As cartas que não foram roubadas

Rainha entrou sem pressa, fechando a porta atrás de si com um empurrão gentil. Virou-se para trancá-la e passou a mão nos longos cabelos encaracolados, as mãos beges sumindo nos tubos castanhos. Passou a olhar desinteressada para o lugar que, fechado por tanto tempo desde a morte do pai, mofava.

A luz suave do dia chuvoso entrava por frestas e aberturas entre portas, e por alguma razão havia mais minérios de luz na casa do que ela se lembrava. Pensou que faria bem arejar o lugar assim que fizesse um pouco mais de sol; era preciso banhar de luz e calor o sofá vermelho-podre, o tapete amarelado e a pintura do pai na parede.

“Como se eu fosse ficar aqui…”, pensou.

Seus olhos pararam por algum tempo no quadro. Hourin não sorria, e encarava o pintor de frente com as mãos retas grudadas no corpo. O fundo, que misturava verde e vermelho para dar uma noção etérea do personagem, a deixava enjoada.

Assim como o pai.

Rainha subiu as escadas sem trazer a mala. Foi ao quarto de Hourin e precisou abrir a janela para não tossir mais.

Na claridade viu melhor o que haviam feito com a parede. Certamente descobriram a abertura secreta do pai; a madeira foi colocada no lugar de volta de forma grosseira, completamente descuidada.

Rainha empurrou de novo a parte de baixo da tábua, expondo o espaço entre a camada de madeira e a corvônia.

Pôs as duas mãos na parte de cima e puxou-a para baixo como uma alavanca, forçando a muralha atrás da parede.

Um bloco quadrado de corvônia foi para trás, oferecendo resistência; Rainha forçou mais a tábua até ouvir um clique metálico que prendeu o bloco no lugar. Tirou as mãos da tábua, esfregando-as por impulso no vestido alaranjado, e colocou o braço num buraco à esquerda revelado pelo bloco que cedeu.

De dentro do buraco tirou um pedaço de madeira e puxou-o para fora. Ele era articulado por dobradiças a outros pedaços que davam continuidade à linha. Logo chegou a um pedaço ao qual uma sacola de algodão foi amarrada com uma corda de couro de bufão.

Largou a madeira no chão e sentou na cama para desamarrar a sacola. Lembrou do arranjo e da quantidade das cartas ao espalhá-las pelo colchão duro.

Tirou o ar dos pulmões, tentando ficar bem.

Olhou de novo para o buraco na parede. Aquele não era o último grupo de cartas; o pai devia ter deixado as mais recentes do lado de fora, sem se incomodar com o mecanismo. Quem quer que as tenha encontrado deve ter achado que aquilo era tudo e foi embora, deixando para trás o esconderijo sem ocultá-lo direito. Com a extorsão que poderia fazer com um punhado de cartas, realmente, quem se preocuparia com a possibilidade de haver mais?

Abriu uma das cartas entre o indicador e o médio, lendo a esmo miolos de conversa.

… disse a você para NÃO MATÁ-LO, Kahae! Mas pode haver um lado positivo para isso. Quero agora que garanta que Ianni e os filhos não passarão por dificuldades com isso, porque ela…

Meneou a cabeça enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. Os dedos tremiam enquanto a carta era dobrada e reunida às outras; fazia a outra mão ajudar a guardá-las de novo.

Para cada cor de papel e escrita que transparecia do lado limpo do papel uma nova citação aparecia na cabeça de Rainha; uma outra memória, uma outra conexão com o passado do pai.

… deveria ter escondido melhor as barras. Mas fico bem e o parabenizo pelo fim dos problemas no Sul com Riozo, achei que fosse preciso eliminar mais um ou dois para o assunto ser enterrado definitivamente…

Não conseguia deixar todos os papeis na mesma orientação, e começava a organizá-los com raiva quando um caiu no chão.

… que não podemos pagá-los mais, por que não estão quietos ainda, Kahae? Estou desapontado com você…

Derrubou as cartas no chão e escorregou pela borda da cama até o chão disforme, os soluços tomando conta dos espasmos no corpo.

… não precisava me perguntar esse tipo de coisa, é claro que eles devem sumir…

Apertou as mãos contra os ouvidos, rangendo os dentes. Respirou forte para tentar se controlar. Era irritante ter que lidar com sofrimento de novo ao rever as cartas — ela já pensara demais naquilo enquanto se recuperava na casa de saúde.

Teve tempo para refletir. Talvez o que precisava era tomar uma atitude.