A Batalha de Al-u-een

Tomou seu assento na sala escura e baixa. Sempre teve raiva das reuniões na casa daquele espólico, que parecia ter construído uma residência para anões. Kenner, alto, batia na parte de cima das batentes das portas se não tomasse cuidado; em algumas salas, como aquela, chegava ao teto.

Arranjou os cabelos encaracolados e coçou o nariz, procurando identificar pelos trejeitos e pelos castelos quem mais estava ali. Eram poucos, e apenas os mais importantes ocupavam os lugares na mesa redonda ao centro. O resto, do qual ele próprio fazia parte, ficava com as cadeiras distribuídas pelas paredes.

— Mais ninguém vai vir? — Perguntou um dos magos à mesa.

— Não. — Respondeu outro deles, o dono da casa. — Falei com todos que consegui e esses que não vieram disseram todos a mesma coisa. Que vão fazer o que for decidido, mas não queriam vir.

“Covardes”, pensou Kenner, desviando de leve o rosto da conversa por um momento.

— E o que viemos fazer aqui afinal? — Questionou uma mulher de voz arranhada em cadeira oposta à do mago policial. — Por que correr esse risco todo?

— A batalha por Al-u-een é iminente. — Explicou o anfitrião. — E o exército já abandonou as jirs. Vão defender só o centro.

— Alguém sabe quantos vêm do Norte? — Perguntou a maga, sem obter resposta. — As tropas de Roun-u-joss já chegaram, então se não usarem as esferas de bronze… pode não ser uma batalha fácil…

— Vamos ter que participar. Onde está o meu ex-chefe de polícia favorito?

A sala irrompeu em risadas. Kenner levantou-se rápido, mastigando orgulho, e se esqueceu da altura do teto — bateu o topo da cabeça e logo se curvou para frente, bufando.

Pelo menos eu estou aqui! — Bradou ele, transformando o resto das risadas e dos comentários em silvos de desafio. — Não sou como…

— Cale a boca antes que entremos todos no seu castelo para te dar uma surra como a que você levou de Monji. — Disse o dono da casa. — Agora responda: onde estão os magos presos?

— Não sei, ninguém na polícia do centro sabe. Só Dalki e alguns outros escolhidos a dedo, mas… De uma coisa eu fiquei sabendo. — Mesmo quem o ouvia de costas virou-se um pouco. — Dalki vai transferir os presos para o centro.

— Mas isso é óbvio! — Retorquiu a maga do outro lado da sala. — Se não sobrou exército em nenhuma outra parte da cidade, é claro que eles vão ser trazidos para o centro!

— Kenner… — Chamou o espólico anfitrião. — Descubra onde estão e liberte-os. Não. Falhe.

Depois...

Rainha e Lenzo assistiam Dalki ir embora do lado de fora da porta. O delegado ocupava a charrete da retaguarda no comboio que levava os magos prisioneiros, e veio perguntar se eles iriam embora — avisando-os de que as jirs ao norte eram provavelmente o lugar mais inseguro de Al-u-een para se estar naquele momento.

— Você já dispensou os guardas… — Constatou Lenzo.

— Não poderia pedir que ficassem… Está tudo pronto?

Lenzo entrou no castelo para ter certeza de que não havia deixado nada ainda do lado de dentro. Rainha acabou entrando junto com ele, vagando pelo saguão de entrada sem rumo ou concentração.

— Tem certeza que sua mãe vai me receber bem?

— Sim… Sim. E-ela ficou magoada comigo. Acho que não vai me receber bem…

O plano era levá-la junto com eles para a casa de Rainha no centro. O lugar viraria campo de batalha em breve, mas seria o único lugar em que o exército da cidade poderia protegê-los.

Rainha franziu a testa e voltou-se para a porta, puxando a atenção de Lenzo. Ele logo ouviu o mesmo som que virou o rosto dela — Haro, que entrava no lugar pisando duro e pouco. Com as mãos na cintura, exibia um rosto de quem procurava avidamente por diversão no pior de seus momentos.

— Estão de mudança.

— Vá embora. — Disse ela, sem cortesias. — Você não é bem-vindo aqui!

Você nunca foi bem-vinda aqui, menina, e agora fica me dando ordens? — Disse ele, cuspindo as palavras. — … Você pode ter se precavido com algumas coisas — Continuou, com o olhar fixo e cinzento sobre a filha de Hourin. — mas não sabe de tudo que o seu pai tinha.

— Aposto que você já pegou o que quer, então não sei o que ainda faz aqui!

— Não. Seu pai tinha uma segurança boa nessa quantia que sempre ficou fora dos registros… Fora até de Al-u-een. Eu precisava da presença de um amigo dele em especial para autorizar que eu ficasse com o dinheiro.

— E o amigo estava preso?

Lenzo podia sentir a raiva na voz de Rainha. O medo estava ali, e ele também podia vê-lo — mas ela conseguia mascará-lo bem.

— Não. Não consegui encontrá-lo. Mas isso não vai ser mais problema.

Ele tirou de dentro da camisa amarela papéis bem dobrados, se apenas aqui e ali amassados pelo contato com a pele irregular. Jogou-os entre ele e Rainha, três desprendendo-se uns dos outros até pousarem no chão, separados e semiabertos.

