A vila dividida

A cidade crescia como bolo ao fogo, mas Caterina sentia frio de fazer tremer os braços e bater o queixo; de chacoalhar as pernas e tirar dos eixos. Frio que entrava pelos olhos e congelava a garganta cada vez que admiravam os fluxos de mais e mais pessoas infiltrando-se pelas ruas, por entre as casas e árvores rareadas, todas indo para o mesmo lugar.

Ouviam-se berros e cantorias por toda parte, e até quando vinham de mais longe pareciam estar ali, no virar de uma esquina. Policiais certamente reconheciam os ex-parlamentares, mas não fizeram nada que pudesse irritar a multidão que os acompanhava, marchando indiferente por terra ainda fofa da chuva de noites atrás ou por lajotas em avenidas calçadas. Cantavam as vitórias sobre representantes do governo e soldados nas jirs de onde vinham, explicavam como tentaram garantir alguma segurança para as crianças, perguntavam uns aos outros se aquilo seria rápido ou se era apenas o começo.

A noite se aproximava, e enquanto alguns desciam das portas, destacando-se como frutas maduras para se juntar aos pacotes cada vez mais densos de multidão, outros trancavam as menores janelas, fechavam lojas e tiravam as crianças da rua. Recolhiam os minérios do lado de fora e discutiam com os passantes, acusando-os de tudo, sem pormenores. No meio da última grande praça antes do parlamento viram funcionários da cidade arrancando minérios das árvores e de postes baixos. O mesmo se repetia na vizinhança mais próxima, até onde a vista alcançava. O centro de Prima-u-jir caía numa escuridão sem conforto; o céu, nublado, escondia as estrelas. Olhar para o lado, para Caterina, significava ver meros contornos dos rostos perdidos de Verônica e Leonardo. Eles olhavam para frente, mas às vezes estavam atrás de alguém alto demais para ver muito além; tinham a boca semiaberta, que lembravam de usar de vez em quando.

— Não se esqueçam de Byron. — Disse Leonardo, olhando para frente como se falasse mais para si. — Se pegarmos ele, tudo vai ficar mais fácil…

Havia focos de luz, vindos de minérios e tochas improvisadas, incidindo na massa que se aglomerava em volta do quarteirão do Parlamento. O grupo que vinha pelo norte, ao sair dos limites da praça, caiu em uma rua já completamente abarrotada defronte ao prédio. Chegaram em silêncio, mas logo se integraram aos burburinhos e vozerios que formavam, aqui e ali, canções de protesto. “Não queremos, Prima-u-jir, nessa guerra!“, entoavam uns com os pulsos fechados para o alto. Uma dupla de homens gorduchos com vestes prateadas rasgava caminho pela multidão, começando sozinhos versos como “Mago bom, é mago morto! Osso quebrado, e dente torto!”. Um uníssono mais harmônico, com mais palmas e mais pulmões, começou a cantar “Magos, fujam! Nós vamos pegar vocês!” e Caterina podia ouvir trechos de um discurso que, sem um minério de som, jamais poderia ser ouvido por todos que estavam ali.

Quando Frederico apareceu em uma das varandas superiores, mais gente já estava na praça, agora cheia de pontos de luz, fogo e brilhos metálicos das mais variadas coisas que carregavam nas mãos. As reclamações perderam a qualidade da letra e viraram vaias brutas depois que percebeu-se o rosto do mestre na janela por entre uma abertura nas cortinas.

A velha cabeça barbada observava tudo. Alguns talvez nem soubessem quem ele era, mas provavelmente aprendiam a partir das sugestões que lhe davam quanto ao que fazer com sua vida política.

Leonardo disse às duas que já voltava, não sem antes confirmar que todos ainda lembravam o que fazer se algo desse errado. Verônica comentou que havia visto Frederico fazer algum gesto para alguém mais ao longe.

Caterina não viu nada, mas não precisava daquilo para sentir que havia algo errado. Só pôde articular o sentimento mais tarde, quando pessoas que conhecia de diversas partes da cidade — estando ali, juntas, o que maravilhosamente não fazia sentido algum — convidaram-na para assumir lugar no largo e longo tronco que pretendiam usar para arrombar o parlamento.

Ninguém, com a exceção da cabeça de Frederico, tinha vindo interagir com o povo de Prima-u-jir. Nenhum parlamentar; sequer um assistente.

Boom, fez o tronco nas portas. Leonardo berrou que ela era muito forte, e talvez estivesse segurada por algo a mais do lado de dentro.

O plano com o qual todos preferiam contar era a simples pressão.

Boom.

Juntar uma quantidade de pessoas grande demais para ser ignorada e exigir, muito rapidamente, algo dos magos. Façam o que queremos ou tomaremos a cidade.

Eles, contudo, estavam sendo ignorados.

Boom.

Já não parecia mais estar usando os braços como deveria, mas suava. A porta não cedeu. Automática, pensou em continuar mais uma vez — virou-se atrasada, quando os outros já percebiam o que havia começado, largando o tronco um a um.

Ela foi uma das últimas. Deu alguns passos pra trás sem saber para onde virar o pescoço, e logo acompanhou quem vinha correndo da praça com fome de fuga. Viu de relance os amigos seguirem seus caminhos e lembrou do próprio, descendo uma rua à lateral do Parlamento. Conhecia a cidade e sabia que faltava muito até os limites do centro. Tinha que manter a multidão que ia para a mesma direção que ela unida — não importava muito o que estivesse os dispersando em primeiro lugar.

— COMIGO! — Gritou ela, parando por um instante.

Viu as dezenas, talvez centenas de pessoas na extensão da rua voltarem-se para ela, reordenando-se na corrida. Alguém com um longo bastão em uma mão e uma tocha na outra passou a chama para ela, com um simples “aqui!“.

— Ei! — Chamou Caterina, antes que ele fosse embora. — Você vai lutar? Quem vai lutar?

— Eu sei quem vai — Falou a voz rouca na quase completa escuridão. — Vou reunir todo mundo que eu sei, você tira eles daqui que a gente aguenta!

— Não, não agora! Vá reunindo, mas venha junto, temos que defender uma área menor!

— … Está bem!

— Ei! Venham! — Chamou Caterina. — VENHAM COMIGO!

Não precisava, mas carregou a tocha com o braço erguido, às vezes muito acima da própria cabeça; corria por entre ruas cada vez mais vazias, sentindo-se forte como se puxasse um monstro marinho pelos bigodes. Atrás de si ouvia, por debaixo dos berros, dos sussurros e dos medos, o bater frenético dos sapatos.

Ela não tomou a decisão de fazê-los lutar tanto quanto eles não a haviam feito guiá-los mas, com o fogo da esperança nas mãos, sentia-se absolutamente responsável por aquela luta.

Depois...

Byron, Alice, Marco, Luca e Ângela, de pé mas em frente a seus lugares na mesa, começaram a sair da sala de reuniões do Parlamento assim que ouviram as instruções de Frederico. Tornero era um dos muitos que esperavam do lado de fora, entre discípulos, policiais e soldados. Apertou-se para conquistar na fila o lugar atrás de Byron, cortando Ângela sem cerimônia.

— Tornero? — Chamou um policial, uniformizado em preto, de uma porta num trecho do corredor pelo qual eles já haviam passado. — Quem é Tornero, por favor?

— Eu sou. — Respondeu ele, virando-se para trás e parando a fila.

— Tem equipamento seu aqui, você tem que vir pegar.

— Não é meu. — Respondeu, de costas.

— Você precisa vir pegar!

— Vá logo, criança! — Ralhou Ângela, provocando-o para fora da fila.

O discípulo saiu da fila, andando na contramão; Byron continuou o caminho, sem esperas.

Tornero nunca esteve naquela sala; sequer saberia dizer o que deveria haver nela, mesmo que tenha passado várias e várias vezes pela frente da placa de depósito grudada à porta. Não podia enxergar o que havia dentro do estoque de caixas empilhadas: a metade maior de um minério quebrado, pendurado à parede oposta à porta, tornava a fonte de luz tão insegura que mal havia sombra para dar contorno aos objetos.

— Ele acabou de quebrar. — Desculpou-se o policial, fechando a porta.

— Como eu vou enxergar se fechar a porta, imbecil?

Já que deu meia-volta, recebeu na lateral do pescoço a pancada planejada para acertar sua nuca.

Depois...

Leonardo pegou o papel enrolado que a mulher encharcada trouxe até o limiar do apartamento de paredes esverdeadas e rachadas. Ele, espada longa na cintura, vestia as mesmas roupas amareladas borrifadas de sujeira e imprecisão que todos os colegas — inclusive a mensageira, que levava em uma das mãos um facão (meio cego, pensou ele numa instintiva olhada rápida) e na outra um amontoado de madeira rusticamente combinado num escudo. Olharam-se brevemente, trocaram acenos, e ela se foi.

17. O cerco está bom ainda, responda se você puder. Só abriram um buraco na estrada para o Sul. Verônica está a oeste, e eu pelo leste. Conseguimos nos misturar. Todo mundo quer atacar mas eu não sei, a estrada está bem guardada demais. Espero notícias.

Depois...

Leonardo levou o bilhete à mesa sem toalha em que ficavam os mapas da região em que estava. Fincaram barricadas nas ruas fortunadamente mais estreitas, e garantiram que não havia força policial para pegá-los desprevenidos pelas costas: mesmo tendo se fortificado em três pontos principais, os rebeldes formaram uma rede circular em volta do centro. Grupos se misturaram tão bem quanto nas ruas fortificadas, o que era crucial — todos, ou a maioria, ficavam em casas como outras quaisquer, com o consentimento e apoio dos moradores, e repeliam tentativas de quebrar o bloqueio para que nada pudesse entrar ou sair do centro. Como estavam do lado de fora, conseguiam receber comida e outros mantimentos dos companheiros, que tinham as próprias lutas para lutar contras as tropas avulsas espalhadas pelas outras jirs.

A teoria funcionou bem por um dia, até que o círculo foi quebrado em um ponto crucial — e também previsivelmente fraco, já que não havia casas às quais se misturar. Caterina e Verônica não queriam avançar sobre a estrada. Com terreno plano e aberto, de total controle sobre a aproximação do inimigo, muitas tropas podiam ser espalhadas por ela. Mas algum mago devia estar guardando o lugar também. “Talvez até Byron”, pegou-se resmungando baixinho.

Deu três passos para abrir a janela e o barulho da chuva invadiu o lugar sem pedir licença. Assoviou duas vezes, com mais força que o de costume. Dois garotos apareceram na rua, olhando para cima com o olhar espremido.

— Estão nas barreiras ainda? — Responderam que sim. — Então parem! Espalhem que vamos avançar!

Os dois assentiram e correram juntos rua abaixo. Leonardo fechou as janelas, voltando aos planos na mesa. Pegou dois rolos de papel de um pacote marrom aberto num canto do móvel, e procurou por uma caneta.

17. Vamos avançar para diminuir o cerco. Esperem notícias.

A casa havia enchido em poucas horas; no quarto mais ao fundo alguém conversava com a família que a emprestara, e mais gente na rua se comunicava com quem estava ali em cima através da janela. Leonardo esquivou-se das pessoas em pé ao redor da mesa e no espaço até a janela para atender a porta.

Alguns rebeldes acompanhavam um homem de olhos puxados, lábios cheios — e também inchados, ou pelo menos o inferior — e uma sujeira por debaixo da qual poderia quem sabe haver cabelo loiro.

