Quando máscaras apodrecem

Manipular terra em Neborum era como pegá-la com os dedos molhados. Tadeu não precisava se mexer, mas acabava fazendo movimentos irregulares — reflexos do que queria fazer com a massa de terra que levitava mais ou menos de acordo com sua vontade.

— Isso, Tadeu… — Comemorava Galvino, pensando alto, olhos fixos na performance do filho. — … Agora… Ataque a porta.

Essa era a parte difícil. Tinha que imprimir velocidade e solidez a um bolo de terra maior que ele próprio. Concentrou-se, esticando a careta na força, de outra forma imperceptível, que fazia: lançou a terra em direção à porta do castelo do pai.

O caminho que a pancada seguiu foi hesitante, mas chegou ao destino, fazendo o trinco tremer com um baque antes de se esfarelar. Virou montinho revirado aos pés da porta depois de uma cascata vagarosa.

— Está melhor que da última vez. — Comentou Galvino. — Mas não é o bastante.

Tocou de leve o ombro de Tadeu em Heelum, convidando-o a voltar para lá, e começou a apagar a lareira.

— A aula já acabou?

— Sim. Hoje tenho uma reunião de última hora… E tenho que trazer amuletos para sua mãe.

— Amuletos são aqueles minérios que curam doenças da noite, não são? — Perguntou Tadeu, preocupado. — Há quantos dias ela está de cama?

— Há apenas alguns, segundo ela, mas… — Disse, voltando-se para o filho em seguida. — Ela disse que já foi a uma casa de saúde. Que não tem as doenças… Isso é só uma precaução minha. Não tem com o quê se preocupar.

— Mas como ela pode pegar as doenças da noite e nós não?

— … Ela pode ter sido atingida por uma versão mais fraca das doenças, ou… Estar mais… — Respirou, como se precisasse entrar naquela conversa sem volta. — Aberta a elas agora.

— C-como assim?

— Não se sabe ao certo, em alguns a doença age rápido…

— Mas por que você acha que ela… — Interrompeu Tadeu, puxando a gola para baixo como se ela apertasse o pescoço. — A mãe está… Fraca p-por alguma razão? Ela tem outra doença?

— Não. — Galvino sentou-se no sofá, olhando para a porta como se ela pudesse lhe dizer as horas. — Não tem outra doença.

— Então por quê?

O pai demorou até decidir ficar e sentar-se no sofá de novo ao invés de usar a desculpa de que já estava tarde.

— Sua mãe, Tadeu… Tem feito uma técnica que todos os magos, de todas as tradições, conseguem fazer e podem um dia dominar: a duplicação. — Tadeu o interrompeu, perguntando o que ela fazia. — … Todos os magos, todas as pessoas, têm um iaumo dentro do próprio castelo. Disso você sabe… Mas se você quiser, pode duplicá-lo. Dividir-se em dois, literalmente, para estar em dois lugares ao mesmo tempo em Neborum.

Tadeu achou que precisaria de todo o ar da sala para aguentar mais aquilo: encheu o pulmão o quanto pôde e tentou não ser muito rude ao expulsá-lo do corpo.

Sentia que as faces de Neborum eram infinitas, desdobrando-se a partir do mistério da magia. Sentia que nunca acabaria de descobrir mais alguma coisa que, tinha certeza em seu íntimo, atormentaria (mais) sua paz algum dia.

— Os magos demoram para alcançar o equilíbrio e a harmonia entre prestar atenção em Neborum e em Heelum ao mesmo tempo, mas aqueles que se duplicam precisam prestar atenção em Heelum e em dois lugares separados em Neborum. Não é simples, Tadeu, e é extremamente cansativo para a mente de um mago. Daqueles que conseguem se duplicar, muitos fazem isso por pouco tempo e apenas quando necessário. Talvez achem útil durante uma luta, por exemplo, ou se dupliquem para manter um iaumo protegendo o próprio castelo enquanto invadem outro.

— Por que a mãe está se duplicando, então?

Galvino olhava tão fundo nos olhos de Tadeu que o filho teve medo de descobrir mais algum segredo sobre eles. Não queria ter algo a mais para pensar naquela noite.

— Talvez sua mãe lhe diga um dia…

— Mas ela está cansada por se duplicar? F-ficou fraca por causa disso e as doenças da noite puderam invadir ela?

— Eu não sei se são doenças da noite.

— Mas é por isso que ela está assim? O-ou não? Foi por se duplicar?

— … Acredito que sim. — Disse, atrasado, depois de já ter balançado a cabeça. — Mas porque sua mãe, Tadeu… Se duplicou mais de uma vez.

Depois...

— Por que será que convocaram essa reunião? — Perguntou Luana; em companhia dos outros, seguia para o Parlamento numa charrete escoltada. — Se eles já chegaram a uma resposta, por que ela exige tanta pressa assim?

— Talvez o Conselho dos Magos tenha algum comunicado que eles queiram repassar. — Disse Gabriel, indiferente.

Quando Joana começou a falar, não interrompeu o olhar que sustentava em direção a André no banco à frente.

— Bem… Com tudo que a gente passou por aqui, agora, já seria uma vitória! E se formos embora esta noite já sabem todos para onde ir, não é?

Os filinorfos assentiram, sincronizados.

— Se formos embora… Eu não saio de mãos sem sangue. — Disse André, quase baixinho demais para ser ouvido por entre rodas e yutsis.

— É claro que não! — Zombou Luana. — Já se certificou disso antes mesmo de chegar, matando aquele mago…

Gabriel e Joana seguiam a conversa como se anciões senis falassem de coisas que já ouviram dezenas de vezes. Mas quando André revelou uma névoa de travessura por detrás do ar sério que envolvia seu corpo parrudo, entregando o segredo culpado diretamente para o que sobrava da percepção zombeteira da colega, todos os corpos se inquietaram dentro da charrete.

— Mas é claro que tu não resistirias… — Dizia Luana, contagiada.

