Forças

Mairaden trouxe um copo d’água para Narion. Não vestia a armadura, que fora guardada numa enorme mala junto com a alabarda. Mesmo assim sentia calor, já que o sol batia na varanda do segundo andar da casa em que estavam, e ambos vestiam grossas roupas de cores fracas — segundo a razão de que qualquer proteção era melhor que nenhuma.

— Obrigado. — Disse Narion, quanto à água.

Na noite da Batalha de Enr-u-jir o general de Inasi-u-een voltou, junto aos companheiros, para um local secreto na floresta por onde chegaram ainda enquanto batalhão. Ali haviam deixado provisões, instrumentos, armas e malas. Trouxeram Narion, que concordara em ajudá-los e em ser ajudado. Dele aproveitaram o dinheiro acumulado — que ele usaria para o mesmo objetivo de qualquer forma — e uma charrete. Mairaden pensava que as duas coisas eram provavelmente frutos de roubos mas, com a pilhagem que haviam feito em Rirn-u-jir dias antes, não faria a menor cerimônia. Acharia difícil encontrar entre os ricos alguém disposto a ajudá-lo.

Sob disfarce e com sorte, chegaram à Cidade Arcaica. Arranjaram-se de início nas jirs mais afastadas, que nem por isso deixavam de ser alvo de vigilância por parte do exército, e começaram os arranjos para a investigação. Não eram bem vindos, então em tudo que faziam punham sigilo e segredo; Nariomono ia mais à cidade e os guerreiros do Norte tentavam parecer menores aos olhos dos locais desconfiados.

— É a primeira vez que dirige uma palavra para mim que não seja sobre estratégia desde que nossos caminhos se cruzaram.

Mairaden sentou-se em outro banco de madeira na varanda reta e campestre, comprimindo o olhar sob a luz forte da manhã. Nuvens escuras se aproximavam pelo leste, mas não deveria chover até que conseguissem pelo menos seguir a primeira parte do plano.

Narion parou de beber, olhando para o general enquanto os lábios secavam a umidade que ficou para trás.

— Desculpe.

— Não é preciso. Mas sinto que podemos nos entender melhor se soubermos exatamente o que queremos.

Narion olhou para Mairaden como se ele já soubesse a resposta para aquilo.

— Meu objetivo não é matar Desmodes. — Mairaden balançou a cabeça ao voltar-se para os pedaços de horizonte que as casas do outro lado da rua não obstruíam. — Pode envolver matá-lo, mas é maior que isso.

— Maior como?

— Minha família é treinada há gerações para o surgimento de um novo governor. O objetivo é evitar que Heelum sofra novamente nas mãos de um.

— Um governor é um mago muito forte, não é?

— Sim. E sempre, com um deles, veio uma guerra. Dessa vez não pode ser diferente.

— E como saber se Desmodes é um governor ou não?

Mairaden levantou as sobrancelhas.

— Há histórias… De que Roun não nasce por um dia quando o governor atinge o ápice de seu poder… Que isso seria o sinal de que um governor existe.

— Mas isso não aconteceu ainda.

Mairaden confirmou.

— Dentre duas possibilidades, aquela em que eu acredito é a de que Desmodes ainda não chegou em seu melhor. Não conquistou o que precisa conquistar para chegar ao máximo.

— E a outra possibilidade?

— … É a de que não há governor. E nesse caso esta é uma guerra inventada por todos os magos, coletivamente.

Nariomono olhou para o copo quase vazio.

— Desmodes é muito poderoso.

— Quão poderoso? — Indagou Mairaden.

— Ele… — Hesitou Narion. — Foi até nosso território. Junto com outro mago. Nós os recebemos, e… Eu era tradutor, porque passei alguns rosanos em Ia-u-jambu. Eu tinha o direito de sair da formação, mas os outros… Cada um tinha um arco apontando para os magos. Essa era a ideia para que eles não dominassem ninguém. — Balançou a cabeça para os lados. — Desmodes controlou todos de uma vez só. Fez cada um matar o outro. E eu fiquei para trás.

Mairaden olhava diretamente para ele, o que o deixava tão ansioso quanto desconfortável. Era a segunda vez que repensava o mínimo de detalhe sobre o que acontecera, e cada vez mais sentia-se um estranho de si mesmo; quase podia sentir-se na sala atrás de si, mero estranho que não tinha nome, ouvindo sua própria voz tornar o que aconteceu real mais uma vez.

— Você não foi treinado como guerreiro. — Disse o general, recebendo a confirmação singela. — Não foi capaz de matar o General do Exército quando ele pediu que o fizesse.