— Não precisa ler…

— … Não vou me abaixar para pegar…

— … Porque eu resumo. Você vai assinar e passar tudo que ainda têm, que era o que o seu pai tinha, para mim.

Lenzo se perguntava se Rainha pensava numa saída ou se considerava a proposta. Distribuíra suas terras como se nada fossem — ou como se o dinheiro do pai, que ela considerava sujo, precisasse sair logo de suas mãos.

Por que não liquidar todo o resto ali mesmo? Começar de novo numa situação que tanto disso parecia exigir?

— Não tenho assinatura.

Ah, não minta assim para mim, menina… — Disse ele, estreitando os olhos. — Acha que eu não ando seguindo seus passos? Você precisou registrar uma para tirar o nome do registro público… Para secar o cofre do seu pai… — Abriu os braços, respirando fundo. — Para passar adiante essas terras aqui, não é?

— E se eu não assinar?

Haro sorriu com o nariz e as bochechas.

— Seu delegado não está aqui para te salvar… As tropas que vêm para pegar a cidade não estão muito longe daqui… Vou deixar você imaginar o que vai acontecer.

Eu estou aqui.

Lenzo apertou os punhos e encarou o capataz, para quem sua presença parecia novidade.

— Você é o filho da Ianni, não é?

Os pulsos enfraqueceram, liberando aos poucos os dedos da pressão.

— S-se você fez alguma coisa com a minha mãe…

— Calma, calma… Não fiz nada. — Interrompeu Haro, com a mesma expressão de crescente curiosidade. — Eu só conheço sua mãe.

Lenzo olhou para Rainha, que parecia esperar por alguma frase impossível, bandida, proibida a sair da boca de um dos dois a qualquer momento.

— Conheci também seu pai… — Sugeriu o capataz, levantando as sobrancelhas. — … Ele não sofreu muito antes da hora, se quer saber.

O alorfo respirou pesado, confuso em tudo que sentia e no que o corpo fazia. Deu passos para trás, espanando as mãos abertas para os lados, tentando reencontrar equilíbrio no amplo vazio acima da tapeçaria em que pisava.

— Lenzo… — Começou Rainha.

— F-foi você?

— Lenzo, calma…

— Você sabia, Rainha?

— E-eu descobri pouco antes do meu pai morrer, Lenzo, que ele… O-o meu pai… Foi responsável pela morte dele sim… Do seu pai.

As mãos dela, quem sabe solidárias às dele, abriam-se em frente ao corpo; tremiam quase tanto quanto o peito do primo. Voltou-se para Haro, que ria silenciosa e discretamente, como se tivesse pregado uma peça nos dois e ninguém tivesse ainda o descoberto.

— Eu ajudei a matar o seu patrãozinho, sabia disso? — Disse Lenzo, fazendo Haro levantar mais o queixo e fechar a boca. — E depois de tudo eu me senti culpado… Era o meu tio… E era muito mais fácil dizer para mim mesmo, para minha mãe, para a polícia que os filinorfos me controlaram… E eu disse, mas… Não foi verdade. Eu acho que eu sabia muito bem o que eu estava fazendo.

— Sabia, é? — Perguntou Haro.

— É. — Rebateu Lenzo, urgente. — E acho que Hiram estava certo, porque não tem por que sentir culpa mesmo. E com você não vai ter CULPA nenhuma!

Correu para atirar-se contra Haro antes que Rainha conseguisse lhe pedir qualquer calma. Os dois se engalfinharam, alternando posições enquanto rolavam duas ou três vezes no chão. Lenzo atacava como alguém possuído pela pior das habilidades e o maior dos ódios; esmurrava e esbofeteava com qualquer lado das mãos enquanto berrava e xingava o inimigo.

Haro sofreu, rosnando baixinho, até que as mãos e as pernas encontraram o caminho da luta. Desvirou e dominou Lenzo por cima, prendendo-o e socando firme seu rosto — uma, duas, três vezes. Transformou palavras de raiva em gemidos arfados de dor; braços pulsantes, com fome de guerra, em membros desconcertados, contorcidos de lado.

Tirou um curto punhal do cinto, mas quando estava prestes a abrir uma chaga no corpo de Lenzo Rainha encostou sua própria lâmina curta ao pescoço do capataz.

— PARE! — Ordenou ela.

Lenzo tossiu sangue boca afora enquanto Haro guardava o punhal.

— O que vai fazer, menina? Comprou um punhalzinho e acha que sabe usar?

Rainha pôs no primo olhos engrandecidos pela coragem e pelo medo, ainda assim pedindo para ser guiada no corte que exigia mais decisão do que aquela de que dispunha.

— Hã? — Insistiu ele. Mirava a porta com frieza, esperando pelo menor dos relaxamentos por parte dela. — O que vai ser?

Lenzo não quis encorajar nem a bravura nem a ansiedade da prima. Observou com um alívio inesperado sua decisão de puxar para si a faca e afastar-se de leve.

— Largue-o e vá pegar os papéis. — Disse ela, seca. — Eu vou assiná-los.

Depois...

Dalki gostou do tamanho da tropa de Roun-u-joss destacada para acompanhá-lo. Vestidos, protegidos, armados; ocupavam um planalto cheio de particularidades na região alta que era o Sul de Al-u-een. Estavam entre duas grandes jirs ao norte e ao sul, além de entre duas veias do Rio Ia que, a ponto de deságue, abriam vales fundos pelas laterais. Dali enxergavam a boa distância, preparando-se para o ataque que certamente viria assim que os inimigos descobrissem, de alguma forma, que os importantes magos prisioneiros estavam em um castelo à beira-mar, não muito longe a sudeste dali.

