Voz

— Essa é a ideia? — Perguntou Seimor, devolvendo as duas folhas de papel para Leo.

— Sim.

— Falar sobre a guerra, um assunto proibido, foi a sua ideia.

— Sim, porque…

Nem mais uma palavra. — Cortou o agente. — Não perca mais meu tempo.

Seimor jogou as folhas no ar na direção do músico, que as agarrou em plena queda, desajeitado. Sentiu as bochechas queimarem, mas não tremia; uma respiração depois já se conformava com a ideia de que havia se conformado.

Virou-se para dentro do galpão. Ju conversava com Mumba, e Lala guardava a guitarra de Leila. Fjor, parado e virado para ele com um rosto vazio, era o único que sabia do teor da conversa.

Leo ajeitou as folhas na mão. Olhou para todas as direções uma vez mais. Para fora, para dentro e para baixo.

Correu até a charrete na hora em que a porta se fechava. Pediu para Seimor abri-la de novo.

— Hoje enquanto vínhamos para cá eu ouvi uma menina perguntando para a mãe onde estavam os irmãos dela. A mãe disse que estavam na guerra. A-a menina perguntou o que era a guerra, e a mãe, que já estava chorando, respondeu que não sabia. Pediu pra menina não falar daquilo.

Comovente! — Ironizou Seimor.

— Seimor, as pessoas… Não vão dançar até tirar a guerra da cabeça! As pessoas querem falar sobre a guerra, querem que alguém fale sobre isso, mas não tem ninguém falando nada sobre isso!

Tire isso da cabeça.

Leo tirou as mãos do chão da charrete, ao nível de seu peito, e deu o passo para trás que deixou Seimor fechar a porta com força e sem aviso.

Voltou a olhar para as folhas nas mãos: pedaços já maltratados de papel amarelado que ele manteve por perto o tempo todo nos últimos dias. Chegou a montar a música com toda a banda — embora não tenha ensaiado a própria voz perto das duas novatas e do técnico de som.

Guardou-as nos bolsos internos da jaqueta abotoada pela metade que comprara um dia antes.

Vermelha, lembrava-o bem de Leila.

Depois...

Eu sou estranho

Eu vivo mais nesse mundo de adeus

E eu sou estranho

Do seu oi eu me faço mais uma vez

Leo cantava com as duas mãos no minério de som. Incomodava um pouco a falta da própria guitarra, mas Seimor fortemente sugeriu que ela fosse deixada de lado naquela música. O som de duas guitarras a deixava confusa demais.

E era mesmo uma bagunça. Foi a única música da época em que tinha conhecido Leila que os dois levaram para a banda; compuseram-na juntos no afã da sintonia. Era ousada e, sem ideia da bateria e do baixo (que, quando vieram, enlouqueceram tudo ainda mais), criava ritmo com uma guitarra grasnando acordes estridentes para tentar atrapalhar o dedilhado agridoce da outra, cheio de subidas e descidas, brilho num olhar esquecido. A quase constante guerra de quase solos só podia ser acompanhada por uma letra travessa, própria de uma voz adolescente em época de desafino vergonhoso, que logo se transformava em esperançoso refrão.

A guitarra regular, a bateria sólida e o baixo de linhas retas permitiam só o tempo de um sorrisinho minúsculo para brindar as memórias — as adaptações chegaram à letra também, quase que direto do punho do agente, e fizeram “Uma história torta da letra” passar a se chamar “Mais uma vez” — antes que Leo voltasse a cantar: “Você e eu, não estamos sozinhos. Fomos feitos mesmo num só caminho”.

Antigamente cantava “Você e eu, não fomos feitos sozinhos; fomos feitos um para fazer o outro”.

E assim, compomos juntinhos

Um mundo de olá, de até logo e de novo de oi

Acabaram na mesma nota, rápidos, sem alongar demais qualquer adeus. Leo que quis assim: nunca tinha dito o quanto achava que a música tinha sido prejudicada por Seimor, mas não queria dar o braço a torcer para Fjor. Além disso, não queria parecer o sentimental da história — se Leila parecia estar em paz com as mudanças, então por que ele deveria se incomodar?

Quis que acabasse abrupta, sem arrastos. Não queria ser levado junto, mais fundo, na memória.

Deixou o minério de som balançando no palco, dependurado do teto, enquanto foi buscar a guitarra de volta. Ouviu algumas palmas desapaixonadas. Aquela era uma casa de shows mais propriamente dita — aquelas pessoas estavam ali para ouvir música, de fato; não pareciam apressadas para voltar a conversas, comidas, bebidas e ruminações ao final de cada ato.

