Luz

— As notícias são boas, não são?

— … Sim… — Suspirou Maya.

Anke e a outra preculga podiam se ouvir, mas não se olhar; suas portas, cruzadas no mesmo corredor do prédio do Conselho, tornaram-se barreiras para seus corpos por determinação de Desmodes. Mas, se os magos não podiam sair dos quartos, podiam pelo menos ocupar os limiares, com as portas abertas e as mãos nos batentes.

Viam-se obrigados a usar o silêncio como mensageiro. Convertiam cada inflexão, cada espaço de tempo entre uma fala e outra, em adivinhação sobre o que o interlocutor estaria pensando, para onde e como estaria olhando, que gesto estaria fazendo.

Maya ouviu o ruído de unha coçando pele e imaginou Anke com a mão perto do queixo.

— Mesmo se contra Roun-u-joss o plano não funcionar como Desmodes imagina… Temos soldados em outros lugares. É certo que nós vamos ganhar.

— Sim… Mas o uso de esferas de bronze do jeito como elas foram usadas é execrável.

— Entendo que talvez não precisássemos usá-las… Talvez concorde. Mas onde estaríamos agora se não fossem por elas?

— A pergunta não é essa, Anke… A pergunta é onde estaríamos se não fosse por Desmodes.

Silêncio.

— Você quis dizer que estaríamos… Piores sem ele, suponho? Maya… — Prosseguiu Anke, num tom mais baixo. — Ele fez você dizer isso?

Mãos à garganta.

— Maya?

— Não… Não. Eu quis dizer… Que não teríamos tantos problemas sem ele.

Não sabia para que lado pendia a inevitável expressão nos traços de Anke.

— … Bem… Por outro lado… Depois que tudo isso acabar seremos praticamente os donos de Heelum… Pelo menos é o que ele quer que acreditemos.

— Não é o que vai acontecer. Al-u-een e Roun-u-joss não vão perdoar nada com facilidade, Anke, ainda menos batalhas vencidas com esferas de bronze. Ia-u-jambu, ou mesmo Inasi-u-een… Não vão ser fáceis de dominar. Não a longo prazo.

Esperava com ansiedade pela resposta. Não sabia ao certo por quê: poucas coisas realmente podiam alterar sua realidade naquele lugar, e aquele comentário quanto a uma questão estratégica sobre a qual nenhuma das duas teria influência alguma certamente não faria nenhuma diferença.

— Creio que nós, preculgos, seremos mais necessários que nunca…

Depois...

Quando Kan viu pela primeira vez “O Nascimento”, a estátua da praça em frente ao parlamento de Al-u-een, tudo lhe parecia tão vivo que a surpresa não seria tanta, aos seus olhos infantis, se todos começassem a se mover, do jeito mesmo que estavam, incompletos como eram.

Soltou a respiração presa por um momento — via enfim sua imaginação interpretada como num teatro. Os magos moveram-se todos ao mesmo tempo, nas mais variadas direções, fazendo os mais distintos gestos; uns se abaixaram na cadeira, rangendo os dentes (talvez a dominação de Desmodes mascarasse alguma dor nas pernas) enquanto outros descobriam o que significava ter controle dos braços de novo.

— Você ainda nos controla! — Vociferou Elton, com um olhar lacrimejado para o mago-rei.

Foi ignorado. Desmodes olhava para o centro da mesa, indiferente a tudo o mais. Ao receber a notícia de que as tropas do Conselho agora controlavam Roun-u-joss, ele anunciara a liberdade, ao menos física, dos parlamentares.

— Você realmente não tem medo de fazer o que acha que precisa ser feito, Desmodes. — Disse Duglas, que apertava um pulso com a outra mão.

Desmodes levantou-se, escrutinando cada mago na mesa.

— Como prova do ápice do poder dos magos — Disse ele. — amanhã Roun não nascerá.

— Cuidado, Desmodes… — Alertou Cássio. — Não houve governor que não morresse logo depois de seu ápice

— Não se trata do meu ápice. — Disse o mago-rei, fitando o bomin. — É o apogeu de todos os magos merecedores.

— Com você na ponta, é claro.