— Aquilo foi diferente. — Defendeu-se Narion. — E-eu já matei antes… Esse arco é especial. É diferente dos outros.

— Por quê?

— Ele me protege. Sem que eu pense nisso. Ele sabe o que eu preciso fazer para me defender e eu… Faço.

— Uma defesa preventiva? — Perguntou Mairaden, não sem algum sarcasmo.

— Sou eu quem escolho atirar, a não ser que seja necessário para me defender… Matei o chefe de polícia de Enr-u-jir assim… Ele estava perto demais e o arco tinha que matá-lo antes que ele me matasse.

Você tinha que matá-lo.

— Sim, m-mas eu não era capaz de me mexer… Acho que o policial era um mago. e se não fosse o arco… Eu não saberia o que fazer.

— Mas não foi esse o caso do arqueiro. No prédio do governo.

— … Disso eu não posso fugir… Eu não gosto, Mairaden. — Engoliu em seco, quase empregando os dedos para tatear o bolo de agonia que sentia na garganta. — Às vezes sinto… Raiva de Desmodes… De todos os magos. Mas às vezes…

Parou, não sabendo ao certo se deveria seguir em frente. Abria-se ainda mais dessa vez — mas não via nada como um estranho. Aquele era realmente ele falando e sentindo tudo aquilo. Admitindo que era responsável por mais do que a própria vida.

— Às vezes me sinto… Triste. Só triste.

Sentiu o olho direito tremer, mas sufocou cada lágrima que gostaria de sentir suas bochechas naquele instante.

— É porque você sabe que quando terminar o que começou, não vai ter mais nada para fazer. Nenhum lugar para voltar.

Narion franziu o cenho ao olhar para o companheiro de viagem. Seu rosto era sereno; suas palavras, amenas. Ainda assim, parecia que uma janela para o abismo, única saída de um lugar muito apertado e já escuro, descortinara-se diante de seus olhos como ao mesmo tempo salvação e suplício.

— Você fala como se me entendesse…

— Não acredito que eu consiga entendê-lo de verdade. Ainda tenho um lugar para onde voltar. Mas na verdade não sei como vou me sentir depois de fazer o que devo.

O al-u-bu-u-na assentiu.

— Saiba que desistir não é uma desonra. — Prosseguiu Mairaden. — Farei o que devo acima de tudo, seja lá o que for. Mas, se quiser, posso garantir que Desmodes encontre a morte que merece.

Narion fechou o rosto para ele, interrompendo o menor dos movimentos do corpo.

— Você prefere levar um dos seus.

— Não. — Disse Mairaden, olhando para dentro da casa para saber se estavam sozinhos. — Prefiro que não morram comigo, se eu puder evitar.

— Está mentindo! — Irritou-se Narion. — Você entrou numa cidade com um batalhão inteiro já sabendo que ia lutar uma luta que não podia ganhar e diz que quer evitar alguma morte!

Se eu puder, sim, mas todos sa…

— Você não confia que eu possa ajudar você a fazer o seu grande trabalho! — Falava como se estivesse prestes a cuspir no chão entre os dois. Mairaden forçava sua respiração a se regularizar, dissimulando o espanto. — Não me subestime. Não nos subestime!

Narion ficou de pé, pondo o arco à frente do corpo como Mairaden fazia com a alabarda. O general de Inasi-u-een levantou-se também, procurando não fazer nenhum gesto muito brusco.

— Arcos vergam-se muito e não quebram. Mas nós quebramos, Nariomono.

Depois de alguns passos no corredor, um dos soldados de Mairaden apareceu na porta da varanda. Olhou para os dois, disse que a charrete estava chegando, e foi embora. Mairaden foi o primeiro a desviar a atenção, fazendo de tudo para não fazer parecer que havia perdido algum tipo de batalha. Antes de atravessar a porta em direção à sala teve o corpo impedido pelo arco de Nariomono.

— Talvez seja melhor voltar a falar só sobre estratégia.

Depois...

Mairaden girou a maçaneta. Sabia que estaria aberta.

O homem de preto sentado numa das cadeiras da mesa redonda próxima à porta esperava por alguém de roupas similares.

— Vocês não podem entrar aqui! — Ralhou ele, de voz azeda e testa contrariada. — Vão embora!

Mairaden desembainhou a espada curta da cintura e desceu-a num talho vertical à cabeça do soldado. De dentro da casa, que contava com salas subsequentes tingidas em um dourado bem iluminado, surgiu uma guerreira, já com a espada à mão, para ver o que estava havendo. Narion, que entrara logo depois do general, apontou o arco carregado para ela.

