A batalha de Ia-u-jambu

Christine, Richard e Jen assistiam de uma janela alta do segundo andar o ritmo das ruas. Os inimigos estavam às portas da cidade, e os oficiais do exército usavam minérios de som para prometer alimento e abrigo para quem quisesse engrossar as fileiras das tropas defensoras. Aqueles que aceitavam a promessa barganhavam os termos do acordo: primeiro a comida, depois o uniforme e as armas. Ao mesmo tempo e a poucos passos das cenas, guerreiros do lado de dentro de outros muros e outros portões defendiam as casas contra a pilhagem; pelo lado de fora, a ação era coibida pela polícia, braço do exército esvaziado na transferência de forças para as muralhas.

Jen esticou o pescoço, tentando ver algum pedaço da frente da casa.

— Por que ninguém tenta invadir aqui? — Perguntou ela. — Eu não lembro de ter visto nenhum guerreiro contratado do lado de dentro… Ou de fora…

— Não sei. — Falou Richard, com o mesmo semblante sério há tempos adotado e querido como filho. — Sei que as coisas não vão nada bem fora dos muros… As jirs juntaram-se ao Conselho.

É claro! — Disse Jen, fechando os olhos. — Sentiram-se traídas pela decisão de fechar o centro.

— Não é como se elas tivessem ficado à míngua! — Protestou Chris. — Digo, a comida daqui vem em grande parte de lá, então bem servidos eles estão!

— E exatamente por isso ficam abertos à pilhagem! — Disse Richard. — A única outra explicação é que… Foram controlados. Pelos magos da tropa.

Aposto que é ressentimento mesmo… Se eles ficaram mesmo em perigo por fecharem os muros não me surpreenderia, já que é como o Kinsley costumava dizer nas reuniões: sempre desde que a hierarquia e o poder centralizado surgiram nas cidades, seja lá quando isso foi, só existe a preocupação de resguardar os mais ricos e “importantes”.

— Será que eles vão atacar invisíveis? — Perguntou Jen, arrumando o cabelo involuntariamente. Sentia um calor subir-lhe o corpo aos poucos, e resolveu deixar de olhar pela janela; tudo que via só a deixava com mais certeza de que a cidade sucumbiria. Se não para os inimigos, desgraçada sobre si mesma. — … Como… Fizeram na Cidade Arcaica?

— Por enquanto não. — Respondeu Richard. — Pelo que ouvi eles estão bem visíveis do lado de fora.

— As esferas de bronze devem ter acabado. — Disse Christine. — Kinsley disse que eles só vieram invisíveis agora porque demorou eras e eras até que as cidades conseguissem reunir a quantidade de esferas que precisavam para deixar um exército inteiro invisível… Porque se pudessem, todas as tropas de Heelum lutariam invisíveis sempre.

Jen amarrou o rosto para ela, tentando conter a irritação que queria transbordar como rio irrepreensível.

— Você anda falando demais com Kinsley, Chris. E acho que está dando pouco crédito pras pessoas.

Surpreendeu-se quando a amiga virou para ela. Era agora capaz de ver o rosto completo de Christine: não fazia ideia de que ela chorava.

— Estamos numa GUERRA, Jen. E não é lá fora, não, é aqui dentro, na nossa cidade. Estamos lutando contra covardes que vão derrubar nossos muros, destruir tudo aquilo em que acreditamos, misturar um bando de magos na cidade livre de magia que nós conseguimos construir com tanto esforço para viver em paz, em… Sei lá, em democracia, em liberdade…,

— Chris…

— E o pior é que toda nossa pesquisa e toda nossa inteligência e nós estamos aqui sem poder fazer nada a não ser assistir essa… Essa… — Apontava para a rua com dedos que logo se reuniram de novo, selando a ira no punho fechado. Fazia uma palavra atropelar a outra, como se apostasse corrida até o chão entre discurso e lágrimas. — De onde você tira forças para “dar crédito” para as pessoas, hein? Nós somos tão incapazes de olhar uns pros outros, de respeitar uns aos outros, de sentir o que o outro sente que precisamos de uma “luz” branca que nunca existiu para ajudar a gente a fazer isso… Não é óbvio que essa porcaria nunca existiu, Jen? Ela só existe como DESCULPA para qualquer coisa que fizermos. “É porque não tem mais luz!”, vão dizer sempre… “Porque a Rede de Luz foi embora!“. Claro, com certeza… Bando de… Malditos

Quando Christine quebrou o contato visual, caco de vidro arranhando tudo que acertava, Jen olhou para Richard, que parecia alheio ao desabafo — ou tão impactado por ele que não queria compartilhar nada com ninguém.