— André, diz para mim que não tentastes com ninguém do parlamento! — Questionou Joana, entortada pelo suspense.

— O lugar está cheio de magos poderosos — Advertiu Gabriel, apressado. — então sugiro que você diga logo o que fez para sabermos se estamos em perigo!

— Não. Com o parlamento não.

— Mas com um parlamentar, não é? — Luana entrou no jogo. — Foi o Galvino?

— Não. — André juntou as duas mãos à frente do rosto, esfregando-as como se esfolasse a paciência dos amigos com a espera. — … Mas com uma ex-parlamentar…

— Eva. — Joana disse enquanto os outros só começavam a pensar na dica. — Foi quando ela fez o acordo?

— Sim.

— O que fizeste?

— Foi a aposta mais bem sucedida de toda minha vida. — Contou ele. — Ela estava fraca, tonta… Eu não podia deixar a chance escapar.

— Ela te viu? — Questionou Luana.

— Não. Não veio receber meu iaumo quando estourei a porta, e eu só encontrei o dela tempos depois de me esconder. Parecia muito sem foco o iaumo dela…

— É por isso que não vimos mais ela pela casa? — Perguntou Gabriel, ainda de testa vincada. — Por isso ela está de cama?

— Aprendi coisas muito interessantes, Gabriel, quando ajudei um médico bomin que se converteu. — Explicou André. — Posso fazer alguém ter total e completa calma quanto a qualquer problema de saúde. Um pensamento de que tudo se resolverá, mesmo quando as coisas pioram.

— Mas isso eu posso fazer… — Comentou o mestre de espadas, comprimindo também o olhar.

— Não é a mesma coisa. Tu podes talvez fazer alguém pensar, por alguma razão, por algum motivo, que está ficando melhor. Mas o senso de perigo, aquele medo mesmo que vem com a peste, e também a falta dele… Isso é coisa que se sente. É instinto.

— E por que não acabastes com ela ainda? — Indagou Luana.

— Porque eu o mataria se ele pusesse em risco a missão. — Explicou Joana, sem risos para não deixar dúvidas sobre a seriedade do que dizia.

— Se é útil fazer alguém parar de se desesperar com alguma dor ou doença… É igualmente útil fazer alguém ter vontade de pôr um fim a um sofrimento. E arrancar cada dedo que a pessoa segura pela beirada do abismo… Para tirar dela a esperança por cada coisa que ela pensa que faça a vida valer a pena.

André não previra o silêncio que se abateu sobre os companheiros. Limpou a garganta, fazendo Gabriel vê-lo constrangido — pelo menos um pouco — pela primeira vez.

— Este é o futuro da Eva? — Perguntou o mestre de armas.

— Se formos embora hoje vai ser futuro próximo.

— Mas e o acordo? — Perguntou Joana. — Tu continuas acreditando que ela tem a lista?

— Sim! — Confirmou André, dando ênfase à certeza com o rosto inteiro. — Com toda a certeza.

— É só matar a menina?

— Sim.

— Mas tu não viu a lista.

— Não. Mas sei que ela não mentiu.

Luana não conseguia segurar o sorriso enquanto alternava a atenção entre os dois.

— Conte, Joana!

Luana! — Censurou a líder.

Conte para ele!

— O que foi? — Disse André, todo ouvidos.

— … Ela está falando da minha conversa com o Tadeu ontem. O garoto tem um segredo que… Talvez te seja útil quando fores lidar com a Eva.

Depois...

Os magos do parlamento sentaram-se depressa, arranjando-se depois de cumprimentos, brincadeiras, visitas a castelos — ou olhadelas breves por detrás de cortinas — e conversas ao mesmo tempo animadas e cansadas. Como crianças a quem é dito que têm uma última chance de tomar lugar na roda para ouvir a história de que tanto gostam, acomodaram-se em seus lugares e esperaram, pacientes, pela ascensão cheia de eco da mestra da cidade ao lugar de destaque de onde falava.

Galvino estava sentado há mais tempo. Trazia aos pés uma bolsa razoavelmente grande, que não parecia vazia. Olhou à distância, contemplativo, para Joana. Ela tentou estudá-lo; saber se ele trairia alguma raiva vingativa, ou traço de desconfiança, mas seu rosto logo se voltou, sem alteração, para outros magos e outros lados. Passou pelo definitivamente mais alegre Barnabás, demorando-se um tempo nele. Terminou com um olhar para frente, parecendo combativa e absolutamente transparente.

— Boa tarde a todos. — Disse a mestra. — Ou boa noite. Diógenes convocou essa reunião em caráter de urgência.

Os filinorfos adotavam a mesma política de seguir a sessão sem gestos de entendimento. Continuariam a fingir que aquilo nada tinha a ver com eles, embora Diógenes fosse o magro mago mais velho que antagonizava com eles desde que chegaram à cidade.

— Não vou fingir que entendo a necessidade dela, considerando que nos reunimos todos os dias de qualquer forma, mas espero que nosso tempo não seja desperdiçado. Concedo a palavra a você, Diógenes.

O mago levantou-se com dificuldade, mas parecia satisfeito ao andar; carregava nas pernas uma ginga feliz, e assim dirigiu-se até o centro do mar de chão à frente da mestra que dividia a câmara.

Tomou o tempo que achava necessário para que todos vissem o quanto sorria. Havia conquistado o topo de uma montanha com apenas metade da força de sua juventude — era assim que queria que todos, só de observá-lo, soubessem que ele se sentia.

Deteve seu olhar em Joana, que não se preocupava mais em dissimular seu desprezo; aproveitou sua posição no alto da sala para olhá-lo de cima para baixo como se pudesse esmagá-lo. Transformou a curvatura da boca fechada em esgar de desafio — “Que venha”, pensava ela. Sabia que os outros a chamavam em Neborum; devem ter vindo lhe dizer o quanto agora tinham certeza de que o teatro acabou.