— Não chegue mais perto! — Alertou, pronto para acertá-la.

A guerreira fazia cara de poucos amigos, tão parada quanto achava que deveria ficar, enquanto Mairaden jogava o soldado no chão.

— Nariomono… — Chiou o general.

— Não vou desperdiçar uma flecha sem necessidade.

— Quem são vocês?

— Não fale nada! — Orientou Nariomono.

Os três esperaram pelo que pareceu ser tempo demais; apenas Mairaden tinha alguma mobilidade, e os sons, os ritmos, os passos de seu corpo não conseguiam, por rápidos que ficassem, acelerar a passagem do tempo.

O som dos cascos dos yutsis no chão da rua foi tão libertador quanto arrepiante. Estavam numa jir nos limites do centro da cidade, e embora aquela fosse a avenida da região, sabiam que esta era a charrete que esperavam ver.

A rotina havia sido a mesma por dias: ela parava e um soldado abria a porta, deixando-a assim. Entrava na casa, fechando a porta enquanto pegava as correspondências e qualquer outro material que precisaria levar, presumia-se, ao Conselho. Abria e fechava a porta da casa mais uma vez, para dela sair; acondicionava tudo na charrete e então fechava a primeira porta que abrira. O ritual das batidas permitia que o cocheiro soubesse o que o guerreiro estava fazendo e onde exatamente estava. Na maioria das vezes o processo demorou instantes apenas, mas em um dos dias demorou algo comparável ao que pensavam ser necessário para obter um silencioso controle do transporte.

Assim que a casa se abriu, Mairaden fechou-a com um estrondo e agarrou pelo pescoço a guerreira que entrara.

— Quantos mais há dentro da charrete?

Ninguém!

— Não minta para mim! — Rosnou Mairaden, fazendo a inimiga sentir melhor a ponta da espada em sua barriga.

— Não estou mentindo! — Ela debatia o pescoço como podia; queria balançá-lo à exaustão. — Juro!

Mairaden achou a tese estranha, mas manobrou o corpo significativamente menor que o seu até a área para além do arco de Narion.

— Para trás! — Disse o al-u-bu-u-na, agora apontando o arco para ela.

Mairaden e um de seus guerreiros colocaria a bordo a mala com a armadura e sua alabarda. Não deveria demorar muito; talvez tudo chegasse ao fim antes que a maliciosa gota de suor terminasse de cair pela têmpora direita de Narion.

Achou curioso a forma como as guerreiras aceitaram o destino da charrete. Talvez naquele mundo imundo do qual faziam parte não havia muito espaço para pensar para além de si: se sobrevivessem ficariam felizes, e só.

Narion se perguntava se elas não fingiam suas raivas; se não punham no rosto uma vontade louca de sangue e revolta tanto quanto ele fingia estar em total controle da situação. Imaginava se não eram jovens destreinadas que não tinham sequer recursos para lutar contra aquele arqueiro estranho que aparecera de repente para roubar a charrete mais importante da cidade.

Quando os olhos das cativas oscilaram levemente para um lado, Narion ouviu o ar se deslocar atrás de si. Uma faca acertou em cheio o peito da guerreira mais próxima, fazendo-a cair para trás num soluço de dor. Nariomono virou de costas e viu um dos guerreiros de Inasi-u-een arranjar mais uma na mão, flexionando os joelhos para mais um lançamento.

“Abaixe!”, recomendou ele, mas Narion não foi rápido o bastante.

O braço que segurava o arco se contraiu, protegendo com a madeira seu ombro. Enquanto a faca voou para o alto, desviada do caminho, a outra mão de Narion preparava, voltada para o guerreiro amigo, a flecha na posição certa; quando tudo se encaixou Narion esticou-se para trás no menor dos movimentos para atirar no rosto da inimiga, que corria em sua direção com o braço pronto para lhe atacar.

Fazendo um rosto de quem tentou, mas infelizmente não conseguiu, o soldado de Inasi-u-een saiu do espaço entre as portas abertas da casa e da charrete. O rosto de Mairaden apareceu, sinalizando que estava tudo pronto. Narion o seguiu charrete adentro, fechando as duas portas e sentando nos confortáveis bancos cor-de-azeitona que os levariam até o Conselho dos Magos.

Saíram do lugar assim que sentaram-se. Ainda ofegavam, os dois; o mais inexperiente mais que o outro.

— Mandou matar aquelas guerreiras?

— Sim.

— Elas estavam sob controle!

