Sem desejo

Byron se policiou para não coçar mais a região da barba. Não queria deixar, soltos no ar, indícios de que algo estava fora do lugar.

Visitou Neborum mais uma vez. Desde o ataque do alorfo fora enviado de volta para o próprio castelo e de lá não conseguia sair. Uma força maior que o vento, mas mais sutil que um simples obstáculo sólido, impedia o avanço a partir da porta; fazia arder as articulações, especialmente as dos joelhos. Fazia doer os músculos no antebraço, no pescoço, nos dedos contraídos dos pés.

Por que ainda me quer aqui, mestre, é o que eu não entendo.

De braços cruzados e postura reta à frente da escrivaninha, Tornero cultivava nos olhos o mesmo ódio que surgira há horas e não dava sinais de que se apagaria tão cedo.

Kerinu foi instalado sem hospitalidade num quarto de hóspedes, amarrado por mãos e pés aos quatro cantos da cama e amordaçado. O cômodo foi trancado com as janelas e cortinas fechadas, os móveis arrastados para o mais longe possível, e os serviçais avisados para não abrirem-no sob hipótese alguma.

Mesmo depois disso, Byron não permitiu que Tornero saísse imediatamente. Lamar poderia ser pego antes de conseguir escapar das últimas jirs da cidade ao norte, justificou, e nesse caso não seria bom ser apanhado enquanto era perseguido por alguém ligado a Byron. Tornero achou a ideia ridícula.

— Vá. — Disse, finalmente, querendo berrar a ordem.

Se precisava falar com Kerinu, era melhor que Tornero não estivesse junto.

O prisioneiro virou o rosto para a porta quando Byron entrou no quarto. As cordas não só o mantinham preso como também o puxavam. Sangue seco cobria a bochecha direita por cima da longa e fina ferida aberta. Tentou com afinco demonstrar que sorria por detrás da mordaça, que Byron arrancou assim que chegou mais perto.

— O que você fez? — Perguntou Byron, baixinho.

Kerinu mostrou com um entortar de lábios o que teria feito se pudesse: um dar de ombros.

Byron socou sua barriga com o punho direito, num gesto tão rápido que o assustou e o levou para trás. Kerinu gemeu, não mais sorrindo.

Byron deu mais três socos, sempre com o punho direito, um mais forte que o outro. Testava seus limites físicos rosanos depois do último treino pesado que teve.

Ofegante, subiu na cama. Tentou manter o equilíbrio depois de chutar o homem amarrado.

Quis pular em cima de sua barriga com os dois pés quando parou, percebendo o suor absurdo que o assaltava por debaixo das vestes pesadas.

Desceu da cama, envergonhado; era um bomin e estava enlouquecendo.

Um medo ainda maior inundou-o com arrepios. Registrava que Kerinu tossia e gemia, respirando pesadamente, mas não quis saber de mais nada — trancou a porta de novo com a mão tremendo e começou a verificar seu castelo. Correu por todas as salas, todos os corredores, verificou cada pedaço de sua propriedade tão bem quanto pôde com a pressa que tinha, e só foi sentir-se a salvo quando sentou-se de novo, exausto, na cadeira atrás da escrivaninha.

Depois...

Tornero voltou tarde à noite, sem notícias de Lamar. Byron voltou a visitar o alorfo sozinho. Sentiu-se incomodado por ter esquecido de colocar a mordaça de volta; aparentemente Kerinu, que já estava acordado quando o bomin entrou, não achou que conseguiria alguma coisa berrando por ajuda.

— Ainda não saio do meu castelo. — Disse Byron, chegando mais perto da cama.

— Eu sei.

Kerinu não demorou para responder, e sua voz não traía medo ou tristeza de qualquer tipo — apenas uma forma de indiferença que Byron considerava extremamente incômoda. Pelo menos não estava sorrindo.

— O que você quer?

Kerinu apoiou o peso da cabeça na ponta do queixo, levantando o pescoço e fechando os olhos.

— Eu não quero nada. Na verdade — Continuou, passando a encarar o mago. — me pergunto… Quanto tempo vai demorar para Tornero tomar o seu lugar…

Byron engoliu em seco antes de tirar a espada e encostar no pescoço do alorfo.

— Eu vou matar você antes disso.

— E ficaria preso para sempre.

Olharam-se por mais alguns instantes. Byron relaxou a mão aos poucos até guardar a espada de volta.

Aquilo era tudo que Byron precisava evitar: não havia como saber se Kerinu estava blefando ou não. Ele mentiria bem, é claro. Não brincaria com a própria vida. Sua própria indiferença inicial, a certeza de segurança, de invulnerabilidade — tudo fazia parte da aposta. Para Byron uma aposta com metade de chances de acerto — um desfecho simples, rápido, que poria fim àquela agonia. Mas com metade de chances de fracasso — sua ruína total.

Saiu do quarto e encontrou Tornero na sala de entrada. Passou direto por ele e começou a fazer alguns últimos ajustes em seus trajes.

— Fique aqui. — Instruiu. — Desde que o deixe vivo e faça doer, pode fazer o que quiser.