— Amigos. — Começou Diógenes. — Colegas desta casa… Talvez vocês… Talvez vocês não gostem de saber disso tanto quanto eu não gostei. Sim, este assunto demanda pressa… Urgência. O parlamento no qual muitos de nós… Viveram muitos anos… Ele foi desvirtuado.

Balanços desconfortáveis de equilíbrio e posição varreram a sala.

Em breve Joana sabia que teria que sair e tornar invisíveis os castelos dos companheiros — mas por enquanto ficava de guarda atrás da porta, pronta para se defender.

— Cartas, ainda mais agora, em tempos de guerra… Demoram para ir e vir. — Tirou um papel bem dobrado do bolso da capa felpuda e azulada. — Mas vêm. Elas chegam! — Brindou à carta em direção a mestra mas a deixou com um outro parlamentar, que estava mais ao alcance da mão. — Tive a ousadia de abrir caminho até Renan, o mago que foi preso em Roun-u-joss. E ele disse que nunca ouviu falar de nenhum desses magos que SUJAM nosso parlamento!

À altura do que Diógenes ainda tinha para dizer, ninguém mais conseguia ouvi-lo de tanto barulho — mas o que ele disse foi que teve ousadia, e que se inspirou na bravura de seus antepassados para vir salvar Al-u-ber dos filinorfos que se infiltraram entre eles.

Joana saiu de seu castelo, deixando a porta aberta para Luana entrar. Na corrida até o castelo de André descobriu que em Neborum Diógenes tinha muito mais força e agilidade; ainda distante atacou a filinorfa com uma série de adagas que a fez se contorcer, pular e se jogar no chão para escapar — e no fim tomar novo impulso para correr mais até o destino. Quando a porta se abriu, André deu lugar a ela com a magia negra dos espólicos em punhos, lançando ao inimigo sua vontade de domínio. Ao cair no saguão do companheiro, fechando a porta com o auxílio de um peso de ferro, começou a fazer a técnica que deixaria o lugar invisível.

— VÃO! — Berrou ela, empurrando os amigos para o lado na sala de reuniões.

Correram de seus lugares até a escada. Alguns parlamentares sacaram a espada pelo caminho, a maioria deles lentos demais; os que podiam atacá-los foram contidos por chutes e socos rápidos dos magos em fuga.

— PEGUEM! — Esbravejava Diógenes! — PEGUEM ELES!

Joana passou à frente do grupo, sacando a faca que trazia escondida por debaixo das vestes. Defendeu o previsível golpe do soldado mais próximo da escada, aproveitando o impulso dos degraus para tirar a espada do caminho e cortar o inimigo — quase caiu, mas Luana a ajudou a ficar de pé.

O soldado mais afastado da escada chegou perto, e Joana lançou-lhe a faca. Errou, mas ainda assim André conseguiu passar por detrás dele na confusão de corpos — e enquanto o guarda tentava evitar que Gabriel e Luana também o contornassem, mantendo os dois com as costas sob ameaça dos parlamentares que os cercavam, André quebrou seu pescoço num decisivo.

— NÃO DEIXEM ESCAPAR! — Berrava Diógenes, alucinado, por cima da câmara cada vez mais silenciosa.

Joana olhou para o alto à direita antes de sair da câmara; os parlamentares tinham uma passagem especial do outro lado da entrada, e usavam-na como bichos acuados. Galvino já havia ido embora.

Saíram da sala de reuniões, voltando pelo caminho familiar.

— LUANA! — Gritou Joana. — ANDRÉ!

Observou os iaumos dos magos convocados saírem dos castelos que tornavam invisíveis, suspendendo o efeito por um momento, e correrem contra castelos que podiam ver no horizonte de Neborum. Buscavam controlar os soldados com quem deixaram suas armas, e ao entrarem no saguão onde os encontrariam viram suas armas deitadas no chão adiante. Recolheram-nas e, no breve olhar para trás, reconheceram o perigo que já haviam percebido: alguns parlamentares armados os seguiam.

“RÁPIDO!”, clamou Joana ao seguir em frente, André ligeiro colado a si. Seu castelo estava protegido de novo, pelo menos dos olhares inimigos, mas por não ver os outros dois percebeu tarde demais, já às portas da saída do lugar, que Gabriel e Luana ficaram para trás.

— Eles vão ficar bem. — Comentou André, confiante e com pressa, depois de um puxão suave no braço de Joana.

Gabriel desembainhou a espada no momento certo para se defender de um golpe à direita. Voltou a arma para a esquerda em outra defesa, e num chute rápido na barriga tirou de cena a parlamentar que o atacara primeiro. Avançou sobre o segundo político, apertando sua lâmina contra a dele, e o empurrou de volta para o corredor de onde veio.

Virou-se para a mulher que já se levantava, vendo de esguelha Luana ter certa dificuldade com os dois guerreiros — era só uma questão de ajustar o foco; ele sabia que ela não cairia.

Deixou a espada para baixo, abrindo a parte de cima da guarda de propósito. A parlamentar fez o movimento que ele previra e ele se defendeu rápido, para logo depois agarrar o braço direito dela e forçá-la, devagar, até o chão.

Calma. — Sussurrou ele direto para os olhos aterrorizados da maga enquanto a deixava deitada no chão, sua espada por ele jogada longe com um chute.

Virou-se, defendendo depressa um ataque parecido com o último. Agarrou o pulso esquerdo do ofensor e o torceu para baixo, a espada passando do topo de sua cabeça até uma quietude inofensiva debaixo do braço. O parlamentar gemeu de dor ao cair com um joelho no chão, e quando Gabriel voltou a olhar para o resto da batalha viu Luana rasgar a axila de uma inimiga, que caiu para trás, desistindo da luta com o rosto grudado no chão.

Jogou para o lado seu oponente rendido e aproximou-se da filinorfa, que agora fugia dos avanços de um mago mais velho ao correr pelas bordas do saguão iluminado em azul.

