Duplas intenções

Kerinu ainda estava na cama quando ouviu o barulho na porta e levantou-se num salto.

— Eu quero descer. — Disse para Enrico. — Vou falar com ele.

Enrico abriu a porta do quarto e o seguiu escada abaixo, em silêncio. Kerinu encontrou Byron e Tornero no escritório. O mestre, interrompendo a conversa, olhou para o prisioneiro com um misto de surpresa e decepção.

— Você ainda está aqui.

— Eu sei o que eu quero.

Os bomins franziram o cenho, olhando-se por um instante.

— O que quer?

— Em troca da sua liberdade, quero sua assinatura.

Byron riu, amargo.

— O que está tentando fazer?

— Eu não quero…

— Enrico. — Interrompeu Byron. — Vá.

O espólico obedeceu, fechando a porta atrás de si.

— Explique-se. — Continuou o bomin. — E fale baixo.

— Não quero nada do que é seu. — Recomeçou Kerinu. — Nenhuma terra, nenhum bem, nenhum dinheiro. Não se trata de nada disso, mas preciso de sua assinatura. Me dê a assinatura e me dê algum tempo e você está livre. Este é o primeiro passo.

Ensaiara aquilo muitas vezes na imaginação; não tendo muito o que fazer, pensar era um dos exercícios em que se tornou proficiente. A assinatura lhe daria mais segurança no objetivo que pareceria absurdo para qualquer outro alorfo. Já o tempo que pedia repassava a Tornero como tranquilizante, já que ele certamente lhe mataria na hora em que visse escapar pelos dedos a chance que tinha de tomar o lugar do mestre.

Primeiro passo? — Indagou Byron. — E depois serão mais quantos?

— Nenhum. Eu só preciso de tempo.

— O que quer fazer com a assinatura?

— Já disse que nada de importante vai mudar na sua vida. Além da liberdade do seu iaumo.

Byron apoiou-se com as mãos por cima da mesa, evitando responder ao olhar de Kerinu ou do discípulo.

Sem mais, abriu uma gaveta à esquerda e tirou dali uma folha amarelada completamente limpa.

— Assine embaixo. — Instruiu Kerinu.

Deixou o papel em cima da escrivaninha quando terminou e andou até Kerinu no caminho até a porta.

— De quanto tempo precisa?

— Não sei.

Seja breve. Estou apostando que você quer se ver livre de mim tanto quanto eu quero você longe daqui.

Kerinu assentiu, obedecendo a um comando indiscernível, mas compreensível, para que ele saísse da frente. Olhou para baixo, evitando o outro bomin na sala, que junto ao mais velho marchava rápido para ir embora.

Olhou para trás uma única vez e aproximou-se da mesa; estava ali o rabisco que ele reconhecia de outros documentos. Naquele ponto do papel já podia imaginar o conteúdo da carta. As letras apareciam diante de seus olhos, com contornos doces e sutis, exatamente como precisavam ser.

Sorria, mas parou de fazê-lo assim que ouviu passos do lado de fora da sala cuja porta ainda estava aberta. Procurou um lugar para esconder a carta por fazer, mas suas vestes não possuíam bolsos. Escondeu o papel debaixo de uma pilha de outros documentos, afastando-se da mesa quando Enrico entrou.

— Suba. — Foi tudo que disse.

Kerinu sentiu uma urgência na voz do mago que o fez quase correr. Virou à esquerda no final do corredor do segundo andar, encontrando uma outra escada na próxima curva, logo após uma janela cheia de claridade.

— Aqui está bom. — Disse Tornero, surgindo da escada e prensando Kerinu contra a parede. — O que é que você está fazendo?

— Não interessa.

— Não INTERESSA? — Rugiu ele. — Você não pode fazer isso, seu alorfo no…

— Eu não me importo.

— E se eu disser para Byron que eu menti e que se você morrer ele vai ficar livre?

— Você já apostou na desconfiança dele uma vez. — Respondeu Kerinu, desafiando o bomin com o olhar. — Se fazer isso de novo ele vai achar que você percebeu que tem muito a ganhar e está mentindo, e já não vai saber mais como confiar em você. Especialmente se você disser que mentiu da primeira vez.

— Eu fiz mais pesquisas.

— E ele vai querer saber quem foi dessa vez, e eu garanto que é preciso ir mais longe que um bar numa jir de uma cidade como essa para achar quem conheça o que eu fiz com ele.

Tornero prendia os músculos da boca, sem resposta, até puxar Kerinu da parede só para empurrá-lo de novo.

— Ele não pode ficar livre de novo, alorfo. Você que não faça nada de errado porque eu vou fazer ele morrer. Eu disse que você estava vivo por causa da minha vontade, não livre.

Kerinu aproximou o rosto de Tornero.

— Lidei com você uma vez e posso lidar de novo.

Tornero empurrou Kerinu para o lado, quase fazendo-o cair. Tirou Enrico da frente e seguiu pelo corredor para ir embora.

Em todo o trajeto imaginou-se voltando até lá e infligindo um pouco mais de dor localizada àquele insolente que ousava ameaçá-lo — mas Byron não poderia suspeitar qualquer conexão tão direta entre os dois. As ordens dadas a Enrico não permitiam a tortura.

Não havia mais tempo para esperar que Byron se enfraquecesse sozinho. Ainda precisava arranjar alguém que levasse a culpa por ele, com circunstância, motivo e, se possível, confissão — os discípulos eram sempre os primeiros suspeitos da morte dos mestres.

Precisava fazer tudo logo.