— Muito prazer. — Iniciou ele, apertando a mão de Leonardo. — Fuj, alorfo de Kerlz-u-een. — Leonardo fez que entrasse, agradecendo aos que o trouxeram ali. — Viemos ajudar como pudermos. Esses são tempos ruins. O que vocês têm aqui é uma coisa bonita.

— Bonita e frágil. — Respondeu Leonardo, fechando a porta e chamando a atenção dos outros. — De que lado está Kerlz-u-een?

— Do lado errado.

— Então vocês falharam lá.

Fuj abriu o canto da boca num sorriso estapeado.

— Não terminou ainda… E foi diferente. Lá nós lutamos pela decisão desde o começo. Fomos massacrados, sem dúvida. E agora planejamos o que pudemos com a estrutura que sobrou de dentro da floresta. Aqui vocês têm mais pessoas apoiando vocês, talvez mais do que apoiando os magos. — Olhou para trás, cumprimentando brevemente a todos com olhares firmes como apertos de mãos. Pôs os olhos mais para baixo, vendo que a maioria carregava alguma coisa que pudesse ser usada como arma. — … Vocês têm mais pessoas dispostas a atacar também.

— Vamos avançar hoje, que o centro está quase todo cercado e nós queremos apertar mais o círculo. Talvez você possa nos ajudar a se misturar.

— Misturar? — Perguntou Fuj.

— Precisamos usar as casas. Nas ruas a estratégia seria de confronto direto, e isso… Nos complicaria.

— Sim. Mas você sabe que não se transforma alguém em alorfo do dia para a noite, não é?

— Não preciso de alorfos. Preciso de quem entenda que a cidade precisa de um novo governo e precisa ficar contra o Conselho dos Magos na guerra.

— Justo.

— Tem outro problema. — Disse um homem num dos cantos da casa, praticamente fumegando por sobre o fundo verde da alvenaria rachada. — A gente está aqui no centro mas eles estão conseguindo sair e estão acabando com as jirs!

— O que estão fazendo? — Perguntou Fuj, pondo as mãos na cintura.

— Em algumas ainda tem trabalho normal, mas nas nossas quase tudo parou… Estão roubando tudo que a gente tem e forçando quem ficou lá a trabalhar sem parar para compensar a falta!

— Podemos tentar ver isso também. — Disse Fuj, mexendo a cabeça.

— Ei… — Chamou Leonardo, pensando que pudesse errar seu nome. — Você tem que ter cuidado com esses magos.

— Eu não preciso desse aviso, sinceramente… Todos os magos agora… Vocês… — Olhou em volta, procurando um rosto para se apoiar. — Vocês sabem o que aconteceu? Na Cidade Arcaica?

Depois...

Por três ou quatro grandes quadras na área Norte do centro se alastrava o prédio do Exército de Prima-u-jir, bloco retangular e desinteressante camuflado junto às casas da vizinhança. Uma grade de colunas externas em corvônia se sobrepunha às paredes cinzentas, e uma sacada circundava o segundo andar inteiro, corredor externo em que arqueiros vigiavam a região.

Leonardo sabia que as forças da cidade estavam longe da perfeição: não eram proficientes, cheias de recursos ou embebidas em vontade fanática de defender o próprio povo como em outras cidades. Ele era, pelo menos quanto ao último quesito, mas aquilo não levava ninguém longe naquele prédio. Prima-u-jir compensava a fraqueza com quantidade — soldados demais, muitos dos quais já mandara para a guerra. Boa parte do exército que sobrou foi posto na estrada para o Sul, que Caterina observava a partir de uma colina nos limites do centro. Leonardo pediu que alguns alorfos fossem até a batalha iminente no Sul, e Fuj preferiu ir ele mesmo. Trouxe outro alorfo consigo, e como ambos tinham alguma prática com magia espólica formavam, na teoria, uma boa adição aos guerreiros da resistência daquele lado.

Em cima do morro viram o quão mais escura a cidade estava depois da noite do protesto no Parlamento. A estrada era a exceção: nunca esteve tão brilhante. O vão central era ocupado por uma linha de charretes abertas com grupos de arqueiros nelas. Passado o espaço da estrada em si, deixado livre, havia uma infinidade de barracas espremidas, e mais além delas, como camada protetora, várias fileiras de guerreiros. Entre eles foram construídas pequenas estruturas de corvônia que observadores escalavam e nas quais se escoravam, vigilantes.

Se a mensagem de fato percorreu o cerco e chegou ao destino, Verônica deveria estar planejando o que fazer tanto quanto eles. Ela e seu grupo estavam do outro lado da estrada.

Já no prédio do exército, longe dali, havia ruas transversais que os arqueiros da sacada não enxergavam completamente. Nelas, e apenas nelas, os rebeldes montaram barricadas. Das sombras, em uma das vias que ficaram ainda livres, Leonardo contou mais arqueiros na retaguarda do prédio que o normal. Provavelmente foram alertados por muitos naquelas casas quanto a um possível ataque. Quanto mais ao centro avançavam, mais invadiam a porção mais rica de Prima-u-jir.

— Vai, vai, vai… — Ordenou ele, fazendo uma fileira de guerreiros seus atravessar a rua.

Moveu-se junto com eles quando passaram; novos grupos vinham de trás para se juntar à volta que davam no prédio. Planejavam atacá-lo pela direita, na área do anexo da prisão, ponta em que os arqueiros teriam um pouco mais de trabalho para acertá-los.

Passavam pela esquina da prisão, ainda do lado de trás, quando focos de luz amarela surgiram por cima de suas cabeças. “AQUI!“, berrava do andar de cima de uma casa um velho homem — “ELES ESTÃO AQUI!”.

A voz ecoou como um trovão ácido na noite quieta pelas ruas de Prima-u-jir; quem estava logo abaixo implorou por silêncio, espalhando-se como se nunca houvessem mantido uma formação antes.

Mas de fato não haviam, pensou Leonardo.

Recuou, puxando o quanto pôde os que estavam perto de si para debaixo das sombras; flechas zuniram na direção deles vindas de um vão entre duas casas amarelas. “AQUI!“, esganiçava-se ainda o velho, e Leonardo exortava, tentando se fazer ouvir por cima do crescente barulho, ordenando a todos que avançassem.

“Estão vindo!”, alguém disse à frente; “É de lá que eles vêm!”. A mensagem se espalhou como um arrepio pelo corpo de soldados destreinados.

Leonardo distribuía com a garganta o grupo até ocuparem toda a extensão da rua. Berrou que se preparassem, mas preparados não podiam estar. Ouviram um sinal de um dos que haviam ficado em uma das casas da região; instruíram-se uns aos outros, lembrando das pedras que traziam amarradas à cintura ou em algum bolso.

Policiais com espadas em punho apareceram algumas casas à frente, suas vestes negras entrecortadas por uma luz roxa de um minério mais além. De dez a doze aproximavam-se, rápidos e quietos.

Depois que a primeira pedra foi lançada as outras choveram adiante. Assim que uma cabeça foi acertada, os policiais esquivaram-se para marquises, cercas e muros.

— SEGURAR! — Berrou Leonardo, com outros repetindo a ordem como um amuleto. — SEGURAR!

Os policiais se esgueiraram de volta para o meio da rua, chegando perto numa depressão de luz em que só o metal das lâminas era parcialmente visível.

O caos fazia uma pressão que se convertia em barulho. A linha de frente empurrava para trás, talvez sem perceber, o resto da tropa, que os empurrava de volta para os inimigos: havia quem insultasse os policiais; quem os ameaçasse, quem os apontasse como se ninguém mais pudesse vê-los e corressem, por isso, perigo — “Ali, ali! ALI! ALI! ALI! OLHE AQUELE ALI!”

O policial ao meio não parecia próximo o bastante para um golpe, mas conseguiu cortar a barriga de um rebelde no meio da linha de frente, que carregava uma foice. A mulher imediatamente às suas costas se abaixou para socorrê-lo, gritando desesperadamente; a que estava ao seu lado tratou de atacar o policial como pôde, que se esquivou.

Policiais continham o avanço dos rebeldes ameaçando-os a cada passo com cada polegar de alcance que tinham. Corpos caíam e eram levados para trás por pessoas no meio da multidão que certamente não se importavam em perder a ação mais à frente. Havia cada vez menos pessoas enfrentando cada policial por vez, e mais deles decidiam se aventurar a enfrentar os rebeldes mais de perto.

Com seus castelos invisibilizados, os três alorfos no Sul deixaram o terreno urbano e se arrastaram pela vegetação até um lugar em que já conseguiam ver, em Neborum, parte das tropas inimigas na estrada. Uma faixa generosa de arbustos e pequenas árvores preenchia o espaço entre as últimas casas e a ocupação, e embora houvesse muitos pares de olhos por sobre a área, eles esperavam, com paciência e movimentos lentos, prevalecer sobre a atenção do exército.

Os castelos, todos muito esguios e pequenos, formavam vilas próximas, com alguns deles intercalando agrupamentos grandes — provavelmente os observadores da infantaria. Para além daquela primeira linha, grupos isolados de castelos também mirrados e pouco iluminados — os arqueiros.

Caterina desejou boa sorte, saindo do próprio castelo depois dos outros, tentando garantir suas retaguardas. Fuj e o companheiro chegaram aos castelos dos arqueiros em segurança. Arrombaram as portas com a força bruta dos iaumos de auras momentaneamente enegrecidas.

Fuj levantou os olhos da grama, apertando-os. Muito à frente via a cabeça dos soldados no chão e, iluminados por uma combinação de minérios rosados e alaranjados, seus três alvos. Um deles levantou um braço; ele estava se virando na carruagem, mas logo parou, completamente imóvel. Depois de um tempo outro fez o mesmo movimento.

— O que vão fazer com o outro? — Perguntou Caterina.

O primeiro arqueiro a levantar os braços o fez de novo; virou-se lentamente, com a mão esquerda à altura do pescoço, voltado para as costas do guerreiro que não estava dominado. Com a mão direita pegou uma flecha da aljava, e enquanto a esquerda deu um bote rápido ao passar a tapar a boca do soldado livre, a direita fincou a flecha em seu pescoço como se ela fosse um punhal.

O corpo do soldado ferido foi empurrado para o chão, caindo com um sonoro baque. Os que permaneceram começaram a lentamente se arranjar, encostando-se pelo flanco esquerdo das costas e posicionando flechas nos arcos ainda não tensionados.

Leonardo abriu caminho pelas laterais e logo ficou atrás de alguém que atacava com uma longa estaca — mas que logo depois de tentar estocar o policial, teve sua arma cortada para o chão, o rosto seguidamente dilacerado por um forte golpe e seu corpo jogado para a parede da casa ao lado. Leonardo levantou a espada do inimigo, ainda suspensa à frente, e avançou com o corpo até poder enfiar a espada em seu peito. Estava no canto, e logo dois policiais preenchiam o espaço conquistado: Leonardo bloqueou ataques de um à sua direita até chutá-lo nas costelas; e quando o que vinha pela esquerda tentou cortá-lo pela lateral foi igualmente bloqueado — para depois ter as costas perfuradas por uma mulher com outra longa estaca.

“VAMOS!”, Leonardo ouvia berrarem; recuou à linha de frente enquanto o policial que chutara voltava a lutar com ele; defendeu-se mais, cauteloso, mas assistia os policiais serem empurrados para trás, perdendo terreno ou fôlego mais rápido do que planejaram. “Voltar, voltar, VOLTAR!”, ouviram finalmente um deles dizer.

