

Virou o rosto para o pedido de Leila, que tinha o braço estendido para frente; a fogueira lânguida deixava a porção de baixo inteira do membro trêmulo alaranjada e viva como ferro em forja.

Instantes depois da surpresa, a guitarra foi passada de mão em mão. Chegou a Beneditt que, num sorriso cauteloso, passou o instrumento para Leila.

Leila instantaneamente procurou a nota que queria, e tocou uma sequência fina e tão lamuriosa quanto a maioria das melodias que escutavam nas rodas.

Parecia saber exatamente o que queria, e experimentou com as cordas até conseguir. Terminava a sequência breve, de tons mais delicados no final do compasso, com uma vibração que fazia o fim da canção chorar para continuar a ser repetida.

E então ela mudou: começou a tocar um acorde na mesma região do braço da guitarra. Mudou de acordes sem ir muito longe, e então Beneditt percebeu que era a mesma melodia, só transformada.

Quando achou que já estava bom o bastante, Leila cantou por cima do ritmo:

Nós crescemos

Só esquecemos

O que é saber

Ao invés de acreditar

Ao repetir a estrofe surpreendeu-se com o baixista do grupo, que começava a acompanhar o ritmo. Não resistiu a um riso leve no final de “saber” — e em “acreditar” já fazia a música morrer. Não tinha pensado para além daqueles quatro versos que sentiu que precisava mostrar para alguém.

Beneditt estava perto o bastante para perceber o quanto ela enrubescia com a aprovação silenciosa, mas certa, do resto do grupo.

Quando outra música começou do outro lado da roda, chegou mais perto para poder lhe dizer o quanto gostara da canção.

“Obrigada”, disse ela de volta, não conseguindo evitar de pensar que Leo, se estivesse ali, saberia exatamente como melhorar aquela música.