— Até entrarmos na charrete. Depois, elas correriam até algum comandante e estaríamos sendo seguidos por elas e mais trinta antes de sairmos do centro.

— Elas não eram guerreiras. — Disse, voltado para as próprias botas. — Não estavam lutando.

— Engana-se. — Disse Mairaden, como se já pensasse no que iria dizer pelas próximas cinco frases. — O Conselho dos Magos era secreto até o começo da guerra e já tinha um exército formado. Como acha que essas guerreiras foram recrutadas? Se fizesse uma seleção, o Conselho já não se preocuparia em ter dentre os seus apenas os melhores guerreiros? Ou no mínimo razoáveis, mas acima de tudo leais?

— … No fim uma delas me atacou…

— O que me preocupa é que não tenham se empenhado nisso com mais afinco.

— … O-o que quer dizer?

Mairaden não respondeu. Limitou-se a balançar o queixo acima do corpo de estátua como se tentasse fazer cair algo que equilibrava na cabeça.

— Está pensando que está muito fácil. — Adivinhou Narion.

— É uma impressão falsa. Tivemos que gastar dias para encontrar o General do Exército e por sorte obter a informação. E mais dias para fazer um plano. Seria mais fácil se o sistema de comunicação fosse mais simples. Só o que teríamos que fazer seria usar a força.

— Mas só havia um guerreiro na charrete.

— É a lógica… As charretes foram multiplicadas para criar um sistema em que nenhum estranho saiba qual delas vai para o Conselho. Com mais charretes é preciso distribuir melhor os soldados… E para levar algumas cartas não é preciso mais que um mensageiro.

Narion não estava convencido de que Mairaden estava realmente despreocupado quanto àquilo. Talvez ele, tanto quanto Nariomono em relação às recentes inimigas, só estivesse vendo o que queria ver.

— Se isso for uma armadilha…

Não hesite em usar esse arco de mistério. — Completou Mairaden.

O general sustentou seu olhar, esperando pela anuência do al-u-bu-u-na como faria com um soldado seu.

— Você entendeu, Nariomono?

— Eu vou fazer o que for preciso mas não o que você acha que é preciso!

Mairaden fez que um lento gesto negativo.

— Um dia, Nariomono, vai ter que decidir se está pronto para pagar o preço pela vingança que tanto quer.

Uma fresta se abriu na boca de Narion, que não gostaria de seguir viagem num silêncio que não fora decretado por uma última palavra sua. Mas conteve-se, já que não sabia o que dizer. Uma voz no fundo de sua mente tinha uma sugestão; gostaria apenas de poder corrigir um pouco a frase do colega. Mas ignorou a voz, num instante reprimindo-a por completo.

Depois...

Depois de cruzarem o centro da cidade e passarem pelas jirs do Oeste, chegaram ao porto. Permaneceram dentro da charrete, conforme o combinado; o cocheiro, que não deveria desconfiar de nada, já estava acostumado a esse comportamento por parte dos mensageiros. Afinal, a travessia até a outra margem do rio era corriqueira e constituía uma parte do trajeto como outra qualquer.

Identificaram todas as partes da jornada: a parada na área de embarque, com uma longa espera pelo navio; a entrada e a permanência no convés especial, onde o veículo ficava aglutinado a outros sem que no entanto se pudesse ouvir o que se dizia nas cabines ao lado; a descida bastante rápida, praticamente solitária, que seria explicada para os ignorantes curiosos como um atalho para Imiorina.

Continuaram a viagem. A charrete parecia ainda mais apressada enquanto se movia para o Norte, e os passageiros sentiam agora que passavam por um terreno mais acidentado.

Apesar de por muito tempo desde o início do caminho terem ciência de que ainda estavam longe do Conselho — e de que não falariam mais nada até precisarem combinar alguma tática — não dormiram. Agora que atravessaram a margem, sentiam ainda menos sono. Sem saber quanto chão ainda os esperava, faziam estimativas e apostas particulares: chegariam com o céu já escuro? Haveria tempo de se esconder ao chegar lá? Seriam recepcionados por um mago, ou quem sabe pelo próprio Desmodes?

O que era, afinal, o Conselho dos Magos?

— Eu deveria ter trazido a alabarda. — Disse Mairaden, que contava com a espada curta na cintura.

— Ficou na casa alugada?

— Não. Está no bagageiro.

Ficaram mais lentos ao fazer uma subida mais acentuada. Nariomono segurou-se a alças próximas às próprias orelhas para não escorregar para cima do companheiro de luta.

— Ela tem alguma importância para você?

— Não é como o seu arco, mas a prefiro como arma.