Os rebeldes comemoraram. Leonardo olhou para trás e viu uma trilha de feridos, mortos e cuidadores; seu entusiasmo desapareceu. Viu-se com um grupo pela metade, berrando de satisfação e avançando, alguns até correndo, para ir até o fim da rua, uma curva à direita na mansão de dois andares completamente banhada pela luz roxa.

A luz roxa.

Quando Leonardo começou a correr, alguns já viravam a esquina para encontrar a morte nos tiros limpos dos arqueiros de prontidão.

Alertados, começaram a recuar; entraram em pânico ainda maior quando um grupo de soldados saiu da porta principal do exército e começou a correr até eles.

Leonardo os viu num canto seguro para o qual arrastara um homem ferido no braço; diferentes dos policiais, usavam elmos. Com escudos redondos à frente, corriam fazendo balançar a cota de malha que protegia o tronco, enquanto placas curvadas ofereciam alguma defesa às coxas, canelas e joelhos.

O ex-parlamentar balançou a cabeça, sabendo muito bem o que os aguardava.

— RECUAR! RECUAR! — Berrou, ajudando o homem a se levantar e correr com ele. — MISTUREM-SE!

Caterina viu um castelo em outro amontoado de arqueiros se afastar na direção contrária à dos castelos invadidos, e em Heelum notou que a próxima charrete, à direita, também tinha um arqueiro a menos. Os dois que sobraram foram postos de costas um para o outro, tão enrijecidos quanto a outra dupla, que também preparava os arcos. Verônica também atacava.

Um deles atirou, aparentemente acertando um guerreiro nas costas. Não demorou muito até que algum companheiro percebesse.

— FLECHA! — Berrou algum deles. — FLECHA!

O que antes parecia uma coleção de estátuas ganhou vida num momento; muitos recolhiam e preparavam seus escudos, enquanto outros se adensavam, procurando por todos os lados, em paranoia justificada, sinais de um invasor.

— Mais uma… — Sussurrou Fuj, seu arqueiro puxando, aparentemente mais relutante, uma nova flecha.

Silêncio! — Ordenou uma voz masculina amplificada num minério de som.

Caterina engoliu em seco. Reconheceu a voz de Marco, que pedia aos soldados que ficassem em suas posições.

— Morri.

Fuj e Caterina olharam para Tai, o alorfo ao lado.

O quê?! — Perguntaram os dois quase ao mesmo tempo.

— E eu não vi quem era. — Disse ele, de olhos arregalados.

O iaumo de Fuj voltou-se para trás a tempo de ver Alice, sua reluzente espada e seu escudo vermelho-vivo avançarem sobre ele.

Quebrou a ligação com o iaumo controlado e girou o braço para tentar dominar a preculga, escorregando enquanto ela pulava por sobre ele para escapar ao seu controle.

Contorceu-se no chão para tentar alcançá-la do outro lado; desfez o ataque assim que percebeu que já não conseguiria mandá-lo na direção certa e concentrou o poder negro no antebraço direito, passando-o de última hora pela frente do rosto para defender um ataque da espada de Alice. Acertou socos no escudo e, querendo afastá-la, chutou-lhe pela direita — mas foi lento demais para resistir ao golpe da espada quando Alice a transformou em um chicote. Tonto, cambaleou apenas o suficiente para ver o chicote voltar a ser espada, e a espada chegar perto demais de seu pescoço exposto.

Depois...

— Byron, você vai permanecer no prédio do exército. Ouvi notícias sobre um ataque ontem.

— Isso foi controlado.

Frederico acenou em concordância.

— Tivemos um ataque à noite também. — Disse um general da cidade, homem baixo e forte de meia idade e olhos pequenos, que prendia sua capa negra com um grosso cinto prateado. — Alorfos ou filinorfos, ou ainda espólicos, tentando desestabilizar nosso…

— Ora, Coreno, não seja tolo! — Esbravejou Ângela, do outro lado da mesa. — É claro que foram alorfos e não espólicos!

— … Gosto tão pouco da ideia quanto você. — Respondeu, considerando a contestação num olhar cruzado para a parlamentar. — Mas devo…

— Pare. — Disse Frederico, voltando-se para Alice e Marco. — Devo me preocupar com isso?

Fizeram que não, acariciando o silêncio.

Depois...

Byron saiu para a sacada do segundo andar e logo voltou, agachando-se no corredor atrás da porta como podia — vestia sua armadura clássica, completa e feita para uma versão um pouco mais magra de si. As pedradas pegavam duro nas paredes, quebrando vidraças e forçando cada arqueiro a se abaixar. Era uma chuva de bolotas do tamanho de punhos fechados, e com a pouca luz que vinha apenas das próprias paredes do exército — com alguns minérios já caindo no chão, despedaçados ou meramente despencados — não se podia ver exatamente de onde os ataques partiam.

— Por favor, senhor! — Dizia o arqueiro agachado ao seu lado, que pedira pela intervenção da infantaria.

Frederico havia sido claro quanto à regra geral de não engajar em combate no território misto: haveria vítimas entre moradores não combatentes, dentre os quais quem sabe pessoas importantes, quem sabe pessoas das quais precisariam mais tarde, até — ou parentes destas. A pior parte, é claro, é o quanto qualquer morte desse tipo ajudaria a propaganda dos alorfos.

Decidiu pôr um fim à brincadeira o quanto antes e lançou os guerreiros. Eram os mesmos da unidade de elite que perseguira o grupo de Leonardo na primeira investida que sofreram.

Infiltraram-se nas ruas como água. Batiam às portas, tão ligeiros quanto barulhentos. Saberiam, duvidava Leonardo, interpretar as pessoas que estavam ali como inimigos, separando-os dos moradores? Aquilo era só uma tática para assustá-los; sem a posse de muitas pedras — que deixaram de jogar — não saberiam identificar quase ninguém.

Voltou a olhar para a sacada, onde alguns poucos arqueiros se recompunham. Poucos pareciam ter se machucado, apesar dos minérios de luz danificados.

Mas o importante estivera na porta central, agora entreaberta. Quando ainda se podia ver mais que sombras cinzas de movimentos, tinha certeza de que vira Byron ali. O recorte do imponente elmo permitia ver uma boa porção de seu rosto, e aquela porção só podia ser dele. Uma pedra quase o acertou e ele voltou para dentro. Não voltou mais depois disso.

Byron estava perto. Era uma oportunidade boa demais.

Depois...

Quem entra pela porta principal do exército vê uma sala não muito maior que um quarto. Havia uma mesa e um secretário — o que não era o caso naqueles tempos pouco gentis. As paredes, de um verde musgo enjoativo cercando o carpete vermelho escuro que cobria o chão inteiro, eram iluminadas por um lustre com quatro minérios amarelos. Cada um apontava, num gesto de planejamento estético raro para a cidade, para uma entre quatro portas, dispostas simetricamente, duas à esquerda, duas à direita; duas na parede oposta à entrada, e uma em cada parede lateral.

O guerreiro começou a correr, escolhendo o caminho da extrema esquerda. Passou por portas e mais portas à direita, pareadas com janelas e mais janelas à esquerda. O corredor alaranjado terminava com uma planta de folhas longas e curvadas que parecia completamente fora de lugar. Entrou na última porta, cobrindo dois lances curtos de escadas sem demora e abrindo, sem bater, a única porta no fim da subida.

Na escura sala apertada havia uma janela coberta com cortinas marrons, um armário que ia do chão ao teto, minérios de menos e papeis demais amontoados no único canto disponível do cubículo, uma mesa de escritório com pés despreocupados e dois banquinhos igualmente desgostosos da vida.

O general Coreno, de cabelo escuro e baixo sempre seco como palha, sentava-se em um deles. Parecia ter parado no meio de uma frase naquilo que escrevia, ou no meio da água que bebia num grosso copo de vidro logo ao lado da mão que segurava a caneta.

— Sim? — Perguntou, enfim largando a caneta ao olhar com curiosidade para o soldado à porta.

— Procuro por Byron, senhor.

— Byron? — Disse o general, molhando os lábios ao franzir o cenho como se há muito não dissesse coisa alguma e se surpreendia com o som da própria voz. — O que quer com ele?

— Tenho uma mensagem para ele, senhor.

— Você não é um mensageiro para carregar mensagens.

O soldado pensou, praticamente imóvel para além do balançar natural de um corpo quente.

— A senhora Alice me enviou diretamente. — Disse, adicionando um “senhor” rapidamente como adendo.

— Alice… — Repetiu ele, baixinho. — Não sei onde Byron está.

— Obrigado, senhor, e…

— Soldado?

— Sim? — Respirou em resposta.

— Arrume seu escudo.

Leonardo olhou para baixo, flexionando o braço para ver o que podia haver de errado.

Coreno atirou o copo na cabeça do inimigo; o elmo reverberou nele até o crânio, tirando-lhe o equilíbrio, fazendo-o cruzar as pernas sem querer ao se apoiar para trás. Ricocheteou sem jeito na parede até cair no chão.

Sentiu os cacos de vidro se prenderem aos lábios e dentro das narinas a partir da faixa vertical aberta do capacete. Levou a mão trêmula à cabeça, mas não teve forças para entender o que havia dado errado — o sangue começara a escorrer pela garganta, misturando-se às gotas mais leves de água, e a visão turva, bloqueada também pelo elmo deslocado, só permitia ver que o vulto negro lhe tomava a espada das mãos à força.

Coreno levantou a cota de malha com a ponta da arma e a enfiou por entre as costelas até fazer Leonardo não ter mais forças para gritar.

— O exército não era para você. — Disse o general, olhando para baixo com as sobrancelhas levantadas. — Mas pelo menos você pôde morrer descobrindo o seu lugar.

Depois...

— Enrico. — Chamou Kerinu, buscando-o na sala principal.

O espólico estava sentado no sofá, ignorando o controlado como de praxe. Kerinu tentava mais uma vez falar com ele — não queria forçar um diálogo que o interlocutor podia transformar em massacre a qualquer momento, mas a situação se arrastava por tempo demais.

— Enrico, temos que conversar.

— Eu já disse que não vamos.

— Temos que ser racionais… E arranjar uma solução para nós dois. — Tentou Kerinu, mais didático. — Eu acredito que já chegou a hora.

Enrico respirou fundo.

— Eu tenho uma solução.

Um espasmo nas pernas de Kerinu começou a forçá-lo a dar meia volta; quando ele percebeu o que acontecia e tentou dizer alguma coisa, sentiu os lábios grudarem. As mãos sucumbiram tão logo se aproximou das escadas — reunia todas as forças que podia, que não eram muitas. Subia para o segundo andar de lado, pé por pé, mãos agarrando-se à parede como se tentasse puxá-la para si.

Entrou no quarto, jogando-se na cama sem a menor intenção. Enrico deixou o alorfo preso ao próprio corpo da forma como caiu; meio de bruços, meio de lado, o braço direito todo atravessado por debaixo do tronco. Era como perder as forças do braço e não conseguir levantar um garfo. Como ter voz e desaprender a falar. Ter um plano e vê-lo se despedaçar.

Depois...

O céu estava aberto, mas as ruas estavam amareladas como se a areia de Imiorina tivesse atravessado o rio. O exército apertava a resistência pelos dois lados, forçando-a a fugir. Para os rebeldes, de qualquer forma, depender de uma única casa em um trecho complicado no Oeste provou-se a ruína final do cerco antes mesmo de uma maior ofensiva oficial dos soldados — moradores contrários à revolta vestiram-se de preto e empunharam bandeiras de mesma cor. Não apenas saíram de suas casas como entraram em outras, denunciando qualquer um que considerassem ser um revoltoso escondido. Às vezes esperavam pelos policiais para levá-los. Às vezes lidavam com eles da forma como preferiam.