O general de Roun-u-joss que comandava o batalhão se aproximou. Era homem algo e magro, com olhos castanhos enervados, insones, de um jeito que incomodava Dalki.

— Tu és o chefe da polícia da cidade? — Disse ele, após o aperto de mãos.

— Sim. Obrigado por nos ajudar.

— Se Al-u-een cair, Roun-u-joss não está muito longe. — Dalki se perguntou se deveria gostar da declaração do aliado. — Os malditos estão muito longe?

— A última notícia foi de que passaram por uma jir do Norte.

O general balançou a cabeça. Trazia o elmo debaixo do braço, e na cintura uma espada longa de comprimento ainda maior que a regular que Dalki carregava.

— E os outros malditos… Já estão no castelo?

— Sim. — Respondeu Dalki.

O general fez pouca cerimônia para chegar mais perto do delegado.

— Eu vi o estado em que eles chegaram. Enfraquecidos por falta de comida.

— É o que determina a lei. — Disse Dalki, falando mais baixo tanto pela proximidade quanto por efeito.

— Há tempos que nós em Roun-u-joss fazemos melhor. É sabido que o minério de sete lados que mata humanos, quando diluído em muita água, só degenera, enfraquece… Não mata. Acertamos a quantidade certa para colocar na comida que eles comem… E se param de comer porque a comida enfraquece… Ficam fracos do mesmo jeito, mas aí a escolha já é deles.

— Não entendo como este método pode ser melhor.

O general chegou ainda mais perto. Dalki se recusou a se mover.

— De vez em quando há quem erre a mão na receita e dilua muito pouco o minério sangrado… E alguns malditos vão-se indo… Depois da covardia da Cidade Arcaica muitos têm caído duros no chão após as refeições…

— Você recomenda o método, então?

— Só estou dizendo… — Arqueou as sobrancelhas para cima como se nada dissesse. — Não pensas ser muito trabalho? Nós, aqui, por causa desses vermes?

Dalki demorou para responder. Em seu íntimo pensava o tom apropriado para dizer o que queria: era preciso convicção, mas também uma retórica que ele, por não possuir, só podia ver compensada pela fé na tradição que aprendera a defender desde sempre.

— Nunca poupei esforços para defender a lei da minha cidade. Lutamos para viver assim, e é isso que eu quero e vou preservar. Não vou tomar atalhos, senhor general.

O guerreiro distanciou-se, desdenhoso da resposta. Dalki podia apostar que ia acabar ouvindo algo de volta, mas o general voltou para a tropa em silêncio.

Depois...

Não havia cheiro de tomates do lado de fora dessa vez, e Lenzo não conseguiria dizer, pelo céu apenas, se chegaram à casa da mãe ou não. Quando a charrete finalmente parou, levantou-se num susto; sentiu o rosto inteiro latejar. Rainha correu até a porta e nela bateu depressa, vezes tais que chegaram a acreditar que não havia mais ninguém lá. Quando Ianni finalmente abriu a porta, olhou confusa para a sobrinha.

— Rainha… O que está fazendo aqui?

— É o Lenzo… E-ele está machucado.

Ianni deu um passo para fora e viu o filho acima da charrete. Quando as lágrimas comprimiram o rosto de Lenzo de dentro para fora, sentiu seu crânio doer mais. A mãe o olhava com preocupação, mas analítica como de praxe — nada como a corrente de sentimentos, exceção que ele esperava, secretamente até para si, causar nela.

— Traga-o para dentro. — Pediu ela para a sobrinha.

Rainha ajudou Lenzo a desembarcar. Ele apoiou-se nela na procura ávida pelo assento cáqui do sofá, onde foi logo se deitando. Ianni voltou com um balde d’água e um pano, ajoelhando-se ao seu lado para preparar as compressas.

— A senhora tem algum minério…

— Não existe minério para isso. — Cortou-a Ianni. — Não para esses inchaços… E seria bom se ele pudesse ver logo um médico, porque se algo aqui foi quebrado ele pode ter que costurar a boca inteira…

Lenzo tremeu com a sugestão.

— Ele arranjou esses machucados para me defender… — Disse a jovem ajoelhada ao lado do sofá, dobrando-se em direção ao ouvido da dona da casa. — Ele foi um verdadeiro…

— Pode parar. — Disse Ianni, interrompendo os cuidados. — Eu não sei o que está fazendo com ele, menina. Você não sabe o que ele fez?

— Eu sei. — Respondeu Rainha, séria novamente. — E talvez dê para a senhora alguma perspectiva saber que meu pai é responsável pela morte do seu companheiro, pai do Lenzo!

Meça as suas palavras! — Vociferou Ianni. — Quem precisa de alguma perspectiva aqui é você! Vocês dois, embora para este aqui já seja tarde demais! — Com palavras passou por cima do que Rainha, empertigada como se a qualquer momento não fosse mais aguentar o olhar da tia, pensou em começar a dizer. — Se ele realmente fez isso, é uma pena para ele. Morreu e morreremos todos nós, indo para a inexistência além do horizonte, sim, mas é uma pena que morreu fazendo isso. Meu companheiro, ao contrário do seu pai então e também ao contrário deste meu filho, saiu da vida limpo. Não como um assassino!