A charrete terminou a subida, mas a velocidade não aumentou.

Prestaram mais atenção ao lado de fora, deixando os ouvidos cuidadosamente flutuarem para perto das portas. Pelos rangidos e ruídos, o cocheiro saíra do posto, pisara na grama à esquerda da carroça, e fugiu da cena o mais rápido que pôde.

Narion e Mairaden levantaram-se, tomando posição um em cada porta. Aquele encostou a ponta de baixo do arco no trinco; o general desembainhou a espada e preparou-se para encarar qualquer inimigo, não importa quão perto estivesse.

Olharam-se uma última vez, olhos ao nível do chão, prescindindo de palavras para combinar a saída conjunta.

Puseram os pés no chão ao mesmo tempo. Não havia prédio ou casa em que pudessem ancorar o olhar. Mairaden via parte do Rio Joss morro abaixo e as Montanhas Iarna ao Nordeste; Narion tinha à frente um tablado sem fim de colinas e árvores em grupos desatados.

Ambos encaravam também, de cada lado, cinco guerreiros do Exército do Conselho portando espadas longas em guardas pacientes e posturas atentas. Do lado de Nariomono havia também uma figura de escudo, o único protegido por um cinzento e longo elmo, atrás do semicírculo de soldados.

— Humpf. — Fez o escudeiro ao estudar a figura do al-u-bu-u-na. Gritou, então, para que até os comparsas do outro lado da charrete pudessem ouvi-lo. — MATEM!

Os inimigos correram na direção de Narion quando este fugiu ao longo da charrete e dos yutsis. Praticamente jogou-se em cima do guerreiro mais à direita, certo de que o arco o protegeria. Desviou-se do soldado num giro depois do choque e continuou, meio tonto, a correria em direção a lugar nenhum.

Mairaden partiu, ligeiro e decidido, para cima do guerreiro do meio; neutralizou um golpe e com uma ombrada derrubou-o. Seguiu para a traseira da charrete, com a imagem de sua alabarda viva na mente o tempo inteiro. Foi mais rápido que o segundo inimigo, e num desvio inteligente conseguiu abrir caminho até o peito do terceiro, que estocou o mais rápido que pôde para seguir em frente.

Destravou a porta do bagageiro do comboio, mas o quarto e o quinto soldados o alcançaram. Concentrou-se no da esquerda, partindo para cima dele que, embora defendesse bem os primeiros cortes, não conseguiu se esquivar o suficiente para ficar ao abrigo das passadas largas do general de Inasi-u-een.

O quinto soldado fez menção de se aproximar com pressa, mas parou no meio do caminho. O primeiro, que Mairaden não havia ferido, já estava próximo novamente, mas a um pedido de calma com a mão por parte do parceiro não avançou demais.

Narion sentia-se puxado para trás — e sabia que não podia resistir muito mais, pois os guerreiros o alcançavam. Pegou impulso no entortar cheio de propósito do pé direito para pular num giro para trás, protegendo-se com o arco de um corte certeiro. O inimigo caiu, rolando para o lado, mas em seu encalço vinham — como percebeu na fração de instante em que ficou no ar, muito rápido — outros quatro.

Ouviu o som de flechas esparramando-se no gramado quando caiu, mas ficaram próximas o bastante para que ele pudesse atirar de novo. Fez um soldado espiralar até onde ele estava: rolou para a esquerda para escapar do corpo, sentindo um calor de momento ao pensar que poderia quebrar o arco no processo — mas à medida que os braços puxaram num movimento perfeito uma flecha a mais para outro acerto ideal, despreocupou-se.

Já estava sentado quando disparou mais uma vez, e a flecha mal havia deixado a madeira quando seu braço deslocou-se para a esquerda; sentiu os ossos vibrarem ao receberem todo o impacto do golpe vertical do primeiro soldado a atacá-lo; antes que o inimigo perplexo pudesse arranjar outro golpe, uma nova flecha perfurou seu peito de baixo para cima.

Levantou-se e olhou ao redor enquanto afastava-se do lugar onde caíra. Localizou-se ao ver a charrete, e logo viu também o inimigo que sobrou.

Narion tentou puxar uma flecha, mas percebeu que seu braço não se movia do mesmo jeito que antes. Não era mais o arco quem o comandava a fazer o movimento — não havia mais flechas na aljava para serem usadas.

Sabia que não havia gastado todas — não podia ter gasto — e percebeu, ao olhar para a grama ao redor dos pés do adversário, que perdera mais flechas ao cair do que havia imaginado.