Verônica berrou por cima da algazarra, liderando um pequeno grupo de seis para fora de um beco cheio de poeira grossa no ar. Moviam-se pelas costas de um grupo barulhento de vestes-negras que acabava de passar em revista, exortando as casas a fecharem as portas para os rebeldes, mas abrirem-nas para eles. O plano era passar, em pequenos grupos, por uma região um pouco mais central e então chegar à concentração da resistência, ao norte, região de Leonardo. Aquilo acabaria, evidentemente, com qualquer possibilidade de ainda controlar o coração da cidade, mas lhes daria chance de ganhar força na área do prédio do exército.

Verônica passou com o grupo por duas ou três ruas antes de chegar a uma avenida mais grossa, que pretendiam cruzar rápido. Estavam no meio da passagem quando ouviram trombetas soarem à direita, à esquerda e mais à frente, mas também logo mais atrás — parecia que vinham dos sobrados das casas sons metálicos, gritos e ameaças de que logo eles seriam pegos.

Não se preocuparam mais em correr agachados rente às paredes; a prudência se foi na onde de calor que os movia à frente. Entraram na Rua dos Costureiros, conhecida pelos lares invariavelmente azuis. Lá estava mais limpo e claro que em outros lugares, mas não havia observador, soldado ou trabalhador nas janelas pronto a apontar dedos ou armas.

Um grupo de policiais entrou na rua, espadas em punho, fazendo o grupo parar. Os rebeldes prepararam as armas, recuando num quase círculo. Verônica carregava uma espada de uma mão com o trabalho conjunto das duas, mas sabia que não conseguiria usá-la bem. Ao seu lado, a única outra mulher do grupo carregava um sarrafo intimidador, e mais ao lado um homem carregava um arco com três flechas penduradas no cinto. Atrás de si sabia que havia uma espada, com sorte usada por alguém melhor que ela, um pequeno machado, e uma grande faca que nunca tinha feito jorrar sangue humano.

Aqueles que estavam nas laterais procuravam por uma saída, vendo as opções minguarem com a aproximação de soldados pelo outro lado da rua. As pedras rosadas que faziam o chão pareciam se fechar ao redor deles, girando à medida que os pés inimigos cercavam-nos, rápidos, leves, belicosos. Não havia intervalos entre as casas; o azul-marinho se sucedia ao azul real, que era seguido por um azul-bebê que era por sua vez ligado sem mais nem menos a um azul-escuro que pouco se diferenciava do céu noturno.

O rebelde arqueiro virou-se para os soldados, que vestiam curtas capas pretas por sobre placas de duro couro, e um curto elmo firmado ao redor da nuca por um cordão acobreado. Encostou uma flecha ao arco, de sobreaviso; o homem com a faca a brandia como uma espada, e o machado figurava no braço esquerdo flexionado de um homem mais velho e barbado.

Uma charrete surgiu pelo ponta Norte, as batidas do yutsi nos ladrilhos enchendo a rua de ruído. Os membros do exército passaram a agir como um, sem distinção e aproveitando a distração, intercalando policiais e guerreiros na roda em que dominaram por completo a posição do grupo de Verônica.

A charrete parou com um puxão brusco do cocheiro entediado. Uma guerreira desceu num pulo; vestia um conjunto metálico leve pelo corpo, trazia uma espada na cintura e todo tecido aparente, incluindo duas grossas luvas, exibiam o azul mais imperial de toda a rua.

Verônica a observava com o canto dos olhos, preocupada em prestar atenção aos inimigos mais imediatos. Viu em Neborum que se tratava de Alice antes que ela levantasse a parte destacável do elmo.

— Prendam aquela ali. — Ordenou ela. — Ela abandonou seu posto de parlamentar e deve ser executada publicamente como exemplo!

— NÃO! — Berrou o arqueiro, disparando uma flecha na direção da preculga.

Alice resguardou-se atrás da porta do coche, mas a flecha passou longe; Verônica levantou a espada para se defender de um ataque do policial à sua frente no momento em que foram todos atacados. Tentou se desviar para fora do círculo, debatendo-se por baixo do cerco, correndo, virando-se numa defesa desesperada: acabou agarrada e derrubada.

Teve a arma arrancada da mão e o rosto esfregado no solo até que terminaram de amarrar suas mãos. Ouviu os gemidos e muxoxos ocasionais que a faziam ranger os dentes ao não saber o que estava acontecendo; só podia adivinhar, e adivinhava o pior.

Depois que a levantaram, num único puxão, ela tentou se voltar com o corpo para a batalha. Apertaram-na para frente, fazendo-a andar até o final da rua. Virava o pescoço, os olhos, chacoalhava-se como podia, mas só conseguia perceber, em todos os mundos, guerreiros da cidade levando-a adiante.

Depois...

— Eu não tenho boas notícias.

Caterina havia fugido do descampado nos limites da cidade onde montaram o domicílio temporário. Escapou para um gramado inclinado, deitando-se abaixo de uma árvore, na esperança de que Fuj só a encontrasse se fosse para trazer boas notícias.

— É ela? — Perguntou, sentando-se.

— Sim. — Caterina fechou os olhos por um momento, engolindo em seco no próximo. — E eu falei com uma amiga que parece ter visto Leonardo… Talvez pela última vez.

— Ah, não… — Suplicou ela, balançando a cabeça. — O que ela disse?

— Que ele, com a ajuda dela, se vestiu como um soldado para entrar no exército e procurar por Byron.

— Sozinho?

— Sim… A ideia foi dele.

Fuj cruzou os braços enquanto Caterina juntava às mãos à frente da boca, com as sobrancelhas tremendo de leve como soldados guardando portões à beira de um ataque.

— Eu não posso deixar Verônica morrer, Fuj. — Disse ela, baixinho. — Tem certeza que ela não está na prisão?

— Sim. Transferiram presos para tirá-los do prédio do exército. Mas o lugar novo não é longe, e ainda é no centro.

Depois...

— Ouvi dizer que ele procurava por mim. — Disse Byron, em tom de confidência, em um corredor vazio no prédio do exército.

— Sim. — Respondeu Coreno. — Mas está tudo resolvido agora.

— E quanto ao seu filho? — Disse Byron, interrompendo-o antes que ele voltasse a caminhar para dentro do armazém. — Como está?

— Está ótimo. — Disse o general. — Monitorando seu discípulo, como pedido.

— Quando tudo isto acabar, Coreno, você será recompensado.

Coreno riu, colocando a mão sobre o ombro do bomin. O braço estendeu-se como uma estrada em uma colina, reto e firme na subida do homem mais baixo para o mais alto.

— Eu sei que muitos não pensam assim, mas nós, preculgos e bomins, temos que cuidar uns dos outros. Se você deixar cada espólico ser bem sucedido em tudo… Eles têm meios, Byron, não se engane. Nós pensamos que somos bons porque somos “sutis” mas eles não estão interessados nisso, e um dia podem pegar a todos nós de surpresa e vamos ter mais um governor por aí como o Napiczar, e mais exércitos feitos só desses miseráveis como generais, e aí eu gostaria de saber quem vai fazer frente a eles.

Byron não compartilhava da paranoia de Coreno quanto aos espólicos, mas sorriu o mais educadamente que pôde.

— Nós, é claro.

— Nós, das duas verdadeiras tradições! — Disse por fim, gargalhando antes de afagar com tapinhas o rosto de Byron. — Você é um bom amigo, Byron.

Depois...

Pouco era visível logo à frente da rua estreita em que estavam todos amontoados. A entrada da casa pontuda tinha duas portas, e de cada lado uma janela quadrada, clara em contraste com a pintura escura da parede. Uma janela redonda sem vidro nem moldura no sótão — literalmente nada mais que um buraco bem feito — completavam a figura.

— Eu não sei como eles colocaram tantas pessoas aí. — Sussurrou Fuj. — Prontos?

Caterina retraiu-se como o outro alorfo, deixando o caminho ao centro livre.

O farfalhar das roupas e as pisadas, agora mais duras, invadiram a noite; cerca de dez pessoas correram carregando um tronco derrubado naquela tarde até o outro lado da rua, e no choque com as portas estouraram a madeira por completo com um estrondo que fez quase agachar os rebeldes que ficaram esperando.

“Ei!”, ouviram alguém falar do lado de dentro, iluminado em vermelho. Fuj e Caterina seguiram em frente, puxando uma fila de mais alguns rebeldes armados.

Só o que havia no vão central era o tronco por sobre o chão amadeirado; as janelas estavam cobertas com cortinas coladas às laterais, e quatro velas nos cantos iluminavam uma espécie de quarto em que ficavam, arrastados até a parede, banquinhas dos quais soldados da cidade se levantavam.

Foram pegos de surpresa, mas tinham às armas ao alcance. Os primeiros rebeldes a entrar lutavam com eles, escapando aos golpes, empurrando-os para o chão, chutando-os, roubando suas espadas. Os baques nos chão e nas paredes enchiam de ruído agonizante a luta entre os poucos presentes; logo ouviram berros, como instruções, vindos de um pequeno corredor no outro lado da sala de entrada, que terminava em uma curva à direita.

Fuj e Caterina se olharam antes de entrar na casa, juntos e junto aos outros à medida que foram cabendo do lado de dentro. Policiais apareceram no corredor, na pressa para socorrer os dois guerreiros que sobraram, com espadas em punho, aglutinados no lado contrário à entrada.

Um policial avançou, saltitando com equilíbrio por entre o tronco largado no chão, os corpos chutados de lado e os feridos que começavam a cantar suas dores; logo parou, desfazendo seu rosto enraivecido, dando as costas para os rebeldes parados na entrada e voltando para onde veio.

Assim que chegou, fez um corte à queima-roupa no colega à esquerda, que levou a mão que carregava a espada até o outro braço, e no afã de retornar do golpe empalou a espada pelo peito do policial à direita da porta.

Os rebeldes berraram em uníssono, avançando contra os dois inimigos que sobraram. Caterina e Fuj seguiram a turba que entrava no corredor, mas logo pararam junto com o resto do grupo, como se alguém houvesse encalhado na estreita passagem.

Caterina foi chamando a atenção daqueles que estavam mais atrás, pedindo que eles voltassem para vigiar a entrada do lugar. Pediu o mesmo a Fuj, que também retornou.

A fila começou a se mexer. Assim que virou o corredor, Caterina pôde ver que ele acabava em uma parede sem portas. Os últimos da fila desciam, um a um, pelo que parecia ser um buraco no chão.

O rombo no assoalho era na melhor das hipóteses um improviso: abaixo dele havia um buraco na terra pura, e uma escada de madeira pela qual Caterina desceu.

Pisou numa câmara de terra, apoiada por colunas ora de alvenaria, ora de corvônia — e vez por outra ainda de madeira pela metade, como num trabalho não terminado — iluminada por um minério amarelo e com mais um túnel de terra em que se descia, novamente, por uma escada.

No segundo nível viu-se em um corredor que possivelmente cobria dois quarteirões da cidade acima deles antes de se bifurcar. Havia uma série de portas espaçadas pouco a pouco dos dois lados do corredor, e entre elas minérios, em sua maioria verdes; alguns estavam quebrados, nenhum deles alinhados bem uns com os outros.