Começou a andar mais rápido, com medo de que não chegasse a tempo; o parlamentar calculou que Luana continuaria recuando, mas ela parou com as pernas em firme base — na luta de forças em proximidade, a forasteira direcionou a arma do inimigo para o chão e desvirou a sua própria para atravessar a barriga do político.

Gabriel correu ainda mais rápido, rosnando sem se dar conta; assim que alcançou a companheira, que sorria ao tirar a espada do inimigo caído, avisou:

Cuidado.

A feição da maga ficou séria quando virou-se de costas para Gabriel; ele fincou, silencioso, sua espada nas costas de Luana, manchando o tronco da filinorfa de sangue enquanto dela vazavam as forças de que precisava para permanecer de pé.

Os políticos que ele havia desarmado se recuperavam. Observavam-no à distância, ao mesmo tempo estarrecidos e orgulhosos.

— Não sou um deles. — Explicou Gabriel. — E lamento que tudo tenha acontecido desse jeito.

Depois...

Fechou as janelas do quarto porque não queria mais deixar o frio entrar, mas tinha a infeliz impressão de que ele vinha de dentro. Talvez o cancelamento da aula por causa da reunião de emergência lhe deu tempo para pensar. Amanda geralmente passava o resto da noite ocupada com as possibilidades que a aula descortinava; às vezes até continuava treinando em Neborum. Descobriu com o pai que era possível continuar acordada lá mesmo enquanto dormia, sendo que o preço a ser pago era certa energia durante o dia, além dos sonhos da noite. Passava a entender mais e mais que uma vida boa, para muitos magos, podia vir associada a muitos preços; prestar atenção aos arredores durante a noite poderia ser, em alguns casos, a diferença entre a vida e a morte.

Eram justamente os preços que tanto entulhavam sua mente. Lembrava-se, como que passando em revista, tudo que viveu com Tadeu desde que começaram a aprender magia. A forma como ela acostumou-se com a vida nova, mas ele não; como ela queria trazê-lo para perto de si, no futuro, assim que fossem magos bons o bastante para aguentar a tempestade que seria a união dos dois — enquanto para ele, pensava ela enquanto sorria, os dois deveriam fugir daquelas responsabilidades, daquelas tradições; viver como andarilhos entre cidades. Talvez num dos grupos nômades de rock modenal, que de vez em quando visitava a cidade com seus shows de música triste.

“É, Tadeu gostaria disso”. Ele sempre foi o mais triste dos dois, pensava ela, enquanto o sorriso amargava.

Sentiu-se sozinha demais no quarto e desceu até a sala. O eco de sua presença continuava incômodo, e ela dizia a si mesma que deveria simplesmente ir para cama dormir. Por outro lado, queria esperar pelo pai, e sabia que não deixaria de pensar em Tadeu — em menos de uma estação o viu mentir para ela; viu o bomin se ressentir, brigar, reclamar. Ela ainda o amava, daquilo tinha certeza. Ele era a peça de sua vida que tomava por garantida, mesmo que clandestina, supostamente frágil; aprendeu desde sempre a pensar naquilo como amor. Se não o fosse, ela não teria mais para onde ir para entender o que era aquele sentimento tão recôndito, tão secreto, tão precioso.

De braços cruzados no sofá, repreendeu-se; refez os passos mentais que sempre fazia em tais questões conceituais, pensando que amava seu pai. Sim; amava também sua mãe, de alguma forma. Era obrigada a amá-los, mas sentia que não o fazia por causa da obrigação que tinha. Sabia que não seria presa e enforcada em praça pública se não amasse o pai — mas talvez enforcasse a si mesma em pensamento. Será que conseguiria se obrigar a pensar em Tadeu como alguém que deveria amar? Que era obrigada a amar?

“Mas por que eu precisaria disso?”, pensou, fazendo cara feia para ninguém além de si mesma: era difícil de confessar, no sussurro dos pensamentos malditos, que embora não imaginasse sua vida sem Tadeu, era cada vez mais difícil planejar um futuro para si que o incluísse. Se pudesse se obrigar a amá-lo — a ver a si mesma como ligada a ele por toda sua vida… Seria mais fácil planejar tal futuro? Quais de seus planos teria que renunciar?

Ele seria capaz de se ver obrigado a amá-la do mesmo jeito? Ele estaria disposto a renunciar também a parte de si que rejeitava a magia?

Deixou sua vigilância de Neborum fraca, perdendo-se nos tempos e nos espaços, ao ponto de se surpreender quando o pai entrou lívido em casa. Levantou-se num pulo, vendo no andar do pai motivos para imaginar que teriam que fugir dali a qualquer momento.

— Filha… Há filinorfos à solta na cidade.

— O quê?! — Reagiu Amanda, sentindo seu iaumo afundar no chão como se a terra firme de Neborum virasse mar.

“E Tadeu?”, perguntou, sem conseguir controlar os reflexos.

Viu Barnabás torcer o rosto, e Neborum tornou-se inabitável.

— O Tadeu?

Amanda abriu a boca, mas não conseguiu pensar em como explicar a pergunta para o pai.

— Como sabe que os filinorfos são os hóspedes de Galvino, filha?

A discípula fez um esforço para estabilizar-se em Neborum, com medo do mestre: dessa vez não tinha dúvidas de que a invasão por parte dele estava a um segundo de acontecer. Ele a forçaria a contar a verdade — e ela não conseguiria resistir.

— Fi…

Barnabás não terminou de conjugar a voz dura; olhou para o lado, imediatamente sacando a espada.

— Suba, filha… Suba agora.

Amanda correu por detrás dele rumo às escadas, sem questionar, mas tropeçou quando uma das janelas da sala foi estilhaçada. Arranjou-se como pôde, e enquanto engatinhava pelos primeiros degraus certificava-se de que seu castelo estava intocado; fazia esforço renovado para não deixar mais suas emoções atrapalharem seu foco.