Sentia-se tola, até mesmo insensível, por não se sentir do mesmo jeito que a amiga. Tinha certeza de que estava tudo errado, é claro — e tinha plena consciência de que tudo estava fora do lugar — mas não chorava.

— Quer saber de onde tiro essa força? — Disse Jen, empurrando os óculos de volta para o topo do nariz.

Hm.

— De você.

Christine fez um muxoxo embargado. Enrugou a boca, rearranjou o cabelo, cruzou os braços.

— Para com isso…

— Eu amo você, Chris. Você é a minha melhor amiga, e…

— Ah, para logo com…

A voz foi sufocada no abraço forte. Quando Jen a recebeu, sentiu os olhos apertarem pela primeira vez em muito tempo.

— Eu também quero um abraço… — Choramingou Richard.

As duas riram, uma mais engasgada que a outra, e abriram espaço para o choro seco do ex-militar.

Depois...

Trancou a porta do quarto e sentou-se à cama. Os outros estavam na sala de jantar, mais silenciosos que nunca, comendo ao som das batidas que chegavam de longe e faziam o coração bater mais rápido — a imaginação era o pior dos dons, pois fazia qualquer um enxergar vívidos destroços mesmo que, e talvez principalmente por, não saber o que estava realmente acontecendo.

Jen não conseguiu comer. A realidade, que ela também não conseguia ver de perto, entrou pelos ouvidos e ganhou corpo à força. Não podia mais adiar a decisão que tomara, talvez há mais tempo do que pudesse perceber: Heelum precisava saber mais sobre o próprio passado.

Tirou o caderno de anotações de dentro do largo bolso interno da capa negra. Abriu a página minimamente rasgada e leu o conteúdo mais uma vez.

Ouviu batidas à porta; num reflexo, guardou o caderno de volta.

— Oi, Jen. — Disse Chris, à beira da porta com um curto sorriso. — O que está fazendo aí? Por que subiu?

— Ah, eu não queria… Ficar sentada lá estava me deixando deprimida.

As batidas não paravam; perfuravam os pensamentos, e o faziam fora de ritmo pois não obedeciam a qualquer lógica regular.

— É, bem… Há um motivo para isso! — Riu-se Chris, nervosa, como se sair da sala de jantar fosse uma óbvia ofensa.

— Eu sei, eu… Eu precisava de um pouco de paz. Por favor não me culpe. — Apressou-se em dizer Jen assim que viu a retorção sarcástica no rosto da amiga. — … Eu estou lidando com outros problemas.

— É sobre a pesquisa?

Era chegada a hora. Se tinha que contar para alguém, seria para Christine primeiro.

— Sim.

— Eu estive pensando… — Disse Christine, mais que rapidamente fazendo o sorriso voltar ao rosto. — E se você quiser eu posso ajudar você com esse problema. D-digo, é óbvio que é alguma coisa com esse seu diário, já que você passa bastante tempo estudando ele no seu quarto quando não está com a gente, então eu… Poderia, talvez, se você deixasseLer o caderno. E ver se descubro algo que possa ajudar você!

Jen abriu a boca; não era assim que preferia que as coisas acontecessem. Havia imaginado chamá-la para o quarto, obrigá-la a se sentar — sempre uma boa precaução para uma grande revelação — e então a mostraria página que havia cogitado incinerar desde que saíra do Pântano dos Furturos.

E no entanto, ali estava ela; sua melhor amiga, que jamais se interessara por animais (ou pelo estudo deles) oferecendo-se para ler o caderno de anotações.

E algo estava definitivamente errado com aquele sorriso; Jen não era exatamente uma grande observadora das mais variadas e sutis expressões que os humanos conseguiam inventar, mas conhecia Christine o bastante para saber que aquele sorriso era apenas um artefato que reuniões sociais desagradáveis exigiam vez por outra.

Fechou a boca, engolindo a coragem frágil que reunira há pouco.

— Mas, Chris… — Riu de nervosismo, tentando suavizar a sensação urgente de que algo estava fora do lugar. — Você nunca leu um diário de animologia, mal leu um livro sequer de animologia…

— Sim, sim! — Interrompeu Christine, tentando disfarçar a impaciência. — Mas uma amiga não pode querer ajudar?