“O que é esse lugar?”, perguntavam-se os rebeldes, que exploravam o lugar à frente da alorfa; “um labirinto?”, questionou outro.

— A cadeia de Mosves… — Sussurrou Caterina.

Olhou para uma das portas à esquerda. A única coisa na qual todas eram uniformes era o mecanismo que as trancava, misturando o aço a um trançado de madeiras fortes. Caterina girou a manivela presa a uma engrenagem no centro da porta, fazendo ceder as três barras de ferro que a prendiam ao batente.

Quando a força final foi feita e as barras totalmente recolhidas para dentro dos limites da porta, ela imediatamente pulou um pouco para a frente, há muito tempo amarrada forçosamente na posição. Todos olhavam para Caterina, esperançosos não sabiam de quê.

— Um minério, rápido! — Pediu ela, diante de uma escuridão quase completa.

Uma mulher próxima a ela deixou seu machado no chão e foi tirar um dos minérios da parede. Gritos de socorro surgiram mais à frente no corredor, acompanhados de batidas fracas em uma das portas.

Abram! — Disse Caterina, urgente, recebendo o minério nas mãos.

Ele perdeu um pouco de intensidade, mas ainda conseguiu fazer a cela ser compreendida. Uma latrina em um dos cantos, colunas de corvônia, e o que parecia ser um duto no teto para que o ar pudesse passar. Para além disso, ninguém.

Pôs o minério num bolso da capa esfarrapada e foi até o homem e a mulher que, num esforço conjunto, terminavam de abrir a porta mais ao centro do corredor. Braços magros deslizaram pela abertura e da cela saiu uma mulher em pranto; de curto cabelo negro, Caterina viu por cima das cabeças que se juntavam ao redor dela que não era Verônica.

— ESCUTEM! — Começou ela, batendo palmas breves que ecoaram brevemente pelos corredores. — Temos que abrir TODAS essas portas, rápido, acordar os presos que não estão acordados e dizer que temos que sair daqui RÁPIDO! RÁPIDO, VAMOS!

Depois...

— E-estamos abrindo as portas! — Acordou-se Tornero, com a cabeça latejando. — T-temos que ir embora! Está bem?

Uma luz verde enjoativa entrava pela abertura na porta.

— Não sei se tem alguém aí, mas…

A voz não disse mais nada antes do breve silêncio e da decisão de ir embora correndo. Tornero passou a Neborum num instante, mas não era o castelo de seu captor que via voar baixo pela grama orvalhada, saindo de cena. Levantou-se o mais rápido que pôde, apertando os olhos e rangendo os dentes com a mão diante do rosto, andando até sair da cela.

Estava na última porta à esquerda no final de um pequeno corredor feito de terra e colunas tortas a cada tantas e tantas outras portas. O corredor terminava em outro, pelo qual viu mais alguém correr para a direita. Outro castelo desconhecido, em terras desconhecidas; começou a andar em direção à saída e logo percebeu que, apesar de esfomeado e nervoso, ainda podia correr afinal. Mesmo que devagar.

Depois...

Enquanto Tornero passava várias salas do Parlamento em revista a procura do mestre, mantinha-se atento: saberia reconhecer bem o perfil largo e as pedras cinzentas do castelo do guerreiro mago que o sequestrara.

Subiu, e viu já desde o corredor as costas do mestre diante da porta aberta da sala de reuniões.

Andou a passos apressados até ele, crente de que poderia realmente pegar sua espada e fazê-la atravessar aquele corpo.

Foi a meio caminho que Byron virou-se de costas, percebendo que o aluno chegava. Pediu licença num resmungo enrolado e saiu da sala, vindo ver Tornero.

— Eu fi… — Começou Tornero, sem conseguir continuar depois do tapa que levou de seu mestre.

Byron segurou-o pela gola da capa cujos rasgos ignorou, olhando-o direto nos olhos ao prensá-lo contra a parede. Assegurou-se uma última vez que ninguém estava olhando para eles a partir da pequena fresta da porta semiaberta e apertou-o mais.

— Eu quase morri, seu maldito… Estúpido! — Ralhou ele, salivando pelo canto da boca. — Em cada batalha que eu estava por perto podia ter sido pego numa armadilha, ou entrado na rua errada, ou terem… Onde você esteve esses dias todos?

— Debaixo da terra depois de ter sido sequestrado por um mago preculgo, mestre. — Respondeu, também entre dentes.

Byron jogou-o para longe, passando as mãos pela cabeça e ajeitando os óculos enquanto Tornero se recompunha.

Você vai agir por mim de agora em diante. Vai for onde eu tiver que ir. Eu vou ficar aqui.

— Eles não vão gos…

Não importa!

Tornero respirava forte, olhando para o chão para tentar não mostrar o ódio e a confusão em seu rosto. Byron desconfiava dele, e tinha mandado alguém tirá-lo de circulação durante a crise? Ou aquilo tinha sido obra de outra pessoa? Ou sequer um preculgo aquele mago era?

Byron passou por ele, descendo as escadas sem olhar para trás, e Tornero andou em direção à sala de reuniões.

— Basicamente, a cidade vai entrar em colapso. — Alertou Luca, com o rosto inclinado para a frente, como se os olhos arregalados não fossem dramáticos o bastante. — Em breve. — Fez uma pausa para alternar o peso da perna e esperar que Tornero entrasse na sala. Franziu o cenho para ele. — Cadê o Byron?

— Vou substituí-lo.

— E onde estava você esse tempo todo? — Perguntou Ângela, levantando uma sobrancelha.

— Não interessa.

Continue… Luca. — Instou Frederico.

— Temos tentado reverter o quadro de abandono do campo mas tem sido muito difícil, ainda mais protegendo os carregamentos que já chegam aqui… Tem sido muito difícil.

— Por que isso está acontecendo, exatamente? — Perguntou Marco, sentado à mesa ao lado de Frederico.

— Bom, a notícia do cerco à cidade se espalhou e muita gente tomou o lado dos alorfos, então tem pouquíssima produção agora mesmo. Por isso que está sendo até difícil atacar aqui os próprios rebeldes no centro porque estamos tendo muitos problemas com os rebeldes no campo já, entenderam? A gente já chegou a prender uns alorfos que vieram de Kerlz-u-een para vir dar trabalho aqui, se vocês quiserem acreditar…

Frederico grunhiu, levantando as grossas sobrancelhas até quase fazê-las encostar no início dos cabelos; Bufou, barulhento, antes de começar a pôr os pensamentos no lugar em voz alta.

— Com isso e com a invasão da cadeia, são praticamente só más notícias.

— De quem foi a ideia de tirar os muitos presos que nós começamos a ter do exército, onde eles estavam bem cuidados — Indagou Ângela — e colocar sob tão pouca vigilância?

Tornero girou a cabeça ao redor da sala de reuniões, começando a perceber que aos poucos os olhares se voltavam para ele.

— De Byron. — Respondeu Alice, cruzando os braços.

O silêncio parecia cozinhar os órgãos internos de Tornero. Olhou para Alice, podendo jurar que ela sorrira antes de desviar o rosto.

— De qualquer forma temos que acabar com essa confusão logo e botar essa gente para trabalhar de novo ou vamos nos endividar importando comida de sabe-se lá onde. — Disse Luca, apontando as mãos para o alto.

— Sempre temos Kor-u-een, não é? — Disse Marco. — É verdade que ela caiu?

Frederico confirmou.

— Sem esferas dessa vez?

O parlamentar mestre lançou-lhe apenas um olhar de esguelha, o suficiente para fazer Marco — e o resto do parlamento — voltar-se para dentro de si como se tivesse perguntado, em um funeral, dali a quantas horas seria servido o jantar.

— Talvez seja uma boa ideia espalhar a notícia sobre Kor-u-een… — Disse Frederico, saindo da névoa do silêncio numa direção diferente. — O plano ainda é o mesmo. Sufocar os rebeldes e fazer aqueles que estiverem vivos nessa cidade no final nos apoiar. Mas talvez com essa notícia a mais eles vejam que vão acabar sozinhos de qualquer jeito e desistam.

Depois...

— Podemos atacar o parlamento. — Sugeriu Caterina.

— Não é uma boa ideia. — Reagiu Fuj. — Se você entrar no parlamento, o que é que vai fazer depois? Nossos problemas não vão acabar.

— Tem alguma coisa que possamos fazer para acabar com os problemas, Fuj?

— Temos que sair daqui amanhã e fazer alguma coisa ou… Só vamos esperar a morte chegar. — Disse Verônica, até então mais quieta que os dois.

Conversavam dentro de uma barraca, ao redor de um minério azul-claro. Apertavam-no, para não deixar a luz muito forte, e passavam-no entre os dedos. As sombras dos três, gigantes nas flácidas paredes de um pálido amarelo queimado, dançavam de um lado para o outro. Já era tarde da noite, e muitos já dormiam; outros vigiavam os arredores do precário acampamento.

— O exército é uma boa opção.

— Não. — Respondeu Verônica, ligeira. — Isso é suicídio!

— Leonardo tentou — Disse Caterina, engolindo a vírgula. — e morreu, Fuj.

— Leonardo morreu porque foi imprudente. Ele não era nem mesmo um mago, não… Não deveria ter ido. — Disse ele, chacoalhando a cabeça. — Me desculpe, mas essa é a verdade. E ele já foi do exército, pelo que me disseram, então alguém pode ter reconhecido ele. Se alguém que eles não conhecessem fizesse algo parecido com o que ele fez, mas para se instalar lá dentro, é possível fazer muito. Muitas coisas. Invadir aquele lugar quando a hora chegar. No tempo certo, seria uma surpresa para eles.

— E o que ganhamos com isso? — Indagou Caterina.

— Armas. — Respondeu ele. — Uma posição boa para defender. Fazer o que o grupo do Norte não conseguiu, talvez até com a ajuda deles. É uma vitória simbólica também, Caterina. Até agora tivemos derrotas demais.

Depois...

Fuj, com as mãos ao alto, saiu da sombra de uma casa de paredes rosas em frente ao exército. Rendendo-se e andando devagar, antecipou-se aos arqueiros para quem olhava, que colheram flechas nas aljavas e armaram-na nas armas.

— Pare! — Ordenou uma arqueira. — O que quer?

— Meu nome é Cícero. — Mentiu ele. — Eu moro aqui perto e fui tirado da minha casa por um alorfo rebelde.

— Não é aqui que você tem que vir. — Disse, depois de estudá-lo por um tempo da sacada no segundo andar.

— Eu já falei com alguns policiais, e todos eles disseram para eu vir para cá.

— Tem certeza?

— Sim.

Os dois mediram-se mais, os únicos a fazê-lo; os guerreiros ao lado já guardavam as flechas.

— Eu gostaria de abaixar meus braços.

— … Pode abaixar os braços.

— Eu também gostaria de falar com alguém. Eu só quero minha casa de volta.

— Tudo bem. — Disse, enfim tirando o arco de prontidão. — Pode entrar.

Depois...