Viu um homem alto e forte, de pele escura e suada, invadir sua casa pela janela quebrada. Ele era lento, deliberado: parecia completamente seguro de que o que quer que tenha vindo fazer, faria. De que ninguém poderia detê-lo.

— Olá, Barnabás. — Disse ele, com um sorriso juvenil, logo antes de fitar a jovem maga atrás do corrimão da escada.

— Filinorfo maldito. — Chamou o mestre preculgo, montando guarda no meio da sala enquanto André começava o desvio pelo lado do sofá. — O que faz aqui?

Apontou para Amanda.

— Eu vim atrás dela, na verdade.

Barnabás franziu o cenho, transformando a estranheza da situação em combustível para a serenidade.

— … Por quê?

André não pôde mais avançar sem colocar-se ao alcance do adversário.

— Eva tem a lista que queremos. — Explicou ele, ajeitando as mãos na posição mais confortável do punho da espada. — E ela quer, em troca, que a garota morra.

Depois...

Quando a mão lançou-se à maçaneta, seu olhar da torre mais alta advertiu para contornos conhecidos no horizonte de Neborum — e um deles Galvino não desejava ver. A filinorfa vencera a corrida.

Quase toda a luz tinha sido roubada. Só os minérios vermelhos das cadeiras prateadas, a alguns passos de distância, iluminavam o lugar. Era a luz fraca deles que a espada de Joana refletia.

Brandiu a própria espada para o alto, sem a menor intenção de usá-la como arma primária.

— Vou expulsá-los daqui como vermes. — Percebeu que os outros não estavam ali. — E quando digo daqui — Deu passos calmos até a base das escadarias. — quero dizer Heelum.

— Hoje a noite é mesmo de acabar com vermes. — Respondeu ela, seu rosto coberto pela escuridão da casa.

— Onde estão Eva e Tadeu?

— Aqui. — Disse ela, simples.

— Se eu descobrir que você fez alguma coisa com eles…

— Não, Galvino. Somos só eu e tu. Ou quase.

O arrepio na espinha apressou os planos e cálculos; o castelo do filho se aproximava, lento — e estava, sem sombra de dúvida, perto demais de Joana.

Depois...

Suas portas se abriram tão rápido que teve a impressão de estar sendo invadida por um bomin — mas era o pai, de rosto vermelho como carne crua, quem apertava seu iaumo contra a parede depois do cuidado de trancar a porta pelo lado de dentro depois da invasão.

— POR QUE EVA QUER QUE VOCÊ MORRA? — Esbravejou Barnabás, que pedia para André, em Heelum, um momento de calmaria com as sobrancelhas vergadas para baixo.

Amanda respirou pesado — o tempo não fazia mais mais sentido algum.

FILHA!

— Não creio que eu tenha tempo. — Respondeu André.

“Pai…”, começou ela.

Deslizou para trás pelo degrau até bater com as costas na parede.

— Você está sendo enganado! — Disse Barnabás, dando um passo para trás depois do avanço leve do inimigo.

— Eu… E-e T-Tadeu…

Barnabás observou-a em terror por dois, três, cinco segundos que não deixavam passar o momento em que, em Heelum, ele avançava na conversa com o filinorfo.

— A Eva não possui a lista — Elaborou ele. — e quer que você mate minha filha porque não quer que o filho dela se relacione com ela!

André parou, sua lâmina mais ameaçadora que nunca; os traços frios do rosto não contavam a história de alguém disposto a interromper a investida, mas Barnabás sabia que tinha causado algum impacto nele.

— Então… — Entortou o pescoço, buscando Amanda com o olhar mais esguio por detrás do corpo consideravelmente menor de Barnabás. — Tu és a jovem preculga que ele ama tão apaixonadamente…

Depois...

Joana não foi muito além do território à frente das próprias portas; com mãos de candelabro subindo aos céus, fez a terra tremer. Galvino, que fez uma tempestade inteira soprar a seu favor, ainda não se importava.

Blocos de terra levantaram-se do chão para formar um pequeno labirinto entre o bomin e a filinorfa. Galvino chocou-se contra uma das paredes, e aproveitou para começar a subir as escadas de casa correndo. Viu de relance a inimiga à frente do filho empunhar a espada, e antes de pisar no corredor do segundo andar já fazia os ventos pressionarem a água de uma chuva intensa contra a terra do labirinto.

Não quis evitá-lo por cima, pois era provavelmente o que ela queria — mas a água tampouco desmanchava a armadilha como ele gostaria. Pensou no castelo solitário do filho, mas achou melhor se concentrar na filinorfa.

Joana avançou contra ele com golpes rápidos, seguros, amplos; nenhum dos dois enxergava direito, então não se arriscariam a chegar muito perto. Como cegos lutavam, guiados pelos menores sinais, de brilhos a sons e sensações, escolhendo com critério o que fazer em Neborum para não se deixar levar e esquecer que defendiam ainda seus corpos.

Galvino interrompeu a chuva e, fortalecendo os ventos, abaixou-se para levantar a terra inteira do chão — estava na hora de jogar o labirinto para cima do castelo dela.

TADEU! — Chamou ele, depois de bloquear um golpe e recuar um tanto mais. — ESTÁ CONTROLADO?

Ergueu o labirinto um pouco acima do resto do solo e sacudiu-o para frente como tapete. Usou os ventos para se equilibrar e para empurrar ainda mais os detritos para frente, mas eles sumiram — e da nuvem de poeira marrom e verde que pairou no ar surgiu uma corrente de fogo à frente do iaumo de Joana.

— Não! — Respondeu de volta Tadeu.

Galvino preferiu fortalecer sua guarda, interrompendo o ataque. Em Neborum usou o ar em torno de si para cortar o fogo à frente, e contra-atacou com um jato d’água de grande pressão.

Joana contornou o jato, rolando rápida pelo gramado, e chegou perigosamente perto de Galvino com uma estaca de vidro que conjurou no último momento. O bomin esquivou-se da arma, quebrando-a com uma pedrada certeira vinda do chão, e lançou-lhe mais fogo.