Manteve o riso como arma de sobrevivência, mas sua cabeça trabalhava como nunca. Misturava pedaços e retalhos de informação, e o fazia no pulsar do quebra-quebra na distância noturna.

Era óbvia a razão pela qual a casa continuava imaculada apesar da balbúrdia em que a cidade mergulhara. Por que sempre havia comida disponível para tanta gente num mesmo lugar. As refeições não eram banquetes, mas aquilo não era racionamento; era, no máximo, comedimento.

“É tudo verdade sobre ele”, pensou Jen. “Ele não ficou satisfeito com o pouco que recebeu, e ele percebeu que só a conclusão de que os monstros eram simples animais não poderia ter causado tanta confusão na minha cabeça… Eu não entreguei o diário e ele, naturalmente, desconfiou…”

Ei. — Chamou Christine, dando um passo desajeitado à frente. — Você é minha amiga! Confie em mim!

“Magos podem fazer isso?”

— Chris. — Jen agarrou seus ombros. — Eu confio em você, por isso tenho um pedido muito importante para fazer.

— Sim? — Pediu ela, cheia de esperança.

— Eu vou… Eu vou contar para você um grande segredo… — Jen arquitetava uma forma de, se necessário, passar ao largo de qualquer instrução que Kinsley a forçara a executar. — Algo que não contei ao Kinsley sobre a pesquisa, e que ele provavelmente quer muito saber…

Isso, sim…

— Isso… — “O que ele fez com ela?” — … Mas antes… Para que eu possa contar isso para você…

Pensou em pedir que ela chamasse o Richard até o quarto. Ele saberia dizer se aquilo era algo que um mago faria.

Por outro lado, se Kinsley havia realmente feito com que Christine viesse atrás da verdade… Poderia ter influenciado Richard também.

— Sim?

Lembrou-se do fato que Richard conhecia Kinsley há muito mais tempo — podiam ter compartilhado, ela e ele, dias e dias da mais estranha aventura num pântano distante, mas ele era guarda das reuniões secretas. Não era um membro qualquer. Era da mais absoluta confiança de Kinsley.

— Eu preciso que espere até amanhã. — Resolveu dizer. — E não diga nada ao Kinsley.

— Não dizer o quê ao Kinsley?

— Não dizer… Nada. Não diga nada a ele, sobre nada!

— E amanhã eu venho para cá?

Teria um dia inteiro para confrontar Kinsley. Ela tinha um segredo que ele queria — ele não a machucaria mesmo se ela fosse um problema por tê-lo descoberto.

— Sim… — Pensou um pouco antes de largá-la. — À noite! Depois de não me ver nem me procurar o dia inteiro!

Christine a olhou de lado, como de praxe. Por um instante Jen quase reconheceu a centelha de espontaneidade que sempre surgia em olhares como aquele por parte da amiga.

— Que instruções malucas são essas?

— Quer ouvir o que eu tenho para contar ou não? — Christine arregalou os olhos ao fazer que sim com a cabeça. — Então vá!

Depois...

O barulho de destruição, sem trégua e sempre presente, fez a noite surgir sem ser anunciada. O minério de luz já estava engavetado, mas a escuridão amansada pelo céu pontilhado de cores não seria o suficiente para permitir que Jen dormisse. Estava debaixo da janela, com a cabeça na parede e as mãos sobre o colo, a imaginar a vida depois da invasão — sobreviveria a ela em primeiro lugar? Se a Universidade não fosse destruída pela fúria dos magos, que pisariam livres na cidade pela primeira vez em imemoráveis rosanos, como ficaria seu trabalho? O que o círculo secreto de Ia-u-jambu faria com o documento que pretendia montar para finalizar sua pesquisa e entregar para Kinsley?

Sentiu o peito apertar; fisicamente doer. Não ouvia mais silêncio pontuado por catapultas e lançadores, apenas; as ruas enchiam-se de homens, mulheres, couraça e metal — suas passadas faziam-na sentir protegida de novo, muito embora não ignorasse o fato de estar sendo abraçada por um maremoto. Talvez ficasse feliz por não estar sozinha, mesmo que separada, para o bem e para o mal, de toda aquela gente que só fazia se defender.