Inclinado para a frente, prestes a encostar na guitarra, olhou para seu público. Tinha quase se desacostumado com ele depois de vários shows em lugares inóspitos. Seimor lhes dera um público de verdade dessa vez, mas por quê? Se não contava mais com eles, por quê?

Olhou para os companheiros. Fjor olhava para o horizonte do amplo salão roxo com o rosto duro. Lala o observava com uma expressão estranha, como se o tivesse pego roubando maçãs de um agricultor pobre.

A plateia que já não mais batia palmas estava ali, sentada em mesas e cadeiras desajustadas, desalinhadas, carcomidamente dissimuladas com toalhas azuis desfiadas pelas bordas. Ao fundo, um excesso surpreendente de interessados ficava de pé mesmo. Seimor também estava lá, Leo sabia; de algum lugar, possivelmente no bar no começo da casa, ele ouvia tudo com meia atenção.

Pegou a guitarra e, colocando-a em si o mais rápido que pôde, andou até Fjor.

— Se eu não tocar aquela música acho que vou morrer. — Disse, sem deixar de encarar o irmão por um momento.

Fjor trouxe o braço do baixo para mais perto de si. Encarou de volta o vocalista, e num sinal sutil deu a permissão que Leo não precisava, mas queria, para ir em frente.

— Ei. — Chamou Leo, num giro em direção à bateria. Lala chegou mais perto, intuindo que o recado era para ela também. — Vai ser a música nova. Vocês lembram do que a gente ensaiou?

— Mas não tem letra ainda, tem? — Perguntou Lala.

— Tem. Ela tem sim.

Leo tomou seu lugar de praxe no palco e esmagou o burburinho nascente com uma retomada brusca do minério.

— Oi. — Começou ele. — Nós estamos aqui… Para divertir vocês essa noite.

Sentiu cada um dos olhares penetrá-lo com uma curiosidade cheia de julgamento. Era muito pouco provável que qualquer uma daquelas pessoas tivesse ouvido falar de bandas de Novo-u-joss que provocavam debates acirrados entre os moradores — debates em que se discutia o mérito de cada sequência de notas em cada música que resistiu à tempestade do tempo e tornou-se herança da cidade. Ainda assim, era como se fossem, todos eles, críticos. Com olhares semicerrados, ouvidos abertos e braços cruzados.

Leo resolveu olhar para uma mulher mais velha, sentada na mesa mais imediatamente à sua frente. Ela tinha o semblante preocupado, um rosto redondo cercado por um cabelo claro curto e ralo e a cabeça jogada para trás, entediada, suportada quase que bem pouco por um punho displicente.

Olhou bem em seus olhos marcados. Não eram seguros, mas eram melhores de enfrentar.

— Mas também… Nós também queríamos cantar uma outra música. É uma música nova. É uma música diferente.

Não via nada daquilo acontecer, mas sentia que sobrancelhas se levantavam por todo o salão.

— Ela foi feita para falar do que ninguém está falando. Porque as tropas de Dun-u-dengo e de Jinsel, que saíram daqui faz muitos dias, e nela podem estar seus amigos, seus… Familiares. — Começava já a olhar de esguelha para a mulher, que apertava as rugas em retorno, sem conseguir tampouco desfazer a ponte. — Essas tropas foram para lutar, e… Podem… Elas foram para Inasi-u-een, mas podem ter ido para Novo-u-joss, que é onde eu nasci. Minha vó mora lá, e… Eu sinto falta dela. E…

Engoliu e finalmente olhou para o resto do salão. Via uma movimentação ao fundo, e parecia que mais pessoas entravam no lugar. Deviam estar querendo entender o sentido de tanto silêncio no meio de uma apresentação.

— E ninguém está falando disso e nós queremos falar.

Largou o minério de som e esperou. Precisou olhar para trás para fazer Jura, que estava visivelmente pálida, começar a movimentar a bateria.

Ela batia nas quinas de um dos tambores principais numa sequência rápida — dos cliques partia para uma batida no mesmo tambor, o que começava a formar o ritmo solitário.

Leo esperou o tempo certo e, no momento em que por alguma razão começavam a diminuir as luzes azuis que inundavam o palco, começou a tocar a guitarra.

Olhava para baixo, sisudo, prestando atenção na arte do que fazia. No fim da primeira sequência Fjor entrou com as notas bem sustentadas que davam um tom profundo ao que ele tocava — que era a mesma coisa, mas que a gravidade transformava por completo.