— Já faz dez dias — Disse uma mulher alta, com um rosto de linhas fortes e olhos viperinos enquadrado por um longo cabelo negro ondulado. Ela estava à frente do grupo, quase virando-se para trás ao falar como se quisesse ela mesma tomar a plateia para si. — que eu saí da minha jir e vim para cá. Eu tenho ficado aqui… Tenho seguido vocês, tenho seguido vocês e todo mundo aqui está junto porque eu acho horrível, horrível o que a nossa cidade se tornou. Viver aqui nunca foi fácil, mas eu não quero viver na mão desses magos que estão ali. — Sinais de aprovação percorreram a multidão como ondas irradiando dela, que apontava o dedo em riste na direção das casas que começavam a brotar mais adiante. — Então eu quero saber por que você pede para a gente seguir vocês mais uma vez, para dentro do exército que tem matado a gente, porque eu conheço pessoas, conhecia amigos meus que morreram nessa cidade nesses dez dias! Conhecia! Então eu quero saber se… Se em dez dias nós não conseguimos nada… Por que é que vamos conseguir agora?

Caterina sustentou seu olhar o quanto pôde. Ao começar a pergunta, aquela mulher — que ela vira lutar, e lutar bem, e resistir construindo barricadas e correr para salvar companheiros na hora em que eles mais foram perseguidos e cercados — lançou-lhe uma série de flechas de contestação e desafio. No fim do que tinha para te dizer, só o que sobrou foi uma espécie inocente de pedido.

— Eu também vi pessoas que eu conhecia morrer. — Disse, percebendo que não tinha realmente pensado no que ia dizer. Passou a olhar para cada um dos rostos, todos imóveis a não ser por piscadas ocasionais; muitos incrédulos, nenhum realmente feliz. — Eu sei que um amigo morreu. — Engoliu duro, duas ou três vezes, até conseguir continuar. — Mas uma coisa que me dói também foi que… Um amigo… Um parlamentar, então vocês… Imaginem… Não apareceu há dez dias atrás. E em nenhum dos dias depois daquele, e eu duvido que ele vá aparecer. E um amigo, esse amigo que morreu, me disse, antes de tudo isso começar, que ele o julgava por isso. Quando eu disse que nós não tínhamos o direito de julgar ele por… Por não querer se arriscar. E esse meu amigo está morto, e aquele que fugiu está vivo. Sentindo-se mal, ou… Ou bem, eu não sei. Mas eu não acho isso justo porque a vida dele vai continuar. Ele não vai ser mais parlamentar, porque não era um mago. — Disse, logo explicando o necessário. — Se os magos vencerem, ele não vai ser mais parlamentar… Mas ele está vivo, e a vida dele não vai mudar tanto quanto a vida de vocês, porque ele tem dinheiro o bastante para se mudar, para ir viver em outro lugar, ou para comprar uma terra e fazer pessoas como vocês trabalharem para ele. E eu não sei se isso responde a sua pergunta, e eu peço desculpas se não luto tão bem quanto você. — Caterina começou a chorar, sabendo no mesmo instante o quanto ela deveria se recusar a fazer isso. — Eu não sei lutar… Eu não sei defender vocês tão bem quanto vocês puderam me defender… E eu não sei que motivos você vai achar para… Para me seguir, para ir até o exército… Mas se eu não continuar lutando agora… — Respirou fundo, sentindo-se no controle do próprio rosto de novo. — Eu não sei para onde mais eu vou. Porque Prima-u-jir é a cidade que… Eu… Eu só sei tentar melhorar as coisas. E agora está muito difícil. Está quase impossível. Mas eu não sei fazer outra coisa.

Caterina olhou para Verônica ao lado, que sorriu, confirmando sabe-se lá qual parte do discurso com um olhar encorajador.

— Hoje nós vamos sair daqui… — Disse a amiga, tomando a palavra de repente. — Nós vamos passar por quem estiver no nosso caminho… Por todos aqueles que teriam PRAZER em nos matar e já ficam FELIZES de imaginar uma vida em que nós aceitamos de cabeça baixa o que os magos nos controlam para fazer, e nós vamos dizer NÃO, e se eles não quiserem ouvir nós vamos EM FRENTE, e nós vamos TOMAR o exército e NÃO VAMOS DEIXAR Prima-u-jir nas mãos DELES! NÃO VAMOS!

Os rebeldes berraram em resposta, com as mãos apontadas em punhos fechados para o céu nublado; faziam convocações que seguiam correntes de pessoa em pessoa — abraços, sacudidas e apertos de mãos cheios de energia em que se queria perguntar, sem um ponto de interrogação, se estavam todos prontos para aquilo. Se estavam realmente, decididamente, sem sombra de dúvidas prontos para aquilo.

Depois...

Se nos últimos tempos alimentos eram distribuídos por charretes fortemente guardadas diretamente na casa das pessoas, como nos tempos antigos em que o comércio parou de funcionar em função das doenças da noite, alguns mercadinhos voltavam a abrir as portas, com fornecedores corajosos — e encorajados — o bastante para fazer as trocas. Os consumidores, contudo, perderam naquela tarde a coragem de gastar mais rápido que vendedores, a coragem de vender, e em pouco tempo esquecia-se causa e efeito já que na prática janelas foram fechadas, portas foram chaveadas, e as lojas voltaram a morrer na solidão à luz do dia diante de foices, martelos, paus, pedras e as ocasionais armas profissionais, em sua maioria roubadas de soldados derrotados.

O primeiro sinal do exército da cidade veio da esquerda. Nas esquinas viam e ouviam a tropa inimiga acompanhá-los. Caterina olhou para trás e percebeu que a rua por onde andavam estava também ocupada por um grupo misto de soldados e policiais, agindo como rolhas caso os rebeldes recuassem. Com a sorte que teve de cair em uma junção de ruas diagonais, viu que uma tropa se aproximava também mais à frente. Estavam sendo efetivamente cercados; o plano do exército era empurrá-los a leste, para fora da cidade de vez.

Começaram a andar mais depressa; tinham que pelo menos estar à frente da primeira tropa para conseguir virar à esquerda e seguir na direção norte rumo ao prédio do exército.

Olhava para os lados sem precisar checar se estavam todos atrás de si — o calor que pressionava seus ombros, sua nuca e seus calcanhares lhe dizia que estavam. As batidas ritmadas à distância, desorientadoras como ecos, informavam que os inimigos também estavam.

A cada vez que terminava uma nova série de casas altas, muitas vezes sem muros e espaços que dividissem paredes de paredes, via ressurgir os guerreiros, cada vez mais perto deles, cortando um atalho aqui ou ali. Engoliu em seco, tentando manter o ritmo, e percebeu à frente um terreno entre duas casas no qual não havia nada construído; sem sequer muros ou cercas, o pedaço de grama alta e selvagem erguia-se ali como um atalho perfeito.

Viu que começavam, sutis, a correr, fazendo o ritmo do outro lado seguir o padrão. Fugiam para frente, na ilusão semiconsciente de que não seriam, uma hora ou outra, alcançados.

Caterina viu a curva que os inimigos de preto fizeram no terreno, acertando em cheio o meio da formação. Os primeiros a avançar foram guerreiros com espadas e escudos; cortavam com confiança os cansados e lentos. Partiram para cima com vontade e movimentos fortes, sem chance para avisos prévios: começaram a empurrar os rebeldes para as casas do outro lado da rua, ameaçando dividir o grupo em dois.

Caterina berrou que voltassem, e viu com o canto de olho o grupo de soldados que, andando num lento cortejo no caminho à frente, forçou a alorfa a prestar atenção a dois lugares ao mesmo tempo.

— AVANÇAR! — Berrava Caterina, desesperada. — AVANÇAR!

— Eles não vão virar de costas pra eles! — Berrou de volta alguém próximo.

Não conseguiam ver o que acontecia mais atrás ou no meio; o grupo ainda estava unido, e muitos deles continuavam no terreno baldio, termômetro da invasão, sem conseguir quebrar a espinha dos rebeldes.

Os inimigos à frente se aproximavam. Caterina virou-se de vez, sentindo-se afundar ao ver o quão próximo estavam deles — em mais cinco ou seis passadas chegariam, trazendo uma parede de escudos à frente que protegia as lanças da segunda linha.

Sacou a espada, desajeitada, e deixou-se absorver por escudeiros que tomaram a frente da multidão, coordenando os esforços para segurar a dianteira. Quando o comandante inimigo ordenou que atacassem, Caterina se preparou para ser esmagada, e embora o choque forte a tenha jogado para trás, permaneceu de pé. Se no começo não sabia para onde olhar, logo identificou que dois soldados encaixaram seus escudos para empurrar o escudeiro na sua frente, um homem muito mais alto que ela, que se defendia com agilidade e acabou protegendo-a também, sem querer, de um golpe apertado do guerreiro à direita.

Ela não conseguia espaço para atacar ninguém, mas se esquivou a tempo do ataque de uma lança que acertaria sua cabeça; conseguiu engatar a lâmina a tempo de puxar a lança pela ponta, agachando-se até sentir que ninguém mais puxava a arma. Eufórica, deixou-a deslizar pelo chão e subiu de volta.

Passou a atacar o escudo inimigo com estocadas, atacando uma brecha entre os dois protetores à frente. O escudeiro à direita foi atingido, o rosto esfacelado por duas estocadas repetidas. O corpo trêmulo caiu para trás, e logo foi sendo levado por aqueles imediatamente atrás dele; Caterina foi quase atingida pela espada do mesmo inimigo, mas esquivou-se a tempo, esbarrando em rebeldes que só a empurraram de volta para frente. Uma mulher com um machado de duas mãos tomou o lugar do homem caído e, sem perder tempo ou guardar energia, atacou ferozmente o guerreiro à frente até destroçar seu escudo; com berros a cada golpe, chutou o que sobrou do soldado para trás, forçando os inimigos a reorganizar a defesa.

Caterina gritou, assustada, quando uma flecha acertou a nuca do escudeiro a sua esquerda; virou-se instintivamente, ameaçada, e viu arqueiros calmos dominando as janelas das casas ao lado do terreno baldio, que estava agora cheio de corpos e inimigos que não pareciam prontos para a luta.

Voltou-se para frente e acolheu, meio sem querer, o corpo que caía; viu-se abraçada pela horda de colegas que correram à frente para preencher o buraco, deixando a alorfa arrastar, agachada, o rebelde amigo mais para trás na multidão. Tropeçou e caiu, sentindo que caíra em algo irregular e alto demais para ser o chão que via também à frente dos olhos. Voltou-se e viu uma trilha de corpos, alguns já amontoados nas paredes manchadas das casas.

Caterina gritou quando um corpo ao seu lado se mexeu; cobriu a boca com as mãos, arfando ao olhar para a senhora que sussurrava, respirando com dificuldade por debaixo de roupa banhada em sangue, que não queria morrer ali.

Levantou-se, tonta por um momento. Contou cinco filas à frente até os inimigos, alguns deles guerreiros sem escudos, e aparentemente sem muitas das proteções dos primeiros contra os quais lutaram.

A batalha seguiu em frente por mais tempo, um pouco mais estável; depois de perdas dos dois lados ninguém parecia mais motivado ao empreendedorismo na linha de frente. Os poucos arqueiros rebeldes, misturados ao resto da tropa, conseguiam contra-atacar os inimigos nas sacadas das casas.

Os soldados do exército viraram-se, parecendo assustados por algo que logo os rebeldes também ouviram; o ruído crescente, excitado, que surgia aos poucos por entre ombros e cabeças ferozes atrás dos soldados da cidade; cabeças livres de elmos, das roupas típicas dos policiais, portando as mesmas proporções de armas improvisadas que seus colegas do Sul.