Lenzo sentiu a mão de Ianni mais pesada nas compressas.

— E pare de me olhar com esses olhos. — Ralhou ela. — Sou sua mãe e não vou deixar de cuidar de você. Mas seu lugar é na prisão. — Rainha a reprovou com as sobrancelhas, sem ser vista. — … Sou humana também.

Rainha fechou os olhos e balançou o rosto, parecendo prestes a dizer coisas das quais depois se arrependeria.

— Não pode me perdoar como humana? — Grunhiu Lenzo.

Ianni interrompeu o gesto, deixando-o pela metade.

Engoliu duro antes de murmurar que “não vejo como”.

Rainha se levantou, parando antes do corredor que levava para o lado de fora.

— Queríamos buscar a senhora. — Disse ela. — Levá-la para o centro.

Ianni virou-se para a sobrinha com o rosto inteiro franzido.

— Por quê?

— P-porque lá é mais seguro. A-aqui…

— Está fora de si? — Indagou ela, ficando de pé.

— Não há nenhum exército fora da jir central, e-e os inimigos estão vindo…

— E você quer ir justo para onde os dois exércitos vão se encontrar, minha filha? — Ianni gesticulou até juntar as mãos num gesto esmagador à frente do rosto. — Os inimigos vêm do Norte, não vão passar pelo oeste!

— Como sabe que não? Eles são magos, são…

— São espertos e não perdem tempo! Não têm nada que fazer aqui, assim como você não tem nada que fazer no centro agora!

Rainha não conseguia mais olhar para Lenzo, mas tampouco poderia buscar sua aprovação. Gostaria de ter contado antes para ele que ainda não havia achado aplicação proveitosa o bastante para boa parte do dinheiro de Hourin.

Haro podia não ter posto as mãos em todo aquele ouro — mas em breve teria controle oficial sobre sua casa na jir central, e lá encontraria, agora desguarnecida, toda a quantia que havia resgatado dos bancos.

— Eu tenho algo que preciso fazer.

Depois...

Tinham certeza de que seriam atacados à noite, e a impressão fatalista de que não veriam ninguém chegando. As notícias que vieram da Cidade Arcaica foram poucas — os boatos, multiplicados e multiplicantes, muitos. Ouviam falar de soldados que carregavam várias espadas nas mãos, invisíveis, e matavam pessoas demais ao mesmo tempo com um mero girar do corpo. Ou de guerreiros que rastejavam ao invés de andar, de modo que ataques comuns à frente não acertavam ninguém: quando estavam próximos o bastante, gostavam de cortar tendões, arrancar pernas, sangrar coxas, perfurar genitais. As ilusões das esferas de bronze não apenas os deixavam invisíveis, mas também terríveis: a última coisa que se veria antes de morrer seria monstros gigantes, ou yutsis de fogo, ou ainda seres encapuzados e acorrentados cujos olhos cinzentos não traziam nem vida nem morte; só a dor derradeira antes do fim.

A realidade foi bastante diferente. A tropa, posicionada em camadas na praça à frente do parlamento, tinha ampla visão dos postos avançados que, ao trocarem minérios de luz azuis por vermelhos, indicavam o caminho que os inimigos faziam. Uma luz verde significaria vitória, pelo menos parcial, e a indicação de que deveriam provavelmente avançar. Conseguiam ver vários postos em várias direções, e na linha de visão reta mais aberta que tinham podiam observar quatro luzes azuis; em outras, tinham visão de duas ou três. Quando a primeira luz na distância tornou-se vermelha, as atenções voltaram-se para o Noroeste.

Mensageiros a pé e em charretes leves corriam, cada vez mais numerosos, ao longo das laterais da praça. Quando a segunda luz na linha da primeira ficou vermelha, surpreendeu a todos a quantidade de outras luzes de mesma cor em toda a frente norte. Fixados como estavam naquela ponta do ataque, não perceberam o avanço bem menos concentrado dos adversários.

A segunda-em-comando ordenou a preparação imediata da primeira onda de guerreiros, e estes não entenderam por que deveriam estar a postos se as luzes mais próximas a eles continuavam azuis — “ESTEJAM PRONTOS!”, berrava ela, mesmo assim, por detrás da formação. Ficava ainda à frente da segunda tropa, uma leva de yutsis de guerra que aguardava, protegida pelos lados, o momento da libertação. Os tambores carimbavam as ordens, avisando também a camada de trás, defesa última do Parlamento da cidade.

Quando a luz mais próxima ficou vermelha, já foi tarde. Os compridos escudos foram empurrados com força contra os lanceiros e espadachins nas linhas de trás. Os primeiros corpos, com cabeças ou pescoços cortados, apareciam sem explicação aparente; golpes fundos nos elmos, prováveis machadadas, no mínimo desacordavam soldados que não eram mais úteis para a proteção dos lanceiros, que estocavam sem alvo ao tentar acertar alguma coisa na direção óbvia. Graves sons e estouros, mais percebidos pelo jeito como faziam os ossos vibrarem, comandavam a saraivada de flechas que partiria do parlamento.