— Governores não são ruins. — Disse Janar, com olhares semicerrados em desdém, chamando a atenção daqueles que seguiam a conversa para suas grossas sobrancelhas negras. — Se pudessem, vocês não fariam os outros ao molde da perfeição? Não eliminariam todos os vícios, todos os males da falta de disciplina, de ordem, de respeito? Pois eu acho bom. Não me incomodo muito de ter sido dominado, Desmodes, se foi necessário. — Cássio tentou interrompê-lo, sem sucesso, e ouviu o resto do discurso com um virar estafado de olhos. — Aplaudo sua coragem e me rendo diante de seu poder. O poder que vai unificar Heelum… Já unificou, na verdade, finalmente… Sob o comando verdadeiro dos magos.

— A que preço, Janar? — Perguntou Maya.

O espólico de Imiorina deu de ombros.

— Paguei o meu e pagaria de novo. Ou está falando de quem vai pagar mais que nós? Você é uma alorfa agora, Maya?

Kan engoliu em seco. A imagem de Hiram lhe veio à cabeça, iluminada em vermelho como no dia em que travaram a falsa discussão para convencer Lenzo a participar do assassinato de Hourin.

— Há aqueles que nascem para o trabalho. — Interrompeu Desmodes. — Outros, para o comando. E para que tudo funcione como deveria, todos têm um preço a pagar.

— Qual foi o seu, mago-rei? — Perguntou Cássio, terminando a frase com a boca desenhada com o traço da amargura.

Kan observou as costas imóveis de Desmodes. Se não podia esperar sequer um “obrigado” para Janar…

— Com uma vida inteira de ação em prol dos magos.

Depois...

Kan poderia dormir se quisesse. Talvez fosse o único no Conselho sem motivos para passar a noite na expectativa, mas preferia se manter acordado. Queria testemunhar, por algum motivo, a manhã sem sol que não deixaria dúvidas quanto à conquista completa de Desmodes. Se Heelum fosse sua, se ele estivesse realmente no topo de seu poder — e seria difícil pensar que havia mais a conquistar do que o mundo todo — Heelum teria um dia inteiro de pura noite.

Não tinha dificuldades de esperar o amanhecer; sequer pestanejava. Não foi para continuar de pé que saiu em direção à sala de reuniões. Os minérios foram retirados das paredes, e alguns feixes de luz de estrelas mais fortes tomavam conta de uma janela ou outra. Retraído na escuridão, somente os ponteiros e os números do grande relógio eram vistos refletindo um tom pálido de verde.

— Posso entrar?

Desmodes estava coberto da aura púrpura de um dos feixes, mas ainda assim não mais que uma silhueta imóvel podia ser vista no canto em que ficava a poltrona do mago-rei.

Respondeu que não, mas Kan ignorou a ordem. Puxou uma cadeira e sentou-se, entrelaçando as mãos em cima da mesa.

— Fui capturado como filinorfo… Mas já estou há dias aqui como seu assistente. Sou o único a não ser controlado quando todos os membros desse Conselho foram… Eu não sei o que vai acontecer comigo quando você for governor essa noite e… Eu quero saber.

Kan viu algo de estranhamente casual, talvez até flexível, na forma como Desmodes virou o pescoço.

— Eu também.

— Você vai me matar? Me libertar?

— Saia daqui.

— Então me invada para me tirar daqui ou me diga o que quer de mim!

— Não teste mi…

— Já ESTOU testando! Não ESTOU?

Suas mãos tremiam, abertas no ar. Não percebeu como gritou alto, como ficou ofegante, ou quanto tempo do mais absoluto silêncio se passou até resolver descansar as mãos.

— Com quem você conversa? Ou está louco ou é um mistério. — Esperou por intervenção que não veio. — É com um mistério que você conversa? Um mistério que não quer se revelar para mim?

— Sim.

Kan não achou que fosse ser tão fácil seguir a conversa.

— É o mistério de Enr-u-jir?

— … Não.

— Hm… Seria difícil… Como é o nome daquele que vive com os al-u-bu-u-na?

Desmodes virou o pescoço para frente de novo.

— Virgílio.

— Não… Não pode ser, o nome era outro.