O grupo do Norte chegara, pressionando o que sobrou da tropa inimiga com virulência e barulho; a parte da frente do grupo de Caterina competiu, ganhando o empurrão que faltava. A alorfa, que depois de ver tantos caírem finalmente chegou perto novamente da linha de frente, defendia mais do que atacava; por um momento sentiu pena dos inimigos e quis pedir para que parassem e os prendessem, que os levassem como prisioneiros — não o fez. Ninguém iria parar de lutar; não depois de uma emboscada tão sofrida e uma reviravolta tão providencial.

Em pouco tempo aqueles que sobraram, exprimidos no meio e enfrentando também longas foices e estacas, não podiam mais lutar sem ter que prestar atenção aos dois sentidos do caminho. Amontoados começaram a se formar por cima dos poucos que ainda resistiam, seja em pé, seja no chão — e Caterina parou, mais atrás no meio de outros rebeldes que não tinham mais muito o que fazer, vendo os mais ativos segurarem alguns corpos que uns poucos feriam três, quatro, cinco vezes até terem certeza de que haviam arrancado a vida pela raiz.

Os círculos se desfizeram tão rápido quanto começaram; uns que deles saíam olhavam, atônitos, para o que tinham acabado de fazer. Outros vomitavam, caídos de joelhos, enquanto outros giravam o corpo, parecendo perdidos como crianças em festas de estações.

Outros dali saíram comemorando a plenos pulmões. A festa era regada a lágrimas, sangue, sujeira, e feita nas alturas, pisando muitas vezes ainda nos corpos dos inimigos; alguns vivos, mas sem condições de ficarem de pé. Caterina não ria junto a eles nem berrava; teve o impulso de fechar os ouvidos, mas não o seguiu.

— AVANÇAR! — Berrou ela, com o peito cansado, começando a empurrar os que estavam em volta para a frente. — CAMINHO LIVRE, AVANÇAR!

Os dois grupos misturados seguiram em ritmos diferentes pela rua libertada; deixaram para trás o som das lutas que ainda deviam estar acontecendo, e seguiram rumo ao prédio do exército, os que sabiam o destino passando a mensagem para os que não sabiam do plano.

Não pararam para descansar, mas diminuíram o ritmo após um tempo até o nível do possível — um andar apressado, com a língua quase pulando para fora da boca, só permitida pela aparente trégua das tropas que não mais os seguiram.

Entraram numa via reta que levava até o prédio do exército algumas quadras à frente. Verônica escolhera ficar na parte traseira da jornada, e Caterina sabia há algum tempo que ela conseguira escapar e marchava com eles; procurou seu olhar de novo, e só foi encontrá-lo mais tarde, quando uma porção maior do grupo já virara a curva que os deixava ver um trecho das paredes cinzentas à distância.

Caterina franziu o cenho para a dor de cabeça que sentia surgir aos poucos; ouviu um ritmo de pisadas e pensou no pior. Ainda não ficara muito definido, nem muito forte, e ela podia ainda estar delirando, o sangue em sua cabeça dolorida latejando como se fosse o caminhar dos inimigos — mas podia não estar.

Parou, pedindo que o resto deles continuasse; recuou devagar, observando cada pedaço das outras ruas do bairro que podia investigar pelos espaços entre as casas e os prédios baixos da região. Olhou de relance para a multidão que andava até o prédio do exército. Ficou surpresa quando seu fim passou por ela, contando talvez metade das pessoas que haviam saído do Sul. Verônica acenou para ela, perguntando o que havia de errado. Caterina viu o problema atrás da amiga, algumas quadras na diagonal de onde estavam: um movimento negro preenchia os espaços atrás deles.

— CORRAM!

Estouraram na direção do prédio, a percepção do perigo chegando a diferentes pessoas do grupo em tempos diferentes. O largo e alto portão à frente deles, que não era a entrada principal do prédio, já estava entreaberto.

Fuj cuidou bem dos obstáculos, pensou Caterina. Na sacada do segundo andar não via nenhum arqueiro. Do prédio da prisão não saía nenhum policial.

Olhou para a esquerda e viu um pequeno grupo de guerreiros terminar de empurrar um lançador para a rua em frente ao prédio, apontando-o reto para aqueles que só agora começavam a entrar pelo portão escancarado. Um soldado puxou a alavanca que liberava as travas de madeira da máquina, fazendo a tira de goma escura esticada lançar uma enorme esfera de corvônia maciça contra os rebeldes.

Não! — Foi o que Caterina conseguiu exclamar ao invés do “Cuidado!” que pretendia dizer.

A pedra passou a palmos dela, fazendo-a tremer de qualquer jeito parada no lugar — cobriu a boca aberta ao ver a bola acertar alguns companheiros em cheio, jogá-los para longe, fazê-los cair no chão em piruetas.

Continuou em silêncio, acompanhando os que vinham atrás dela, todos monitorando o lançador enquanto entravam. Os soldados já recarregavam a arma de longa distância, e percebeu que estava longe demais deles para fazer qualquer coisa, mesmo em Neborum. Olhou para trás e viu que os soldados de preto corriam, prontos para o combate, para cima de uns poucos rebeldes que resolveram ficar para trás, parados numa ridícula linha única.

— CATERINA! — Berrou Fuj, de dentro do prédio, ao lado da porta. — VEM!

Caterina foi, percebendo-se a última atrás dos últimos; passou pelo portão com ele já em movimento e caiu no chão, tropeçando em algo que provavelmente era o próprio tornozelo. Viu a luz da tarde se fechar, com uma meia dúzia de pessoas ajudando a girar uma série de manivelas para trancar a porta reforçada pelo lado de dentro.

— Mas e quem ficou lá fora? — Perguntou Caterina, ofegante.

— Sinto muito. — Disse Fuj, virando-se para ela quando terminou de fechar o portão. — Eles sabiam o que ia acontecer.

Depois...

A enorme sala do exército em que entraram era um galpão que ocupava os dois andares. Não tinha exatamente um segundo pavimento, apenas uma varanda similar à dos arqueiros, mas interna. Servia como estábulo para muitos dos yutsis de guerra que a cidade tinha, com o chão coberto em feno. Cinco ainda estavam ali, isolados em um dos cantos do gigantesco cômodo.

Parte do grupo invasor quebrava as divisórias que marcavam as células minúsculas em que os yutsis cresciam e viviam. Sentada em um ponto aleatório do chão, tendo enrolado sua capa puída pelos ombros descendo pelas costas, Caterina olhava para a cabeça cheia de placas duras e arenosas de um dos animais. Ele devolvia o olhar. A chuva começava a cair em pingos benevolentes — e ela só queria dormir. Sabia que, se fechasse os olhos, conseguiria antes que o próximo pingo de chuva tocasse a terra.

Boa parte dos rebeldes se reunia ao centro do galpão para ouvir o que Fuj tinha a dizer. Instruções: eles não deveriam ficar perto das portas, ou mesmo das paredes. Ele e alguns outros alorfos — e até um filinorfo, que não se manifestou — sabiam lidar com quem quer que chegasse perto das portas, mas ninguém mais deveria tentar aquilo.

— Vocês podem sentir raiva. — Explicava ele, com as mãos abaixadas e um olhar grave. — Dor. Ou podem pensar, com toda a calma, e chegar à ideia de que é melhor matar todo mundo aqui dentro, é isso que esses magos vão fazer com vocês.

Um som destorcido fez levantar as pálpebras pesadas de Caterina. Viu pessoas se movimentarem à sua frente, subindo as escadas finas ao lado do portão, que levavam para a sacada amadeirada e suspensa como uma ponte capenga que dava acesso para as únicas janelas do lugar.

— Invasores do Exército de Prima-u-jir! — Rugiu a voz de Frederico por meio de um minério de som. Caterina levantou-se num salto, olhando para a parede no lugar, lá fora, de onde o som parecia vir. — Vocês causaram dor e sofrimento ao povo dessa cidade. Eu me pergunto se serão negligentes com a dor e o sofrimento de um dos seus.

A alorfa franziu o cenho, a pontada de dor de cabeça voltando, escrachada; percebeu por um momento que o velho homem magro e a alta mulher que conseguiram os lugares nas janelas desviaram o olhar dela de volta para a rua.

Olhou em volta até fazer seu olhar se encontrar com o de Fuj.

— Verônica… — Disse. — Cadê a Verônica, Fuj?

Ele não respondeu, limitando-se a olhar com seriedade para ela.

— Cadê a Verônica? — Repetiu, começando a correr escada acima. — Verônica?

Fuj a seguiu. Ela subiu o lance de escada e apertou-se para olhar pela rua, aqueles que antes ocupavam a vaga deixando-a toda para a alorfa. Na laje de uma pequena casa quadrada em frente à janela do galpão estavam Frederico, Alice, Marco e Tornero; todos, aos olhos de Caterina, paramentados como guerreiros da morte. Ajoelhada entre eles, com as mãos para trás, de coluna reta e olhar fixo para lugar nenhum, Verônica.

Tornero ficou mais atrás, à esquerda dela, com uma mão repousando sobre a outra. Era falsa a tranquilidade obediente. Sentia o olhar fugir ao controle; era quase como se o pescoço da prisioneira fosse branco. Não era, mas era quase acinzentado; um pouco machucado, mas ainda assim longo, claro, tenro. Quase completamente descoberto por causa do cabelo curto.

E bem vivo.

— Vocês se renderão, imediatamente — Recomeçava Frederico. — ou esta ex-parlamentar, que traiu a própria casa do povo de Prima-u-jir ao estimular toda essa balbúrdia, será punida. — Retirou o minério de perto da boca quando terminou, guardando-o no bolso da calça preta por debaixo da aveludada capa azul-escura.

Caterina olhou para Fuj, que já a segurava pelo ombro.

— Fuj… Fuj, A-a Ve…

Olhe em volta, Caterina! — Disse ele, comprimindo as sobrancelhas até Caterina fazer que não com o pescoço, espremendo os olhos até lágrimas começarem a rolar. — Esse não é um jogo seu que você diz quando é hora de parar. Não cabe nem a você nem a mim decidir.

Eu não quero ver ninguém mais morrer

— Ninguém morreu por culpa sua. Nem Verônica.

MAS ELA NÃO MORREUAinda

— Caterina… — Controlou ele, segurando-a no desequilíbrio. — Ela sabia o que ia acontecer.

Tornero pensou em todas as frentes que acompanhou no lugar de Byron nos últimos dias. Viu corpos e mais corpos, e independente do lado do qual saíam a morte não se mostrou tão feia a ponto de assustá-lo. Estando ela naqueles corpos, e não no dele, era capaz de caminhar por lugares cheios de morte, enquanto aqueles que foram por ela afetados eram levados para cremação fora da jir central.

Não sentia-se enjoado, surpreso, nem mesmo tocado. Sua suprema conquista foi também a mais simples: tratava a morte como mais uma parte da vida.

— Quanto tempo eles precisam ter, Frederico? — Perguntou Marco.

O mestre da cidade começou a vagar pelo teto plano da casa, andarilho. Tornero viu a morte também quando ela estava mais quente. Como mago, coordenava ataques de longe, quando identificava com certeza um alvo em meio à verdadeira cidade em que Neborum se transformava. Dava-lhe uma dor lancinante; desconcentrava o mais focado dos rebeldes — o que já era uma raridade no bando de ignorantes indisciplinados que reclamava de qualquer coisa que os alorfos colocassem em suas cabeças — até eles morrerem de raiva e se tornarem imprudentes.

Foi o estopim de muito sangue vertido, golpes em cabeças, cortes que não deixavam ninguém durar muito tempo estirado no chão ao mesmo tempo desarmado e desamado. Dali a instantes também desalmado, sem teto nem porta em Neborum.