A segunda-em-comando percebeu o avanço inimigo pelas pontas, que esvaziava o centro alvejado pelas flechas e envelopava a primeira camada de tropas, já quase completamente desprovida de escudeiros. Voltou-se rápido para os responsáveis pelos yutsis, pedindo que estes fossem soltos para as laterais ao invés de para a frente. Levou palavra ao comunicador para que dirigisse as flechas e os lançadores para as laterais, e só então, enquanto tudo era arranjado, correu para reordenar o que sobrava das primeiras tropas numa formação circular de emergência.

O círculo foi se fechando, com pontas audaciosas de lanças exalando de um centro oco a pouca proteção ofensiva que podiam oferecer. Ao som de um “AGORA” mal gritado pôs-se em marcha o galope dos animais e o elástico que lançou grossas e oblongas pedras em direção às supostas linhas inimigas, além de novas flechas que cortaram o ar para as laterais descobertas da praça. Corpos inimigos começavam a aparecer — surgiam acima do chão, jogados para longe pelas pedras atiradas pelos lançadores; caídos no chão, com uma flecha fincada apontando para o céu; amontoados, torcidos após um encontro duro com um yutsi.

Os animais já haviam passado pelas linhas inimigas, e agora corriam em círculos pela área onde as tropas invisíveis deveriam estar. A segunda-em-comando percebeu o estado da primeira camada, ainda bastante parecido com o anterior. Analisou os flancos para além da praça, e ao ver que só havia luzes vermelhas para onde quer que olhassem, ouviu também as ordens ritmadas do general vindo de dentro do Parlamento. Os destacamentos laterais foram dizimados; a última camada, que guardava as escadarias do parlamento, dividia-se ao se adiantar para proteger a entrada do prédio, prestes a rasgar-se ao meio se muito provocada.

“RECUAR”, Berrou a segunda-em-comando, garantindo em seguida que o comando se transformasse também em batidas de bumbo. Assistia o dissipar rápido da formação circular à frente; os guerreiros corriam, com as costas pesadas arcadas para a frente, em direção ao rasgo já declarado da última defesa do Parlamento. Ela acompanhou a tropa na corrida, deixando-se ficar para trás.

Não foi rápida o suficiente para escapar ao projetil que a arrebatou, arrastou-a pelo chão duro e pela grama adiante, e a fez ofegar de horror quando percebeu-se incapaz de se levantar. A pedra de um lançador inimigo, atirada às suas costas, quebrara seu corpo como a um graveto. Sua consciência abrandou-se até ser levada pelo torpor.

Depois...

O berro de um dos soldados da sala de reuniões dos parlamentares não deu margem a especulação. Deixou óbvio, de um jeito absurdamente feio e deselegante, que o símbolo maior de Al-u-een cairia em mãos inimigas — “ELES VÃO ENTRAR!”, disse e repetiu o impressionável de elmo.

Alguns parlamentares exigiam que se trancassem as portas, mas quanto mais os soldados passavam pelo portão principal da sala mais era possível perceber que eles não vinham defender ninguém; fugiam, usando a sala como rota, e no máximo faziam o favor de avisar que não havia possibilidade alguma de travar luta contra seres invisíveis.

Minoru seguiu o fluxo de sua poltrona até a saída alternativa, entrando no longo corredor até os fundos do prédio. Sentia-se desajeitado ao correr; bobo, até. Não acreditava, no fundo, que depois de se tornar um parlamentar teria um dia a necessidade de correr por sua vida. Batia-se de ombros com um assessor de sala, homem alto, careca e largo, além de sentir o suor e o barulho metálico de guerreiros armadurados à frente e atrás de si.

Passou a estranhar aquele próprio corredor; passara tão poucas vezes por ele que agora parecia-lhe longo demais. Até mesmo impróprio. Só foi reconhecer alguma coisa novamente, tirando de si metade do peso que afligia o peito e fazia o rosto entortar-se em feições de pena de si mesmo, quando viu a abertura à direita que levaria à seção traseira do prédio. Estavam perto da saída, para onde iriam ao seguir em frente ao invés de virar à direita: o pequeno jardim dos fundos, perfumado e iluminado, gracioso demais para a guerra.

Foi puxado com força para dentro do corredor à direita, pressionado contra uma de suas paredes à meia e cortante luz verde. Viu o policial que substituiu Dalki como chefe de polícia por pouco tempo na estação anterior agarrar a gola de sua capa; tentou apertar-se para fora do cárcere, mas Kenner era mais forte — o policial deu-lhe um soco, tornando-o mais manuseável.

Onde estão os magos presos? — Perguntou Kenner, olhando-o de baixo para cima como se a primeira fosse a última chance. — Sei que o delegado é seu amigo e deve ter dito alguma coisa…

— Eu não sei…

Sabe! — Rosnou Kenner, apertando o aperto nas mãos. — Sabe e vai me dizer!

Depois...

Rainha sempre achou os yutsis animais inconstantes, o tempo inteiro irritados ou amedrontados. Tentou frear quando chegou em frente à própria casa, e acabou parando tão bruscamente que teve o corpo jogado para frente. Não chegou a cair, o que provavelmente teria causado em seu rosto, no contato com a casca dura das ancas dos animais, efeito igual ou pior ao que Lenzo sofrera com os socos de Haro.