Os soldados, que no começo aproximavam-se de Mairaden de frente, resolveram numa troca de olhares acintosa dividir o ataque para, em duas frentes, atacá-lo ao mesmo tempo.

Mairaden não deixou o plano dar certo. Assim que seus inimigos se separaram o bastante, pôde atacar um sem que o outro o ameaçasse; partiu para cima do mais próximo da charrete, que recuou, amedrontado, tentando golpes que mantivessem Mairaden longe. O general defendeu os ataques, aproveitando um descuido para atingir os braços do guerreiro e impôr derrota ao com um golpe lateral na cabeça.

Viu que o último inimigo hesitava, e Mairaden não teve dúvidas: Correu até a charrete, levantou a porta do bagageiro e teve acesso imediato à alabarda, que puxou para si depois de jogar a espada para dentro em seu lugar.

O comandante dos soldados do Conselho, que havia se escondido na lateral da charrete, girou no próprio eixo para desferir um golpe horizontal contra Mairaden.

O general urrou de dor, recuando para longe do comboio; o braço cortado pela espada do inimigo começava a sangrar, em instantes latejando como os gritos de emergência que se recusava a dar.

Narion olhou para o arco em suas mãos por um instante. Quando não precisava dele não o via como diferente: ele não fazia nada que desse a menor indicação de que funcionaria da próxima vez. No entanto, respondeu como o guardião mais fiel cada ameaça que surgiu.

“Ele não vai falhar agora”, murmurou para si mesmo antes de correr para os braços prontos do inimigo.

Sentiu o arco instar seu braço a erguê-lo para barrar o golpe vertical que recebeu. O soldado continuou, investindo pela esquerda, e Narion defendeu-se: agarrou o arco como se o fizesse com uma espada para desferir um golpe na cabeça do inimigo.

O adversário também foi rápido, travando o arco com a guarda de sua espada, tirando-o do caminho e estocando Narion à altura do peito. O al-u-bu-u-na reagiu tirando a espada do caminho de seu corpo ao puxá-la com o arco; puxou o soldado inteiro com ela — e no ombro a ombro que dali surgiu, socou seu rosto com uma força que desconhecia no próprio punho instantaneamente dolorido.

O inimigo recuou, desorientado, com a espada ainda em mãos. Narion abaixou-se para recuperar uma flecha e, assim que a tocou, seus braços fizeram tudo sem qualquer intervenção de sua mente: a próxima coisa que viu foi o corpo do último inimigo cair para trás num baque surdo.

— Quem é você? — Perguntou o comandante, que se aproximava sem cerimônia de um Mairaden ferido, mas em guarda normal.

— Meu nome é Mairaden. Sou general de Inasi-u-een!

Inasi-u-een?! O que é que você fez no seu castelo, filinorfo maldito?

Mairaden quase esqueceu da dor, sorrindo por dentro e por fora; percebeu, de relance, que o soldado remanescente se aproximava, tentando fazê-lo por fora de seu campo de visão.

— … Castelo? — Perguntou, genuíno.

O comandante encerrou as cerimônias, avançando sobre o mais alto, mais forte, menos protegido e mais ferido general da distante cidade ao norte.

Mairaden recuou de costas, forçando o comandante a correr mais depressa e fazendo reaparecer em seu campo de visão o soldado que contava demais com astúcia vulgar. Interrompeu os quase saltos para trás e — sem conseguir evitar o grunhido — montou base na espera do escudeiro determinado a atacá-lo de qualquer jeito.

Lançou a alabarda à frente e o impacto em seu escudo tornou a investida mais lenta; recebeu os golpes na esquerda que sabia que receberia, e a cada vez que os defendia, apertando os dentes uns contra os outros, sentia um tremor mais forte no braço machucado.

— AAHH! — Berrava, contra-atacando com estocadas que expunham, um puxão por vez, o corte no músculo. — AAAHHH!

Notou, ao ganhar distância nova do oponente, que o outro soldado não chegara para o combate: atrás do comandante seu corpo jazia estirado, virado de lado, com sangue escorrendo pelo furo que uma flecha abrira próximo à orelha.

O inimigo intuiu a situação: olhou para a esquerda no momento em que uma flecha atingiu seu elmo, lançando-o em passos tortos e cruzados numa trilha até uma queda desajeitada. Ao levantar-se, não enfrentava mais apenas uma pessoa; alternou a atenção entre as duas e decidiu ir embora, descendo a colina de onde tinham vindo.

Narion voltou-se para o companheiro, preocupado com o sangramento em seu braço.