Hoje — Enfatizou Desmodes. — É Virgílio.

Kan fez que sim com a cabeça.

— Claro… Tem um nome a cada dia. Mas o de verdade é Lato-u-nau, não é?

Antes de acabar a pergunta, a mesa tremeu como se alguém do outro lado tentasse derrubá-la. Desmodes permaneceu sentado enquanto Kan levantou-se de susto, encostando-se à parede depois de passos balbuciantes para trás.

— O que ele quer?

— Que eu o mate.

Kan tirou a espada curta que trouxera à cintura.

Guarde a espada. — Ordenou Desmodes.

— Ele está aqui? Perto de mim?

Kan flexionava os joelhos, tentando-se preparar para o que não podia enxergar direito nem mesmo se Lato-u-nau se mostrasse para ele.

— GUARDE!

Não!

Sentiu uma inquietação que soube identificar tarde demais. Viu a si mesmo guardando a espada e correndo para a outra ponta da mesa, onde puxou uma das poltronas nas laterais para se sentar na posição exatamente oposta à do mago-rei.

— Por que resolveu me dominar agora? — Questionou Kan.

— Desde que chegou aqui ele quer vê-lo morto. Ou, no mínimo, dominado.

EU?! EU NUNCA sequer… VI ele!

— Mas ele conhece você.

— Mas por… Por quê?

— Não me interessa. De qualquer forma, não pretendo matá-lo. Ele quer que eu faça isso.

Kan deixou as mãos caírem no colo, com um suspiro final.

— Não entendi…

— Creio que isso faça parte de algum plano dele para me matar.

— Mas ele não está aqui? Agora? Por que não mata de uma vez?

Se Kan não conhecesse Desmodes, provavelmente acharia que o silêncio antes da resposta traduzia-se por um sorriso.

— Ele não simplesmente mata.

Depois...

O resto das horas quase fez Kan se arrepender de ter saído do quarto. O relógio marcava o ritmo do tempo, que em curto intervalo já parecia absurdo. Num processo lento, que quase não descobriram até serem capazes de enxergar melhor, Kan e Desmodes, um ao outro, o dia clareava. E o que Kan via, do outro lado da mesa, não era contento.

— Talvez demore para fazer efeito. — Sugeriu Kan, quando ficava óbvio que ainda haveria uma manhã. — Talvez… Talvez haja manhã, mas não haja sol.

Desmodes virou o rosto num pequeno ângulo, mudança quase imperceptível. Passou a olhar para Kan logo depois, coisa que talvez não houvesse feito a noite inteira.

— Ou talvez eu não tenha dominado Heelum por completo.

— É o mais lógico, não é, Desmodes? — Instilou Lato-u-nau, encurvado sobre a mesa, numa das poltronas do lado das janelas. — Você deve concordar dessa vez que…

— Mas você não é lógico.

— Lato-u-n… — Começou Kan, censurando-se a tempo. — Mistério… De Heelum… Podemos conversar?

Diga a ele que não.

Não serei seu mensageiro.

— CHEGA, Desmodes! — As palmas esqueléticas do ser feio balançaram a mesa. — MATE-O! Está perdendo tempo!

— O que você realmente quer?

Lato-u-nau abriu um sorriso sem muitos dentes, mas bastante ruidoso.

Como assim?

— Isto só pode ser um plano seu.

— Ah… — Escarneceu ele, a jogada de cabeça para o alto revelando seus grandes olhos cinzentos por debaixo do capuz. — Se eu o quisesse morto, eu já o teria matado, não é? E se eu quisesse você morto, como você pensa?

— Você disse que me mataria na hora certa. Você prepara isto há muito tempo…

— Então de acordo com você sou extremamente perigoso… Mas não posso mentir? Ou mudar de ideia? Aliás — Continuou, puxando ar demais para si. — Como posso ser bom em planejar coisas se justamente aquilo que dá errado é o que há de mais feio, Desmodes?

— Você só quer…

Nunca passou por sua cabeça que se eu quisesse alguma coisa de você eu diria pra fazer exatamente isso? — Socou a mesa, dando a Kan novo lugar para onde olhar. — Que talvez o meu plano fosse pedir de você uma coisa para que você dissesse não, e então fizesse o oposto, que era o que eu queria em primeiro lugar?