Correu para a porta de casa e tirou do pescoço um colar com o molho de chaves. A rua estava tão deserta quanto o resto daquela zona da cidade; por ali viu apenas postos de obervação, meras escadas verticais cercadas por colunas finas de corvônia e minérios de luz vermelhos no topo.

Não conseguia achar a chave certa; sabia qual era, mas suas mãos tremiam e não conseguia diferenciá-las direito. Olhou para o lado depois de um som que, tinha certeza, era movimento dos yutsis — mas olhou mesmo assim.

Algo chamou atenção na esquina distante. Sobre a virada à esquerda incidia a luz de um minério lilás bastante claro; folhas rodopiavam no chão, empurradas por um vento infantil. Um instante depois, duas delas pararam.

Olhou para o evento com curiosidade; interrompidas no chão, as folhas pareciam presas por uma força que as dobrava, sorrateiramente determinada a acabar com a doçura do vento pequeno. Quando voltaram a girar, Rainha pôs-se a olhar para a rua ao nível dos ombros. Viu surgir, numa porção já mais escura do espaço, um guerreiro e seu machado. As mãos e a arma apareceram primeiro — seu corpo foi colorindo o ar a cada passo, materializando-o com uma escuridão maior que a da penumbra.

Retornou à procura da chave, sentindo-se estranha no próprio corpo; suas mãos escorregavam de chave a chave, e um grito fino que desde menina achava não ser mais capaz de produzir escapou de sua garganta quando um arrepio gelado ergueu cada pelo de sua nuca.

Encontrou a chave e arcou-se toda até o buraco da fechadura. Trancou a porta assim que entrou, sem se dar tempo de verificar a posição do guerreiro.

Deu alguns passos para trás. As janelas estavam cobertas, todas — e ao som de sua respiração pesada, que por um momento era tudo que ouvia, juntaram-se as batidas rápidas de seu coração. Pôs as mãos ao redor da garganta, desejando com força poder deixar de ouvir os sons do próprio corpo. Pareciam augúrios de uma morte estúpida.

O baque na porta a fez cair no chão num pulo para trás; um golpe de machado abria caminho pela madeira — ela já podia ver um feixe tímido de luz cortar uma porção da sala da esquerda para a direita.

Apoiou-se na grossa poeira do chão e tateou pela parede. Quando encontrou a referência, soube para onde deveria ir para encontrar a escada — o novo baque marcou simultaneamente a entrada de mais luz na casa e o encontrão que deu em algo que era, definitivamente, uma outra pessoa.

— Calma! — Pediu a voz feminina.

Rainha puxou seu punhal no susto e golpeou o espaço à frente — mas a mulher, que parecia tão jovem quanto ela, escapou ao recuar. Ela tirou um minério azul de onde quer que o guardava antes e mostrou o corpo alto e fino, mero acessório do rosto que chamava a atenção por estar coberto com uma máscara acima do nariz, tão azulada quanto sua luz.

— Calma! — Repetiu a mulher, sua explicação cortada por outra machadada. — Você não vai me ferir com essa coisa!

— Eu posso sim!

— Cer… Só me escute! para o segundo andar agora!

Quem é você e o que faz na minha casa?

Quando o último barulho foi estrondo grave, Rainha virou-se para a porta; viu-a arrebentada pelo meio e seu vândalo surgindo, sem pressa, pelo buraco que ele ainda se esforçava para aumentar à medida que avançava.

A invasora mascarada tomou a frente da escadaria. Puxou uma espada curta da bainha na cintura e pôs-se em guarda, desafiante. Rainha subiu dois degraus para trás, e quando ouviu um barulho azedo — algo que podia até classificar como risada — obedeceu prontamente a invasora em sua ordem de subida de antes. O guerreiro desaparecera diante delas, a visão de seu corpo sendo consumida pelo ar como papel queimado pelas beiradas.

Entrou com pressa no corredor do segundo andar, deixando de sentir a presença de quem não sabia se deveria chamar de amiga ou inimiga. Viu então sua fraca silhueta, delineada pelas grossas vestes cor-de-barro, no topo das escadas; ela também havia subido.

Ajustou o corpo e percebeu que ela montava guarda ali, com espada em punho e postura regulada para defender-se do inimigo que viria de baixo.

O que está fazendo?

A guerreira tomou impulso com os pés e mergulhou em direção ao guerreiro invisível; Rainha correu de volta até o topo da escada e a viu rolar grosseiramente nos degraus de madeira até chegar ao primeiro andar.

No fim, pairava acima do chão, de barriga para baixo e com um braço estendido para cima, firme no cabo da espada cuja ponta não conseguia ver. Quando o machado apareceu, solto no chão, o corpo do homem abaixo dela foi-se revelando, esvaído como agora estaria o efeito da esfera de bronze que ele provavelmente carregava para se tornar invisível.

A guerreira mascarada se levantou com cuidado, tirando a espada do peito do adversário. Virou o rosto para a porta por um instante, possivelmente preocupada com aquela óbvia vulnerabilidade, e voltou-se para Rainha.

— Pegue o dinheiro e vamos embora, por favor.

— Eu sei quem você é. — Disse Rainha, balançando a cabeça agora que tinha certeza. — A sua máscara não muda a sua voz.

As duas se olharam entre as duas pontas da escada. Rainha não ouvia mais os sons de seu corpo tão fortes quanto antes.

— Você vinha aqui pegar o ouro de qualquer jeito, não é? — Continuou ela.