— Pegue a mala… — Disse Mairaden, apoiando-se com o braço direito sobre a alabarda. — Há minérios junto à armadura…

Narion sequer saíra do lugar e uma nova vibração do solo chamava-lhes a atenção. Do caminho de onde vieram já podiam vir, avançando a toda velocidade, duas outras charretes.

— Temos que ir embora agora!

— Elas vão encontrar o comandante e perguntar o que houve, há tempo! — Argumentou Mairaden.

AGORA!

Narion começou a correr em direção ao outro lado da colina. O general desfez o apoio sobre a arma, e segurando-a com a mão direita correu para seguir o al-u-bu-u-na.

Depois...

— Vou ter que usar a alabarda para ver se alguma árvore tem minérios.

— Não seja ridículo. — Respondeu Mairaden, sentado próximo a um tronco encurvado. — Teria que cortar uma centena…

Narion, de pé com as mãos na cintura, já estava no limite da imaginação. O corte não havia dilacerado o braço de Mairaden, mas fora profundo e o sangue demorou a estancar. Seus movimentos estavam restritos — a não ser, é claro, que ele quisesse sentir a distração da dor durante uma luta, o que não parecia um risco razoável.

— T-tem certeza que isso vai ser curado sem um minério?

— Sim.

A noite estava quase chegando, e ela parecia disposta a mascarar a chuva que os espreitava com ainda maior voracidade. Chuva, sujeira, sangue, noite, fuga; Narion sentia-se claustrofóbico em meio ao espaço aberto.

— E quanto tempo vai demorar? Por quanto tempo vamos nos esconder aqui? Quanto tempo até sermos mortos enquanto dormimos?

— Vamos nos revezar acordados…

— Isso não é…

Nariomono. — Interrompeu Mairaden. — O arco.

O al-u-bu-u-na olhou para o arco, encostado em uma árvore logo ao lado. Esticou a mão para ele, mas uma flecha foi cravada no chão no espaço entre seus dedos e a arma.

Narion jogou o pescoço para cima; um guerreiro cinzento empoleirado num galho grosso armou mais uma flecha contra ele.

NÃO SE MEXA! — Gritou o inimigo, enchendo a floresta de movimento.

Outros arqueiros e novos espadachins surgiram à distância, aproxi-mando-se dos dois com passadas furtivas como umenau que, cheios de patas minúsculas, subiam pelas pernas no meio da noite.

Narion avançou para o arco. Quando o tocou, agachou-se e o pôs acima da cabeça, bloqueando a flechada que descia potente em sua direção e esquivando-se de outra que chegava à altura da cabeça, mas passava torta para o lado. Raspou o dedo por uma das flechas na aljava no chão e, rolando para o lado, ajoelhou-se pronto para o ataque; só não sabia ainda contra quem deveria atirar primeiro.

— Quem são vocês? — Perguntou o arqueiro na árvore. — Parem de se aproximar!

— Estamos parados! — Retrucou Narion.

— Estou falando com meus companheiros, imbecil! — Resmungou de volta o arqueiro. — Vou perguntar de novo! Quem são vocês?

— Meu nome é Mairaden, general de Inasi-u-een. Ele se chama Nariomono, arqueiro maior dos al-u-bu-u-na.

Narion olhou de esguelha para o colega, surpreendendo-se com o título que lhe foi dado.

Ao observar os outros guerreiros, novamente percebeu que o silêncio era preenchido com olhares confusos entre eles.

— Que combinação mais estranha… — Comentou o líder na árvore. — O que estão fazendo aqui?

— Fugimos do Exército do Conselho dos Magos… Estou ferido!

Narion censurou Mairaden, sem filtros no olhar perplexo. Deixou o arco mais tenso do que nunca até ouvir a voz que emanou do alto, que mais assemelhou-se a um canto cansado, sofrido e aliviado do que uma exortação à batalha.

— Ah… Tudo bem então, pessoal… Baixem as armas! São amigos!

O círculo que se formou ao redor dos dois foi se concentrando no centro. Embainhavam espadas e guardavam flechas. Narion, guardando também a sua — mas mantendo o arco bem apertado na mão — observava o arqueiro das alturas descer aos pulos até passar a usar as ranhuras e os buracos do tronco velho em que se apoiava para chegar ao solo. Outro arqueiro, que antes Narion sequer percebeu, fazia o mesmo na árvore em que Mairaden se encostava.

Ao todo o al-u-bu-u-na contou doze pessoas; eram homens e mulheres de todos os tipos, vestindo todo tipo de farrapo, e olhando para eles com uma amizade que não parecia muito difícil de conquistar.