— Você queria Kan vivo…

— Sim! — Disse Kan, projetando a voz.

— Ou… Talvez… — Lato-u-nau desenhava círculos por sobre a mesa com uma longa unha marrom. — Perto de você… Intocado por você… Incontrolado por você, livre da sua influência e perigosamente perto dos seus inimigos… E dos amigos, em quem você não confia de qualquer jeito… Talvez fosse isso que eu quisesse…

— Você não pode me dizer o que fazer…

— Desmodes… — Chamava Kan.

— Mas EU?! — Esperneou Lato-u-nau, imitando com agudez a voz de Kan. — Eu não estou dizendo nada! Eu estou fazendo sugestões, Desmodes! E pedidos! Quem está se restringindo é você…

— Chega.

Desmodes levantou da poltrona e caminhou na direção de Kan.

— Não… — Começou o mago controlado quando viu o mago-rei desembainhar a espada. — não, não, NÃO, NÃO, ESPERE!

Kan sentiu a ponta da arma encostada no pescoço.

— EU SEI! EU TENHO A SOLUÇÃO!

— Solução para o quê?

— Me deixe explicar!

Desmodes afirmou estar ouvindo, monótono. Não demoveu sua espada.

— Se ouvi direito, o Lato-u-nau — O vidro à frente da face do relógio estilhaçou-se, fazendo Kan berrar de susto. — ELE, ele disse que o mataria do jeito mais feio!

— Sim.

— Mas… Não há ninguém em quem você confie no Conselho dos Magos! Eu vi como você dominou todos eles de uma vez só… Você precisou fazer isso porque eles se revoltaram contra o uso das esferas de bronze…

— Possuo boa memória.

Quão feio seria se você matasse a única pessoa que você não precisava de magia para ter do seu lado, e então descobrisse que ela era justamente a pessoa que você precisava?

— Pensa que preciso de você?

Não, não quis dizer que você precisa de mim, mas talvez ele ponha você numa situação inimaginável para nós agora, em que somente alguém não controlado por você possa fazer algo que vá… Determinar… Se você vive ou morre.

Desmodes abriu distância entre a lâmina e o pescoço de Kan, que de tanto se mover à baila da ponta afiada avermelhava-se em irritação.

— Continue.

— Ele me quer morto para que você não possa confiar em ninguém. Vai colocar você em uma armadilha e quando mais precisar vai ser um deles que vai… Misteriosamente resistir à sua magia, ou… Vai de alguma forma trair você, e não é isso que você quer!

— Ele afirma ter dito que quer você morto para que eu o deixe vivo…

— Mas você nunca vai poder descobrir as reais intenções dele! Ele pode fazer você pensar que me queria vivo, para que você me mate. Mas se ele previu isso, ele poderia já contar com isso e esperar justamente que eu fique vivo! Ou… — Kan sentiu a boca embrulhar-se de fora para dentro, e entendeu que Desmodes o forçara a mudar de assunto. Torceu para que ele tivesse entendido. — Desmodes… Você tem que poder confiar em alguém ou estará sempre à mercê da sua magia.

Minha magia nunca me falhou.

— Mas a magia é um mistério! E ele é um mistério. Sua magia não funciona com ele, funciona?

Desmodes olhou para o peito de Kan por um tempo que queria que fosse menor.

Embainhou a espada de volta.

— Sem controle… Você vai me trair.

— E por que eu faria isso? Desmodes… — Tentou gesticular, mas descobriu que as mãos ainda estavam bem presas aos descansos do assento. — Eu tive um curto treinamento preculgo… E conheço algumas técnicas dos alorfos, dos filinorfos, mas… Eu não passaria por um mago tradicional aqui dentro, e os outros no fundo sabem que eu sou diferente. O que eu ganharia derrubando você é um novo mago-rei que jamais confiaria em mim. Eu jamais conseguiria nada aqui.

— Não explica por que ainda não sou um governor.

Kan procurou se acalmar.

— Você não precisa me matar para me dominar, isso está bem óbvio agora. Eu não sou o problema, Desmodes. Não posso ser.