Feliz daquele que morreu

Contente com o que ficou

Não foi embora assim

Num papel ruim

Sem dizer sim

Lala passou a fazer os acordes combinados para dar mais corpo à música na segunda estrofe, e a bateria também ganhou força. Seimor chegou à primeira fileira de pessoas que assistiam à tudo de pé, e Leo cantou um verso inteiro olhando em sua direção antes de perceber que ele estava lá.

Te diz aquele que sofreu

E que não se acreditou

Que é melhor estopim

A manhã por vir

E o cair por vir ser

mais…

Maaaaaais!“, alongou-se Leo na ascensão programada de uma bateria que ele via ter vez e voz pela primeira vez desde que Beni se fora. No calor do fim do verso potente vinha uma nova estrofe — e cada instrumento parecia mais comprometido que o outro em tocar mais alto e mais forte.

Te diz aquele que chorou

Que a luz nunca o abandonou

Mas ao cair no jardim

Quando veio o fim

Jurou que quis ser mais…

Ao invés de repetir a palavra, Leo se afastou do minério e começou a fazer um solo. Arrastou a primeira nota o quanto pôde, amedrontado com o que fizera; eles não haviam ensaiado aquilo, e ele só podia contar que os outros continuariam o padrão da estrofe enquanto ele emulava a própria voz num solo previsível. Sabia que com Fjor, pelo menos, podia contar.

Pôde contar com todos.

Foi além; saiu da estrada que lhe abriu o caminho e percorreu, com a paciência que só podia ter tido um músico criado em Novo-u-joss, o braço inteiro da guitarra — das sequências ligeiras no topo até frases mais enunciadas na base.

Sentiu o riso abafado surgir do fundo da garganta sem esforço. Jogou-se para trás, sentindo uma dezena de respingos do próprio suor pularem do cabelo para a nunca. Viu Fjor sair do planejado também, mas manter uma base sobre a qual Leo pudesse prosseguir.

Olhou para Lala e, num descuido, imaginou que ela tivesse tanto entrosamento com ele quanto Leila.

Parou de tocar, esperando que ela assumisse o solo. Ela continuou no ritmo, olhando para ele em pânico; se dependesse de seu rosto, a música se encerrava ali, mas por sorte os braços pareciam responder aos encantos da inércia.

Leo juntou-se a ela no meio do compasso fazendo um segundo ritmo. Com um aceno já sem sorriso, mas de boca aberta, pediu — mandou, sugeriu, instou — que ela fosse em frente.

E ela foi. Abandonou o ritmo e arriscou notas — poucas, bem espaçadas, numa segurança virtuosa que deixava o solo sonhador à medida que ninguém percebesse que ela na verdade não sabia bem o que fazer.

Lala continuou, repetindo o que fizera no último verso e expandindo um pouco mais. Fez um sinal desesperado para que Leo assumisse e ele, sem pensar duas vezes, deu uma passada larga para chegar ao minério de som de novo.

Feliz daquele que amou

Enquanto aqui podia estar

Com a mão errada eu li

Que o melhor pra mim

É se deixar pra trás…

Ao invés de prolongar a rima, ela acabou suave, com todos deixando o último acorde seguir ressoando no espaço junto com o sibilo suave de Leo.

O som parou mais rápido do que ele imaginava para o fim daquela música. Deu um passo constrangido para trás e observou como soldado uma infinidade de silêncios sepulcrais.

Virou o pescoço para a direita num quase espasmo; Seimor começava a se mexer, buscando com pedidos grosseiros de licença espaço entre as mesas em direção ao palco.

— É ISSO AÍ! — Berrou um homem com a voz embargada no fundo da plateia. — É ISSO AÍ!

O avalanche veio um instante depois. Clamores de apoio e palmas vigorosas; os que sentavam-se às mesas levantavam, e antes que Leo se virasse para perceber o que Seimor estava fazendo, viu a mulher mais velha para quem olhou antes da música enxugar lágrimas entre as batidas das mãos.

Seimor apontava um dedo para cima — “Uma”, disse ele por debaixo da algazarra, “Mais uma”.

Leo engoliu em seco enquanto o agente passou pelo palco para acessar a área de trás.

— Leo! — Quase berrou Fjor, chegando mais perto. — A gente pode botar fogo nisso aqui… A gente podia…

— Não. — Cortou Leo. — Acho melhor não.