— Rainha… Tem muitas coisas que você não sabe.

— Seu pai mandou você aqui antes de ser preso?

Não, Rainha, olha… Eu prometo que vou explicar tudo, está bem? Mas não agora. Agora nós temos que ir.

Depois...

Se pescoços quebrassem em Neborum, o iaumo de Kenner teria quebrado o seu; virou-o com rapidez insuportável assim que ouviu o ranger da porta de seu castelo.

Você é um mago? — Perguntou ele a Minoru, escrutinando o fundo de seus olhos. — … Não

O parlamentar, que tinha um olho enxaguado e via no seu lado esquerdo grupos embaçados de pessoas fugindo pelo lugar por onde ele também deveria passar, não conseguia entender o propósito daquela pergunta.

— Não… Nunca!

— Claro que não… — Sussurrou de volta Kenner.

Correu pelos corredores avermelhados até o comprido e esguio saguão inicial de seu castelo; lá viu, à frente da porta fechada, um guerreiro de completa armadura reluzente. Seu elmo escondia os olhos por debaixo de aberturas verticais intermitentes, e um brilhante símbolo prateado de Al-u-een estampava o escudo azul que o cobria dos pés ao pescoço pela direita.

— Você definitivamente não é Minoru. — Disse Kenner, endurecendo as mãos com magia espólica. — Quem é você?

O guerreiro não se mexeu. Estava reto, mas ao mesmo tempo não parecia tenso; o braço esquerdo cruzava a cintura, escondendo a mão atrás do escudo na altura da bainha. Relaxado e seguro de si a ponto de nada dizer, estava pronto para sacar a espada.

— Está certo… — Disse Kenner mais para si do que para o inimigo.

Assim que o policial ouviu um som metálico reverberar no salão, lançou uma torrente de magia negra contra o guerreiro. No choque do violento negrume com o aço, cada peça da armadura espatifou-se em uma direção contra as paredes e janelas da sala.

Kenner recuou, cancelando tudo que fazia de imediato; sentiu-se agarrado pelas costas, e de repente abriu os dedos das mãos — largou Minoru de vez, deu alguns passos contidos para trás, e observou com cada vez mais cautela os olhos enraivecidos do parlamentar.

Virou-se de lado tarde demais; Kent o empurrou. Pensou, levantando-se de pronto, que o velho tinha mais força em Heelum do que parecia à primeira vista.

— Haverá hora para um julgamento dos seus crimes contra esta cidade! — Bradou Kent. — Mas agora vou permitir que você fuja como o homem baixo que é!

Kenner riu, alternando o foco de seu dar de ombros entre os parlamentares.

— Ou talvez porque sua força não compensa a sua daqui e você só pode lutar comigo me dando empurrõezinhos quando estou desprevenido…

Kent engoliu em seco, respirando fundo mesmo que imperceptivelmente.

— Não sei nem por que me dei ao trabalho. — Continuou Kenner. — Pelo que vi a cidade já é nossa mesmo…

— SUMA daqui! — Esperneou Minoru, a ponto de espumar pela boca. — SUMA!

O policial lhes deu as costas e seguiu no corredor vazio. Assim que Kenner saiu de vista, Minoru olhou para Kent.

— O que você fez? — Perguntou Minoru. — Por que ele não lutou de volta?

— Porque nós somos dois e ele era um. E tenho outras maneiras de tê-lo nas mãos. — Clarificou Kent.

Não havia mais ninguém passando pelo corredor que levava para os fundos; os dois eram os últimos na interseção de passagens, e Minoru sentiu-se tão abandonado quanto dolorido.

— Está esperando o quê de mim?

Kent olhou para o corredor para onde Kenner correu antes de responder, o que deixou o colega momentaneamente alarmado.

— Temos mais diferenças do que sabe, senhor Minoru, e menos do que imagina. Este é um momento terrível para a cidade, e reconheço no senhor um parlamentar de fibra. Um líder.

— Onde quer chegar com isso?

O velho parlamentar olhou para o corredor de saída.

— Quer dizer que deve ser salvo também.

Depois...

Já era manhã, mas os inimigos provavelmente não dormiriam enquanto houvesse resistência no território. Dalki havia acabado de passar em revista a segurança da parte sul do castelo — certamente receberiam ataques do Norte, mas com toda a questão da invisibilidade ele não poderia deixar um setor desprotegido.

Passou pelo corredor oeste, o único de comunicação entre as tropas da frente e as de trás; do outro lado comprido do castelo estavam os dutos isolados das celas dos prisioneiros. Encontrou alguns policiais, posicionados em pontos específicos e esparsos ao longo da grande passagem, mas não lhes disse nada. Estavam concentrados nalguma coisa, em seu íntimo ou no mundo lá fora; esperavam poder ver seus inimigos, ou chegar a alguma conclusão quanto ao que não lhes saía da cabeça.

Ouviu som de choro ao passar por uma sala fechada. Pensou que reconheceu as vozes e, ao entrar, encontrou dois policiais sentados numa pequena mesa. As espadas do homem e da mulher chorosos, sentados um de frente para o outro, estavam esquecidas no chão, sem um posicionamento muito cuidadoso. Pena, tinta e papel eram compartilhados pelos dois, que largaram tudo para enxugar as lágrimas assim que o delegado entrou.