Não estava perto o bastante para ouvir do que falavam, mas entendia cada berro, fosse ordem ou desespero, que viesse deles. Quando ouviu as primeiras palavras de ordem mais duras, teve coragem de espiar a partir da borda de baixo.

Viu os inimigos se aproximarem; um mar ligeiro e resoluto de forças contaminando a terra ao redor da mansão de Kinsley. Viu guerreiros tombarem com cortes, com chutes, com flechas, estocadas de lanças traiçoeiras; viu soldados serem dominados no chão e assassinados, visores de elmos levantados para que lâminas encontrassem o caminho da cabeça, das pernas, do pescoço. Viu pequenas charretes surgirem na multidão, yutsis assustados abrirem caminho com a força das patas e barreiras de escudos serem derrubadas pelo ímpeto dos invasores.

Viu sua esperança ir embora junto com qualquer calma que havia conseguido proteger durante todas as horas que levaram até aquele momento. Sua respiração tornou-se entrecortada, e sua visão, turvada por uma dor de cabeça que não soube de onde veio. Passou a mão pelos cabelos, e já não sabia que peça de roupa tirar para resfriar aquele calor que a queimava de dentro para fora. Acabou tirando os óculos, num pensamento tolo, obviamente inconsciente, de que talvez não veria o que não pudesse ver bem — mas fechava os olhos e ainda ouvia berros, urros, ordens e gritos, ambos desafinados, implorando pela vida ou pela eficiência, por favor, na defesa febril que desmoronava.

Ouviu o estouro de portões do outro lado da rua; voltou a levantar o olhar. Colocou os óculos de volta e viu que um grupo de inimigos entrava numa das casas em frente. Desalojava quem lá estava, jogando-os para fora aos agarrões; espadas eram usadas no jardim para cortar suas gargantas assim que saíam, numa fila sem misericórdia na qual pareciam enxergar apenas chato procedimento burocrático.

Sentou-se de novo e dessa vez decidiu não ver mais nada; cobriu a boca com as mãos, sem evitar o choro — segurou a garganta logo depois, num medo irracional de que o próprio quarto iria arrancar sua cabeça fora.

Ouviu uma batida violenta demais e próxima demais para ser mais um ataque à muralha — a virada instintiva do rosto fez o corpo dizer que ela acontecia ali mesmo, na casa em que se escondia.

Apurou os sentidos, engatinhando até a cama; mais uma batida, e parecia que se queria derrubar a porta. Depois de um ranger estranhamente familiar, não houve mais ruído.

“Eles tiveram que invadir as casas que não abriram a porta para eles”, pensou Jen. “Mas se há um mago que ceda a casa de bom grado…”

Levantou-se, passando a mão pelos cabelos; destrancou a porta e saiu corredor afora. Sentiu o caderno, retângulo incomum para o qual o bolso não foi planejado, bater em seu peito enquanto corria. Passou por mais e mais quartos, ouvindo alguns serem trancadas à medida que passava por eles.

Pouco antes de chegar às escadas, um soldado inimigo agigantou-se sobre ela, fazendo-a berrar de susto e atirar-se contra a parede gelada, sentindo o coração espernear.

Ele continuou seu caminho pelo corredor, ignorando-a por completo.

“O QUE FOI ISSO?“, perguntou-se, ainda extasiada, antes de seguir caminho. Encontrou Kinsley no comando da porta, fechando-a assim que o último arqueiro entrou na residência.

— Kinsley? — Perguntou ela, fazendo-o se virar para o alto da escada. — O-o que está fazendo?

Ele olhou para ela; certamente era capaz de vê-la, e mesmo assim não respondeu.

— Você é um mago! — Disse ela, sem resquício de dúvida.

— Sim.

A honestidade a fez parar de percorrer os degraus rumo ao térreo.

— Como pode ser tão franco quanto a isso? Você é tão eloquente e não vai tentar sequer mentir que, dizer que… Está sendo dominado o-ou qualquer coisa do tipo?

— Você está sob o meu teto, buscando proteção de uma guerra que se desenrola selvagem a meros passos desta porta. Você precisa de mim, Jen. Não creio que você constitua grande ameaça neste momento.

Ameaça? — Sussurrou Jen, incapaz de pensar em si mesma daquela forma, mesmo sabendo que deveria. — Você tem coragem de me falar tudo aquilo sobre os magos enquanto é um?