Teve que se defender com mais ardor — Joana apressava o ritmo em Heelum, e se expunha; Galvino continha-se para parecer cansado e induzi-la ao erro. Tornou-se veloz de supetão, travando a espada da adversária num momento decisivo e partindo para um ataque de baixo para cima.

Fez o vento da área dissipar rápido a fumaça e viu que atingiu Joana — mas ela rolou pelo chão recobrindo-se de terra para apagar as chamas e já corria para longe. Galvino seguiu seu zigue-zague, tentando apertar seu caminho com um vento ainda mais potente. Queria pegá-la num tropeço. Traído pela pouca luz, o golpe de espada que julgou inteligente foi revertido: defendido, foi de alguma forma transformado num contra-ataque cheio de alavanca que Joana terminou ao chutar sua mão, quase fazendo a espada cair. Galvino perdeu terreno, chegando ao início da escada, mas não viu Joana avançar e deu mais passos à frente para recuperar a posição.

TADEU! — Ralhou de novo, sem ter tido tempo para pensar no que o filho havia dito.

Depois...

Inspecionou os quartos; os lavatórios, as praças. Cada baú do qual não tinha memória, cada guarda-roupa suficientemente grande — e o fez sem perder de vista Barnabás.

“Se eu fosse você…”, ouvia ele em Heelum. Barnabás tentava convencê-lo de que Eva estava ali, em seu castelo; que ela o controlava de algum modo. Provavelmente ela estava fazendo com que ele confiasse cegamente nela, a ponto de acreditar que ela realmente tinha uma lista de magos de Roun-u-joss.

Nunca aprendeu qualquer técnica de confiança com o ex-bomin médico, então não fazia ideia de onde procurar. Pôs um iaumo duplicado de frente para a porta, atento, enquanto procurava com o outro algo suspeito nas dependências do castelo, concatenando os argumentos do preculgo.

Deparou-se com uma porta fechada. Com o mesmo estilo castanho e decorado que as outras, carregava na fechadura uma chave de boa aparência. Não se lembrava da porta, ou dos pequenos cômodos a que ela dava acesso. Era a última parte do castelo a averiguar.

Entrou na sala, que era na verdade antessala. Sentiu um vento enregelante invadir-lhe as vestes leves, de um verde pálido que não sabia como havia escolhido. Era corrente contínua; vento circulante no espaço pequeno, sem janelas abertas, sem móveis, sem nada: a única função daquela sala era servir, aparentemente, de mirante para as portas duplas que isolavam o último canto inexplorado do castelo.

Vento. Eva — já declarava que era ela a culpada — bloqueou a área com uma corrente de ar que precisava continuamente controlar. Assim que deu um passo para a frente, escapando à zona de controle do vento artificial, descobriu o porquê.

O cheiro era delicioso. De fundo conseguia entender que se tratava de pão, mas ao mesmo tempo toda sorte de acompanhamentos, temperos e sopas podiam ser ali adivinhadas.

Abriu as portas da cozinha com voracidade; viu a figura esquálida e descascada de Eva por cima de uma panela em fogo brando. Cozinhava quase que com suas lágrimas, torta como se prostrava por cima do futuro guisado. Em cima da mesa, um banquete bem servido à luz de velas para ninguém em especial; no balcão claro abaixo dos armários de dispensa, desenhos e retratos de Gabriel, Joana e Luana.

Depois...

Despertou da espera como quem fecha os olhos e dorme ao estar com muito sono. Sorriu ao olhar em volta.

Sentia-se um tolo por um momento. Permitiu que seu julgamento fosse controlado pela maga — talvez tenha subestimado Eva, admitia, mas por outro lado não o fez sem motivo. Ele havia, afinal de contas, deixado um iaumo duplicado seu por todo aquele tempo ali, dentro do castelo da maga, sem nenhum esforço para se ocultar além dos mais básicos.

Decidiu que Eva certamente não tinha sob seu poder lista alguma. E que, com ou sem lista, a missão já estava perdida de qualquer forma: não perdoaria Eva por fazê-lo de tolo. Não sairia de Al-u-ber com as mãos sem sangue de mago.

Depois...

Joana criou um curto corredor abaixo do nível do solo, jogando a terra para cima e para os lados; por ali podia correr sem ser manuseada pelos ventos de Galvino. O bomin reuniu-os todos e tentou bloqueá-la, pondo-os contra a filinorfa, mas chegou atrasado. Ela já havia alterado a estratégia, voltado ao campo nivelado e, tendo corrido num círculo por Neborum, estava a uma curta reta do castelo do inimigo.

Galvino voltou para lá, impulsionando-se para o saguão principal enquanto escapava a uma estocada em Heelum. Tentou pressionar a espada de Joana contra o parapeito do segundo andar, mas percebeu tarde demais que a tática era absurda, e no fim teve que desviar uma outra investida — no processo de defender-se do contra-ataque vertical que veio logo em seguida desmontou-se no chão.

Forçou os ventos a aguentar a porta por um tempo, levando Joana a acreditar que ele não queria que ela o invadisse. Enquanto tentava evitar que a inimiga se aproveitasse da fraqueza de um corpo que se ergue do chão, cancelou a força dos ventos e a filinorfa entrou em seu saguão com uma pressão com a qual não contava.

Tadeu via da janela a habilidade que Joana tinha para manipular a terra. As lágrimas não atrapalhavam sua visão de Neborum, o que ele achava estranho; talvez até a tornasse melhor. Olhava para o castelo do pai sem conseguir sentir que deveria lutar do lado dele. Tentava pensar numa única razão para desistir daquela loucura (exceto o fato de que era uma loucura), mas todas elas envolviam um futuro com Amanda. Um futuro que, ele agora enxergava, jamais chegaria.

No fundo, algo dentro de si — como um segundo iaumo que ele sabia não ser capaz de produzir — tentava lhe dizer o quanto seus pais o amavam e o quanto ele devia a eles. Mas a voz não era particularmente persuasiva.