— Então o que é?

— … Eu tenho um pensamento quanto a isso também.

— Explique.

— Bem… Uma das primeiras cartas que eu li… Trabalhando como assistente, aqui… Falava sobre Rouneen. — Abriu a boca, escolhendo as palavras com mais calma agora que não estava mais sob a mira de uma espada. — Diziam na carta que estavam se juntando ao Conselho dos Magos, mas não queriam mandar nenhum exército para lutar.

— A cidade é pequena e é controlada há incontáveis gerações por uma família de magos.

— Bem… — Recomeçou Kan, meneando a cabeça de leve. — Eu nunca estive lá. Nunca conheci ninguém que esteve. Você já esteve lá alguma vez? — Como Desmodes demorou a responder, continuou. — Até onde sabemos aquela pode ser uma vila de alorfos que não apoia o Conselho, mas disse que apoiava para ser deixada em paz…

Lato-u-nau respirava fundo; sua altura parecia se ajustar para que pudesse fazê-lo precisamente por sobre a nuca de Desmodes.

Se não vai fazer nada… — Disse ele, desafinando nas palavras mais comuns. — Pelo menos vá averiguar Rouneen e deixe-o aqui. Ele vai pensar que pode ser o seu sucessor… Sim… A autoridade vai mudá-lo, fazê-lo gostar de mandar em magos bem mais poderosos que ele… E algum deles vai matá-lo, é claro…

— Vou fazer o que você quer.

O mistério, que se comprazia ao imaginar o cenário, balançou a cabeça. Desmodes olhava para ele por cima do ombro, e Kan começava a respirar forte pela boca mais uma vez.

— O que isso quer dizer? — Indagou Kan.

— … Faço minhas as palavras dele, ó mago-rei…

— Você vai a Rouneen. — Disse Desmodes ao mago controlado. — Vai verificar a situação da cidade.

Kan construiu o sorriso aos poucos, cauteloso.

— É isso o que ele quer?

— Se ele realmente quer matá-lo vai encontrar boa oportunidade.

Desmodes deu as costas para ele e saiu. Não demorou muito para Kan sentir braços e pernas; levantou-se, mas mesmo sentindo que necessitava urgentemente de sono algo o alertou dentro de si para novas presenças na sala.

A figura de longa capa negra trazia o capuz retraído às costas, mostrando seu rosto redondo, largo, seus olhos pequenos e suas orelhas pontudas. Era definitivamente o homem mais feio que já vira, muito embora ele sabia que não se tratava de um homem.

Em Neborum, descobriu o iaumo de Desdemos sentado no largo sofá azulado de uma de suas salas.

— Você vai ficar? — Perguntou Kan.

— Me interessa saber se viverá ou morrerá. — Comentou o iaumo do mago-rei, de olhos fechados e braços cruzados.

— Você quer me matar? — Sussurrou Kan, dessa vez para Lato-u-nau.

O mistério fez que não com a cabeça.

— Não. — Reiterou ele, sua voz anasalada, atrapalhada, fazendo o mago franzir o cenho. — Mas você foi muito inteligente. Muito esperto.

— Você me… Observa há muito tempo?

Lato-u-nau deu de ombros.

— Nunca.

— Então por que…

— Você é uma peça, Kan… Fez sua parte muito bem. Foi muito além do que eu esperava, na verdade…

Kan saiu da mesma sala que Desmodes no próprio castelo. De volta à sala de reuniões, prestou atenção ao corredor, verificando se o mago-rei estava realmente longe em Heelum.

— O que devo fazer?

— Obedecê-lo, o que mais? — Depois de um olhar enviesado, já parecia ter um rosto mais fino e definitivamente mais velho. — Você fez o que teve que fazer para salvar sua vida… Agora vai vivê-la bem como o planejado.

— Eu posso fugir.

HA! — Lato-u-nau assustou Kan com um arregalar de olhos, que não pareceram voltar ao normal depois da forçada risada. — Desmodes não ficou dentro do seu castelo para saber se está morto ou vivo, rapaz tolo! Foi para garantir que no fim das contas você vai fazer tudo do jeito que ele quer.