— Não disse nada particularmente negativo sobre os magos e a magia em si, se bem me recordo…

— Sobre os ricos, os poderosos, o-os mais…

— Que não necessariamente são os magos, perceba! — Exclamou o historiador, levantando um dedo enquanto vencia os degraus, pacienta e lentamente, em direção à hóspede. — Você não vê, imbuída dos mesmos preconceitos e hipocrisias que infestam essa cidade, o que a magia é em sua mais simples essência.

— E O QUE É, então?

Ssshh… — Instou ele, franzindo a testa. Jen deu um passo para trás ao perceber o quão perto ele estava. — É uma habilidade. Uma técnica. Uma utilidade como outra qualquer, que temos o direito de entender e o dever de explorar!

— Técnica que beneficia você…

— Tanto quanto você se beneficia de sua inteligência, de seus contatos… Ou da fama de sua família!

Chegaram ao topo das escadas. Ali começava o corredor pontilhado por portas, não muito longe de onde estava a de seu aposento.

— As pessoas das suas reuniões… Você as força a estarem lá?

— Não.

— Você convence todo mundo a acreditar no que você diz?

— Não. Em primeiro lugar seria uma tarefa bastante difícil, e em segundo… Você é capaz de entender que isso não seria exatamente coerente com o espírito das reuniões.

Sentiu uma presença a mais no corredor, e virou-se para trás imaginando um dos arqueiros inimigos. Ao invés disso, viu Richard parado no meio do corredor.

— Richard! — Disse ela, imediatamente voltando-se para Kinsley. — Richard?!

— Discordo, Jen, com a forma com a qual Heelum tem sido administrada por toda uma cultura de líderes e magos há muitos e muitos rosanos. — Ele parecia compreensivo e compassivo, mas cada passo que dava em direção à animóloga só o deixava mais truculento aos olhos dela. — Mas talvez eu possa usar a estrutura para corrompê-la por dentro.

— Você quer espalhar as suas ideias de dentro do governo dos magos…

— Na verdade ainda não decidi qual seria a melhor estratégia. Ideias subversivas têm muito poder numa situação em que todos odeiam a situação corrente.

Jen esbarrou em Richard, que a recebeu com leveza no peito.

— Aqui, Richard… — Instruiu Kinsley, sereno, ao abrir uma das portas do corredor.

— Richard, não

A leveza logo se transformou em força insensível, e o guarda das reuniões empurrou a pesquisadora para dentro do quarto vazio.

Ela desvencilhou-se, encarando os dois alternadamente com toda raiva que vinha não sabia de onde e exalava de cada poro. Kinsley trancou os três no dormitório escuro, pondo as mãos nos bolsos do sobretudo cinzento e felpudo.

— Creio que você está escondendo algo importante de mim, Jen. O que é?

Jen tirou o caderno do bolso interno. Abriu-o depressa na folha já destacada em meio a tantas e rasgou-a por completo.

— … Richard! — Disse o mago, correndo em direção à animóloga.

Chegara tarde; ela já estava agachada, triturando com os dentes a bola de papel que amassara num gesto só.

Foi agarrada, jogada na cama; sentiu um par de dedos tentar abrir sua boca; quase os mordeu, mas conseguiu afastá-los.

A primeira engolida foi seca e lhe deu vontade de vomitar — mas forçou-se a continuar, já nem se preocupando com o lugar onde estava ou o que fariam com ela. Reuniu todas as suas forças no maxilar e certificou-se de engolir o resto da papa mole e sem gosto que restou por cima da língua.

IDIOTA! — Rosnou Kinsley, ofegante. — Estúpida!

Ela virou o rosto, com o peito ainda arfando; sorria, contudo, e reuniu todo seu desdém no olhar que não sabia se seria visto pelo mago.

— Bem… — Comentou ele, com as mãos na cintura. — Que bom que ainda há uma forma de conseguir a informação. E o único jeito de nos contrariar dessa vez é encerrando sua própria vida, Jen. — Dirigiu-se ao comandado, dando-lhe dois tapas cheios de companheirismo em seu ombro direito. — Mantenha-a viva e presa, Richard. Bom trabalho.

Abriu a porta e saiu. Richard o seguiu de imediato, pegando a chave das mãos do chefe no vão entre quarto e corredor.

— Desculpe, Jen… — Ela o ouviu sussurrar. — Eu só sei do meu lugar… E do que é melhor para mim.

Richard! — Chamou ela, esperando que ele a ouvisse, mas Kinsley não.

Foi em vão. A porta foi trancada.