— Bom… — Começou Dalki, verificando que o policial mais próximo de fora da sala estava longe o bastante. — O que estão fazendo?

Os subalternos se olharam, sem saber quem deveria explicar o quê. A mulher descolou-se primeiro, encarando o chefe com as sobrancelhas levantadas.

— É que… Não sabemos se vamos sobreviver a isso, então queríamos escrever cartas para as nossas famílias.

Dalki assentiu, desconfortável com a posição das mãos. Cruzou os braços, mas ainda achou que deveria haver jeito melhor de lidar com elas.

— E para quem escreveram?

— Meu companheiro… Meus pais… Meus irmãos e minha filha. — Respondeu a mulher.

— Você? — Indagou Dalki para o rapaz.

— M-minha companheira… Meus pais também, m-meus… Filhos.

Ele não fazia contato visual com o delegado, e Dalki não entendia por quê. Seus instintos correram a gritar que aquele era um traidor; provavelmente sua carta continha segredos de segurança, dicas de como entrar no castelo e matar a todos que estavam ali.

E no entanto, imaginando que magos conseguissem atrair para si com facilidade a pena dos incautos, reprimiu seus pensamentos pouco solidários. Aquela tristeza que sentiu era bem sua: tristeza por saber que, naquele momento, não havia naquela cidade segredo algum que os inimigos cobiçassem tanto assim. Não precisavam de nada.

— Nós vamos sobreviver. Mas preci…

Não, não vamos! — Rosnou o policial, finalmente levantando o rosto lavado para Dalki. — Um mensageiro já veio dizer que as tropas não vão aguentar, estamos p-presos aqui para defender gente que não devia nem estar viva mais por tudo que fez e…

Policial! — Interrompeu Dalki. — Eu não vou permitir a barbárie dentro de minha gestão por causa de medo!

— Você confiou que o exército podia proteger a nós todos, Dalki, mas não foi assim! — Disse a mulher. — Nós não somos guerreiros, mas temos que entender que quando é guerra é diferente, delegado!

Eles não hesitariam em matar todo mundo aqui dentro por um instante! — Grasnou o homem, com o dedo em riste e os olhos comprimidos. — E nós não precisaríamos estar aqui, passando por isso, para acabar tudo em nada no final!

O chefe de polícia desfez os braços cruzados, sentindo uma lufada de vento irritar o lado direito do corpo.

Não sabia o que era apropriado dizer para defender sua posição. Não sabia como justificar o que estavam fazendo para aqueles policiais que, não sendo guerreiros, teriam que guerrear mesmo assim.

— Vocês vieram para cá sabendo qual era a missão. — Disse, numa última tentativa de expulsar de seu colo o sentimento que o oprimia.

Sequer ouviu as réplicas dos comandados; saiu da sala. Andou pelos corredores observador e altivo como sempre, mas sem ser capaz de julgar se ia na direção certa.

Sentiu os ombros apertados por duas mãos masculinas à frente; um policial o chamava, calmo ainda que assertivo, até a passagem central entre os dois hemisférios do castelo. Dalki subiu as escadas atrás dele tentando lembrar do que ouvira por todo o caminho. Não registrara o problema que estava indo averiguar.

Chegou ao lugar, corredor largo por cujo centro poderia descer um portão grosso de corvônia praticamente inexpugnável. Aquela seria a última defesa: o ato de desespero supremo. Os inimigos, mesmo tendo invadido o castelo, não teriam mais acesso ao compartimento em que os magos estavam presos. Os policiais, para defender a posição, ficariam do lado de dentro, onde se encontrava também reserva considerável de alimento.

“… Mas por quê vão fazer isso?”, perguntou-se Dalki.

— Chefe. — Chamou o policial, de voz firme. — Chegamos.

Dalki olhou melhor em volta. Estava sozinho com o comandado, e não via sinal de problema em lugar algum.

— O que houve?

— O problema é que estamos aqui. O problema é que você está aqui.

O policial estava com as mãos na cintura. Tinha grossas sobrancelhas negras e lábios grandes; ainda assim, não usava nenhum dos dois para se mostrar divertido com a situação.

— O que quer dizer?

— Essa batalha acabou, Dalki. Não a guerra… Mas essa batalha, sim.

— Como po…

Me ouça. — Disse ele, espalhando sua voz suavemente pelo corredor. — É tarde demais. De castelo isto passará a tumba se nada for feito e acredite, algo está sendo feito.

Dalki entortou o rosto para o homem, pensando em sacar a espada. Sua mão foi lenta e hesitante — algo que não conseguia entender — e seus pés moveram-se para o lado, como se buscassem melhor ângulo para fazer algo que ele ainda não sabia o que era.

— Está falando de um motim? De uma revolta?

— Já está em curso, Dalki. Esses policiais não vão morrer aqui.

— E você vai?

Ele balançou a cabeça, negativo.

— Eu tenho uma outra missão.

A última passada de Dalki foi um cambaleio; apoiou-se na parede, mas só o que conseguiu foi suavizar a queda. Seus olhos queriam se fechar — estava tonto, de membros bambos, e o mundo entortava-se junto com ele.

— Você… — Disse, lembrando-se da última vez que se sentira daquele jeito. — É um mago

Encostou as costas da cabeça no chão, tendo os sentidos apagados ao som de um pedido de silêncio.