Soluçou de surpresa ao ver que Joana recuou, vividamente abalada; identificou o som de um sorriso satisfeito do outro lado do corredor, e por um momento foi como ver o nascer-do-sol depois de uma noite de tormenta.

Seu pai venceria a batalha, pensou. Joana morreria, levando para as cinzas seus segredos; ele jamais sairia dali, de sua casa, de Al-u-ber, de perto dos pais ou de perto de Amanda.

Jamais ficaria contra eles; contra os pais, contra os magos de Heelum, contra a própria magia. Era uma batalha impossível de vencer de qualquer jeito — no que ele estava pensando? Como pôde

Não era hora de pensar naquilo. Deixou os dentes respirarem num riso libertador que não fez barulho; poderia dizer aos pais que foi de fato dominado, e que portanto nada daquilo era culpa sua.

Num piscar de olhos viu-se de novo na escuridão de sua casa, diante dos barulhos desconexos no corredor do segundo andar.

Virou-se para trás em Neborum e viu o iaumo de sua mãe: magra, pálida e de rosto molhado. Ela pedia perdão.

Tadeu não sabia que podia sentir aquela força de remorso estando em Neborum. Era exatamente como ter um corpo: cada arrepio fora de lugar fazia o coração doer.

O iaumo de Eva sumiu tão rápido quanto pareceu aparecer. E ele, de lábios fechados, sentiu profundo nojo de si mesmo.

Depois...

— Está bem! — Disse André, interrompendo mais uma das frases que Barnabás empregava para comprar tempo. — … Tu me convenceste.

Com as palmas das mãos abertas para baixo, Amanda equilibrava-se em Neborum. Olhou para os lados, satisfeita: não importava que o pai tivesse aprendido sobre ela e Tadeu. Não importava que havia um filinorfo na sala. Ela tinha que lutar ao lado do pai e só faria isso se estivesse centrada.

— Agora — Continuou André. — quero passagem livre por esta casa… Existe alguma saída nos fundos?

Barnabás baixou a espada, concordando com um aceno da cabeça.

— Leve-me até lá e a tua filha não vai sofrer.

Amanda analisou o castelo do filinorfo, mas não conseguiu reconhecer dois castelos razoavelmente familiares que se aproximavam por um dos lados.

Batidas violentas na porta chamaram sua atenção para Heelum, mas logo voltou para Neborum; segura de si, ficou contente que seu mundo não se abalou quando ficou assustada.

— BARNABÁS! — Berrou um homem do outro lado. — ABRA A PORTA!

Depois...

Tadeu nunca ouvira o som seco da demolição, fosse em Heelum, fosse em Neborum. Mesmo assim, sabia do que se tratava assim que o barulho se espalhou num eco durável.

“Eva”, murmurou Galvino ao olhar para a parede do corredor.

Joana lançou-se com ímpeto contra o bomin; com um corte bem sucedido arrancou a espada de Galvino de sua mão; fez seu corpo encolher no gemido cheio de medo e, com um chute bem fundamentado, fez com que rolasse pelas escadas até o andar de baixo.

Tadeu esticou o pescoço para fora do parapeito, tremendo dos pés aos dedos das mãos com a imagem do pai estirado no chão.

PAI!

Olhou para o lado e viu o rosto de Joana, banhado no vermelho dos minérios da sala, seguir com repuxado interesse os movimentos residuais de Galvino.

Tadeu desceu as escadas de dois em dois degraus. Joana o seguiu, e ambos passaram a observar o corpo quebrado do mago. Ela não reagiu quando a porta foi aberta; Gabriel entrou na casa, parando na metade do processo de deixar de vez a rua quando fixou os olhos em Galvino.

— O que houve aqui? — Perguntou ele.

— O que está para acontecer é mais importante. — Redarguiu Joana. — Tadeu vai enfrentar o passado hoje… E decidir o futuro dele.

Depois...

Barnabás permitiu-se sorrir assim que ouviu as vozes familiares do lado de fora.

Girou o pescoço de lado, assumindo de novo uma posição defensiva no final de sua sala de estar.

— Você não vai sair daqui vivo.

A alegria ofegante de Amanda apagou-se como vela sob o vento.

Pai! — Guinchou ela, olhando em desespero para a porta trancada da sala. — DEIXA ELE IR, pai!

— FIQUE FORA DISSO, FILHA! — Disse ele, sem tirar os olhos de André. — SUBA!

Amanda se levantou para ir abrir a porta, mas o ataque de André foi intenso demais para ignorar; como um yutsi consciente de sua força o filinorfo avançou por sobre Barnabás, que defendia-se defletindo para os flancos como podia os golpes cheios de urgência do inimigo.

— VAMOS ENTRAR! — Anunciava o parlamentar do lado de fora.

Barnabás lançou um arpão contra o filinorfo em rápida aproximação do lado de fora dos castelos, mas André fortaleceu os antebraços com a força espólica e defendeu o projétil sem ter a velocidade muito afetada.

PAAAI! — Chorou a discípula, pondo as mãos nos ouvidos enquanto deixava para trás a visão de seu pai absorvendo os impactos cada vez mais duros do invasor.

Viu um castelo repetir com rapidez uma mesma trilha — tentava arrombar a porta com o ombro, deduziu; o outro, que vira antes, já estava mais distante, contornando a batalha pela direita. Amanda saiu de seu castelo, formulando sua espada longa, e correu em direção aos quase-vultos que lutavam no breve descampado entre os dois castelos.

Viu o pai gerar e fazer desaparecer três escudos em posições e braços alternados numa sequência inacreditavelmente rápida — precisou bloquear com eficiência os chutes e socos de André, que logo em seguida recuou para escapar à lança que surgiu na mão de Barnabás.