Sentia a pulsação forte no pulso direito. O pescoço o chamava. Tinha feito tudo aquilo, mas o sangue parecia gritar — era o calor que fazia circular naquela chuva fina e fria que lhe dava tanto poder?

Recusava-se a vasculhar o castelo, pois sabia que o protegera bem nos últimos tempos. Aquilo era diferente. Não conhecia nenhuma técnica que lhe desse tanta vontade de descobrir se havia mesmo diferença entre matar e guiar até a inexistência pela mão. Era sentimento sem nome. Um que bomin nenhum fabricaria.

— Será que ninguém se importa com você? — Perguntou Frederico, parando em frente à Verônica.

Ela só olhou para ele por tempo o bastante para decidir em que direção cuspir. A quase nula saliva que tinha à boca deitou-se aos pés do mestre da cidade. Nem foi possível ver o estrago; na chuva, o gesto de rebeldia misturou-se à água e desapareceu.

Olhou para baixo, esperando uma reação que não veio. Subiu o queixo quando Frederico saiu de sua frente, e pôde ver de novo olhares amigos pelas janelinhas do galpão.

Virou o pescoço para trás, olhando para Tornero. Raios vermelhos saíam do canto que encontrava as pequenas rugas e quase estilhaçavam a íris. O bomin devolveu o olhar.

— Me mate logo de uma vez.

Tornero respirou fundo o ar úmido, certo de que se embriagava; a próxima coisa que viu foi a mão esquerda apertar com força o ombro tenso da prisioneira, a direita levantando a espada vermelha que a chuva começava ainda a limpar acima do pescoço rasgado, a pequena poça aos seus pés turvando-se em grosso bordô a cada segundo.

NÃO! — Berrou Caterina, caindo nos braços de Fuj.

— Caterina… — Sussurrou ele, apertando sua cabeça contra seu ombro como uma compressa.

Para, paraChega

— Caterina, controle-se… Você é parte da força deles… Você é uma alorfa

— Que coisa mais horrível de ser agora… — Comentou, sem conseguir fechar a boca ao deixava as lágrimas tomarem conta do rosto mais uma vez.

Depois...

Sabia que ele subia, mas só recuperou a pouca liberdade de se mexer, de um lado da cama para o outro que fosse, quando a porta foi destrancada.

Um berro primitivo foi o que libertou primeiro, antes dos braços ou das pernas praguejados com cãibras e dores como machadadas em mármore.

— Se eu libertasse você… — Disse Enrico, olhando-o por cima como todo mago faria um dia com alguém. — Você me ajudaria a encontrar o… A encontrá-lo?

Kerinu adoraria dizer alguma coisa, mas precisava de algum tempo até parar de gemer e conseguir se concentrar nos sons que articulava.

— Eu queria… Queria poder mentir de con… AH… — Trouxe o braço direito para mais perto do tronco. — … De consciência tranquila… Mas o seu filho não tem culpa.

— O que isso quer dizer?

— Eu… Não sei nem onde começar a procurar…

Enrico fez que sim com a cabeça, recolhendo os lábios e andando firme para a porta.

— En… Enrico! — Chamou Kerinu. — Eu não disse que não vou ajudar… Eu só não posso prometer.

O espólico deu meia-volta.

— Se Byron dominasse Tornero e soubesse o que Tornero fez… Ele procuraria o meu filho?

Kerinu pensava, deixando os olhos navegarem, perdidos, pelo lençol azul amarrotado.

— Eu penso que… Que Byron não iria querer os outros magos sabendo que o discípulo dele sequestrou o filho de um mago… Eu acho que ele iria querer consertar isso o mais rápido possível.

Enrico desviou o olhar para baixo, de resto imóvel.

— E Tornero não é confiável. Você faz o que ele manda por medo, mas… Qual é a sua garantia?

— Faz tanto tempo que eu sequer vejo o meu filho, ou ouço a voz dele… — Começou Enrico, exasperado.

— Então quando for a hora certa eu liberto o Byron e você me liberta.

Kerinu se aproximou da borda da cama com a mão no ar, suspensa sem ficar parada. Enrico respirou fundo o bastante para comprimir com ar a pouca emoção que se permitiu; checou duas vezes o quanto estava no controle de Kerinu e chegou mais perto, apertando-lhe a mão sem demorar-se no gesto.

— Não se sente… Sujo fazendo um acordo com um mago?

Kerinu, jogando-se de volta à cama sem que isso aliviasse o rosto torto, negou devagar com a cabeça.

— Eu tenho que me acostumar…

Depois...

Alice lançava um olhar comprimido por sobre os grupos de soldados que ela, Marco e Tornero plantaram ao redor do prédio. Cobriam todas as portas e todos os portões, cercavam todos os lados em todas as direções. O prédio em si foi quase abandonado; uma força significativa ainda guardava os lançadores e as catapultas, e outra transferiria documentos importantes para uma seção só, longe do galpão dos yutsis, na manhã do dia seguinte. Até lá o resto do prédio era dos rebeldes, que não teriam muito o que fazer com ele: não encontrariam sequer muitas armas em bom estado ali. Quando finalmente saíssem, como teria que acontecer, não teriam mais que duas opções: desistir, ou morrer tentando fugir.

Alice olhou para a área do galpão, imaginando ter ouvido algum barulho. Os soldados à frente do portão se levantaram, já prontos para um ataque, e um pouco depois lançaram à porta minérios de luz. A noite já quase tomava conta do cenário por completo, e sob luzes vermelhas e verdes, por algum tempo, a porta pareceu quieta. Um burburinho cada vez mais alto entre os soldados se transformou em mensagens e discussões sobre o estado da porta: estaria na verdade entreaberta, ou pelo menos destrancada.

Depois...

Caterina observava o primeiro dos animais; as divisórias a protegiam do escrutínio dos outros. Tinha nas mãos um longo pedaço de ferro, cujo nome tinha esquecido, com uma bola cheia de pontas afiadas em uma das extremidades. Era uma espécie de maça fina meio alaranjada, com todo aquele peso esquelético tão próprio do ferro, e usado especialmente entre os militares para iniciar a operação com yutsis de guerra.

À primeira vista eles eram exatamente como quaisquer outros da mesma espécie, e foi exatamente aquilo o que ela disse há alguns rosanos, quando visitou o exército junto a Luca numa visita de rotina do Parlamento. Havia muitos mais yutsis no galpão naquele dia — estava difícil de respirar — mas todos eram relativamente calmos e completamente quietos.

“No campo de batalha, você só precisa colocá-los na direção do inimigo e irritar um deles. Só um!”, explicava o guia da inspeção. “Como nós os treinamos com certas… Técnicas… Eles crescem coesos, tomando as dores de qualquer coisa que os outros sintam. Então só um, e você tem todos os outros estourando em cima do inimigo. Você não vai querer um gigante desses aqui correndo na sua direção”.

E eles eram gigantes. Caterina conseguia passar por debaixo deles, entre suas pernas, sem se abaixar. Eram fortes, mais do que os yutsis comuns, mas com uma força oculta, dessas que não se transforma em volume do corpo. Tiravam a força do ódio e da frustração; foram treinados para reagir a qualquer um desses sentimentos, nos quais a raiva e a irritação se transformavam. Eram animais enjaulados, criados à base de dor e para a dor. A única esperança de escapar era a esperança de viver para um dia lutar.

Com eles, Caterina se sentia uma gigante também.

Depois...

Alice começou a andar na direção do galpão, mas não caminhou dois passos antes de parar ao ouvir um guincho profundo, agudo e reverberante. O ruído fino cortou os céus como uma criança tentando engolir um minério de som. Não demorou muito para lembrar que nem todos os yutsis de guerra foram para a guerra.

Sentiu uma onda de calor fazer suar os tornozelos e subir o corpo até ferver os lóbulos das orelhas. Pôs-se a correr na direção do galpão, um guincho a mais fazendo tremer sua nuca; chegou à posição que os soldados, juntos, defendiam-se contra a incógnita que antecipavam na rua em frente ao portão. Os moradores das casas, os que ainda estavam na vizinhança, saíram às janelas ou da porta para fora, abraçados uns aos outros ou aos próprios braços, com sobrancelhas franzidas e tão suspensos quanto o resto da cidade no pequeno silêncio que precedeu o estouro do portão.

Alice recuou para o lado, escorando-se à parede de uma casa enquanto via passar, incrédula, cinco yutsis num galope frenético levando para frente as armas, os membros ou os corpos inteiros, tratados todos como pedaços de pano, dos soldados que ficaram no caminho de suas patas e caudas balançantes. Voltou para o centro da rua para ver a fila silenciosa de animais que, quase do mesmo tamanho das casas de dois andares, correram até o fim da via antes de fazer Alice cobrir os ouvidos e berrar de raiva.

Os yutsis gritaram, uns com sons mais graves ou arrastados que outros, ao mesmo tempo em que se espalharam pelo centro da cidade; davam coices e pontapés, girando no lugar quando não conseguiam avançar, abrindo buracos nas paredes e destruindo janelas a cada golpe.

A cauda arrastava um rasgo de uma parede inteira consigo, riscando-a de um lado a outro como faca sobre papel, de cima a baixo como pincel, fazendo detritos inteiros cair nas calçadas por onde moradores começavam a fugir, deixando suas casas para trás.

Os soldados, sem saber para que lado ir, começaram a se mexer. Alice se recompôs, arfante, e viu Coreno surgir gritando ordens ríspidas para os grupos de guerreiros mais distantes.

— Você! — Disse ele, apontando o dedo para a parlamentar. — Pegue todos lá atrás e convença-os a buscar os yutsis agora!

Depois...

Os rebeldes correram até parar nos portões completamente despedaçados dos galpões. Caterina havia caído, rolando para o lado de fora para se proteger da fúria dos animais quando atingiu o primeiro deles, mas já se levantava a tempo de ver os yutsis ensurdecerem a cidade.

— Caterina! — Falou Fuj, com as mãos na cabeça e olhos que, sentia ele, não eram grandes o bastante para expressar o quanto não conseguia entender o que estava acontecendo. — O que foi que você fez?

A alorfa virou o rosto para ele, com um sorriso travesso por onde saíram baforadas de ar satisfeito. Fez os olhos passearem pelos rostos dos companheiros, e quando se voltou para a cidade viu os soldados assistirem, tão sem ação quanto eles, os yutsis agirem em meio a todas às casas, prédios e árvores já mais longe dali.

— É a nossa chance! — Disse ela.

— Chance de quê, Caterina?! — Disse, na linha de frente dos rebeldes, a mulher que lhe perguntara por que ainda deveriam lutar.

O sorriso desbotava à medida que seus lábios começaram a tremer. Viu os guerreiros começarem a se mexer, saindo do cerco ao prédio para correr atrás dos yutsis.

— A gente queria salvar a cidade dos magos, mas parece que a gente tinha que ter salvo de você! — Disse um alto homem loiro, balançando a cabeça e jogando sua faca a esmo para frente. — ACABOU! Isso tudo foi para NADA!

— Vocês não VEEM? — Caterina abria os braços enquanto eles entravam às pressas no galpão e Fuj vinha, a passos lentos, em sua direção. — A-agora nós… Nós podemos…

— Caterina… — Disse Fuj. — Acabou.

— Mas…

— Acabou, Caterina. E se nós dois ainda quisermos viver… Temos que ir embora agora.