— Muito prazer! — Disse o líder, estendendo a mão para Narion. — Meu nome é Van, filinorfo de Al-u-tengo.

Narion aceitou o gesto. Van tinha uma pele bronzeada, olhos quadrados e castanhos, e um cabelo escuro aparado num retângulo convencional o suficiente para uma tábua, mas bastante incomum para um humano.

— E você está ferido, então? — Disse Van, voltado para Mairaden. — Se importa se eu der uma olhada?

O general mostrou o corte no braço esquerdo. Van agachou-se para ver o ferimento mais de perto, fez um “sim” difuso com a cabeça e sorriu ao se levantar, dando alguns passos pela região para ficar em uma posição em que tanto Mairaden quanto Nariomono pudessem vê-lo.

— Esse vai ser tranquilo. Temos um minério.

— Obrigado. — Disse Narion.

— Não tão rápido. — Apressou-se Van em dizer, girando o pescoço lentamente até encarar o al-u-bu-u-na. — Temos um minério. Um só. E não vamos gastá-los com vocês até sabermos exatamente o que estão fazendo aqui.

Narion lançou um olhar impaciente para Mairaden.

— Não pareço ter opção se quiser seguir logo com meus objetivos… E pelo que entendo vocês são todos filinorfos.

— Nem todos. — Disse Van. — Somos um bando de alorfos e filinorfos que se juntou assim que o tal Conselho de Magos se anunciou e… — Abriu os braços, deixando escapar ar pela boca risonha. — Viemos tentar descobrir onde ele estava e o que fazer para acabar com ele.

Mairaden sorriu.

— Fui treinado desde que nasci para derrotar um novo governor. Nariomono também deseja matar o mago que hoje é líder do Conselho dos Magos, e que considero, no mínimo, um grande candidato a ser um governor de nossos tempos. Pensávamos estar a caminho de lá, mas fomos emboscados.

— Entendo… É, a segurança tem sido mesmo reforçada. Há uma trilha, que começa não muito longe daqui, em que uma charrete vem e vai todo dia, mas muitas simplesmente vêm até alguma clareira na região e, sem fazer nada, dão a volta e vão embora… Mas nós achamos que a charrete que vai por essa trilha em especial vai até o Conselho dos Magos.

— Por que não a seguiram até o final ainda? — Perguntou Narion.

Van sorriu para ele como se já tivesse ouvido a pergunta uma centena de vezes.

— Porque tirando eu, que já fui militar, somos uns desgraçados sem treinamento nenhum e a trilha é muito bem guardada. O João ali nem tem uma espada — Van apontou para um dos guerreiros atrás de Narion, que, com um sorriso travesso, desembainhou uma espada de madeira cuja parte que deveria ser metálica era simplesmente um bastão minimamente achatado pintado de cinza. — e nenhum desses arqueiros aí sabe dar um tiro que presta. Só o que nós podemos fazer é sermos silenciosos, escalar árvores e, bem, temos a magia também, mas de qualquer forma os soldados deles fazem tudo que fazemos e fazem melhor.

— Podemos ajudar. — Disse Mairaden. — Podemos enfrentá-los.

— Sim, bem… — Recomeçou Van. — Quanto a isso… O que significa ser treinado desde que você nasceu para derrotar um governor?

— Se eu for sincero, não acreditará. — Respondeu Mairaden. — Mas posso dizer que todo inimigo que tenta usar de magia contra mim não consegue fazê-lo.

Apenas uma das sobrancelhas de Van se levantou, mais rápida do que sua cabeça balançava afirmativamente.

— Tudo bem… Inasi-u-een tem mesmo uma tradição interessante contra os magos. Bem… Se nós curarmos esse braço vocês vão estar prontos para nos levar até o famigerado Conselho dos Magos?

— Não. Ainda precisamos recuperar minha armadura, que ficou em posse do Exército do Conselho.

— O quê? — Riu Van. — Não pode estar falando sério.

Mairaden apoiou-se no braço ferido para se levantar. Não alterou o rosto em toda a subida, mesmo depois que gotas de sangue novas começaram a escorrer pela porção seca que tingira suas roupas. Van não era particularmente alto, e se antes olhava para baixo para falar com o general, precisava agora voltar-se para os galhos de onde saíra para entender o quão sério Mairaden estava sendo.

— Vamos recuperar minha armadura primeiro. Depois, vocês mostrarão o caminho. Por último, passaremos por ele. — Olhou para Narion, que acenou positivamente para o general. — Agora, por gentileza, comecem curando o meu braço.