Enquanto a parlamentar que viera ajudá-los descobria a janela quebrada por André, o filinorfo usou a espada como ferramenta para trocar de posição com Barnabás, jogando-o de costas no chão da sala. O preculgo aproveitou a distância que André tinha assumido em Neborum e, transformando a lança num arco, atirou; Amanda criou coragem para entrar na luta, assumindo que no momento que André desviasse da flecha ela poderia atacá-lo.

O filinorfo esticou o braço, estendendo-o para além do imaginável; encontrou a flecha no meio do caminho com a mesma velocidade, mas continuou, em sentido contrário, sem tocá-la.

Amanda nunca havia visto aquilo; acelerou a corrida, querendo acertá-lo enquanto ele estivesse ainda no meio da estranha técnica.

Quando a flecha estava prestes a atingir o ombro esquerdo do filinorfo, sua mão tocou o peito de Barnabás e os dois imediatamente tiverem suas posições trocadas em Neborum. Amanda não conseguiu interromper o golpe a tempo; cortou a barriga do iaumo flechado de seu pai.

Voltou para Heelum, agarrando-se ao chão; à frente viu o pai, apoiado sobre um cotovelo no chão, tentar estocar o inimigo que se agigantava sobre ele.

André cruzou a espada no ar uma vez para tirar da frente a ameaça pífia do preculgo; cruzou a segunda para cortar-lhe a garganta antes de ter o próprio peito atravessado pela parlamentar que entrara pela janela.

Amanda viu o sangue jorrar dos músculos expostos do corpo com olhos de peixe que ela chamava de pai.

Emitiu sons que não saberia jamais repetir; gemidos que vieram do ar que armazenava involuntariamente, sem ser capaz de fazer outra coisa. Levou as mãos à cabeça. Cerrou os olhos.

Depois...

Tadeu nunca havia encostado na espada de Joana. Era grande e mais pesada do que ele imaginava, mas mesmo assim era algo que conseguia gerenciar.

— Mate-o, Tadeu.

Galvino podia girar os pulsos, os olhos, a boca; talvez o pescoço. Seu ombro se remexia, tremor regular que parecia involuntário. Tadeu não fazia ideia de como diagnosticar aquilo, mas imaginou que a queda havia tirado algum osso do lugar.

— Não tenhas medo agora. Não há mais volta para ti.

Não percebia que a boca ainda estava aberta até voltar seu olhar para o de Joana.

— Teu pai não tem reparo. E mesmo se tiver, nesta cidade tua vida não tem mais reparo. — Abriu os braços como uma mãe receptiva. — És um de nós agora, Tadeu.

— N-não consigo… — Balbuciou.

Chegaste para mim — Joana apertou o tom. — dizendo que odiavas a magia e querias ser diferente. Queres um mundo sem magia? Ele começa aqui, Tadeu! — Pegou a mão de Tadeu que não segurava o punho da espada. — Eu sei que é difícil! Sei que é pedir demais de ti, mas num mundo sem magia não há espaço para magos!

Tadeu tornou a olhar para Galvino, que não se dignou a olhá-lo de volta. O rosto encharcado, virado de lado, só se preocupava em manter guardados impropérios e gritos que, se permitidos, pintariam um quadro preciso de sua situação.

— Chegaste para mim, Tadeu — Repetiu a filinorfa. — dizendo que não querias nada disso. Que querias fugir de tudo!

Para

— Deixa o teu passado para trás AGORA, Tadeu!

— Chega…

Joana apertou mais firme o pulso do discípulo.

LIBERTA-TE!

Tadeu percebeu que Gabriel chegou mais perto. De tudo que sentia naquele momento, não estava com a menor vontade de sentir qualquer coisa em Neborum — mas sabia que alguém estava em seu castelo.

Não queria lutar. Não queria mais resistir.

— Joana. — Chamou Gabriel. — Ele não vai conseguir. Deixe que seja um apoiador… Como tantos outros que nos ajudam mas não lutam. É digno também.

Apoiador? — Questionou Joana. — Ele é filho de um parlamentar, Gabriel, não daria certo e ainda seria arriscado para nós. E ele não quer continuar com a vida dele. Veja, ele se debruçava em lágrimas falando o quanto queria que isso tudo acabasse.

“É ela que me fez ter vontade disso?”, indagava-se ele. “Eu quis que tudo acabasse, mas não assim… E ela lutou com fogo… Com terra… Sabe fazer o que um bomin faz… “

— Se você não fizer o que é certo, Tadeu — Interpôs-se Gabriel. — Eu farei.

Largou a espada. O barulho metálico repercutiu pela casa, e Gabriel não demorou para sacar a sua própria.

— Está tudo bem, Tadeu. — Disse Joana, ainda segurando a mão do rapaz. — Nós vamos…

Teve a fala interrompida por um soluço de dor. Tadeu virou-se depressa de lado; arregalou os olhos marejados para os contornos avermelhados da espada de Gabriel, que perfurou o peito da filinorfa.

O mago arrancou a lâmina com a mesma rapidez com que penetrou a inimiga repentina, guardando-a de volta sem qualquer cuidado enquanto o corpo da maga caía no chão, os dedos ainda quentes se desprendendo com facilidade do aperto solto de Tadeu.

— Eu não sou filinorfo. — Explicou Gabriel, agachando-se ao lado de Galvino. — Nunca fui. Ajude-me…

Tadeu não foi capaz de se mover. Gabriel fazia o possível para colocar os braços do bomin mais velho em volta de seus ombros, incentivando-o a agarrá-los para poder se levantar. Só o que conseguia eram muxoxos de dor reprimida.

— AJUDE-ME, CRIANÇA! — Berrou Gabriel.

Tadeu notou a bolsa arroxeada jogada no chão próximo à porta.

— M-minha mãe… — Disse, enxugando as lágrimas e começando a se abaixar ao lado do pai. — Precisa das…

— Primeiro o seu pai. — Interrompeu Gabriel.

— Mas…

SEU PAI, Tadeu! — Ordenou o mestre de armas, impaciente. — Seu pai.