Forças e forças

Só quando a mensagem foi repetida pela terceira vez alguém no Parlamento de Al-u-een perguntou de quem era aquela voz feminina. Os anúncios de sempre não eram assim, e pelo menos os parlamentares sabiam que não havia nenhum anúncio programado. Quando foi pedido aos cidadãos atenção pela oitava vez, já havia tantas pessoas na praça à frente do prédio que mal se podia enxergar um pedaço de grama ou calçada ainda desocupado; talvez apenas perto da própria charrete, parada ao lado d’O Nascimento, de onde vinha o som. Na décima vez, as conversas foram cedendo enfim ao silêncio inquieto.

Atenção, cidadãos de Al-u-een.

O Conselho dos Magos, instituição que representa o poder e a glória dos magos de toda Heelum, torna pública e conhecida a determinação de unificar Heelum em um único governo mais organizado, competente e justo. É hora de nós, humanos, vivermos de novo numa unidade, como era o desígnio da Rede de Luz. O governo será administrado a partir da sede do Conselho dos Magos, na Cidade Arcaica.

A cidade deve enviar uma resposta de volta à sede através de um mensageiro oficial, e, em caso de resposta negativa, o Conselho tomará medidas para assegurar a conformidade e o sucesso deste novo projeto de uma Heelum melhor para todos.

A mensagem mal havia terminado quando o barulho da multidão ficou insuportável. Insultos se transformaram em pontapés, e objetos de toda sorte foram jogados contra a cocheira, que manejou os yutsis para galopar rápido ao redor de onde estavam antes e afastar um grupo por vez. Enfureceu todos de uma vez só.

Começaram a cercar a mensageira em pulos, atacando os yutsis com o que havia à mão. Ela tentava controlar os animais como podia para que não machucassem ninguém — situação em que certamente a seguiriam até o fim do horizonte — mas especialmente não ferissem um ao outro, além dela mesma.

A charrete balançou de um lado para outro; a roda saía do chão, mas o carro se equilibrava pela frequência igual com que seus dois lados eram atingidos enquanto aos poucos conseguia sair dali. Entrou numa rua em que as pessoas sabiam que atacar yutsis não era algo tão simples ou inteligente, e quando os policiais chegaram ela já estava longe e as pessoas, dispersas. As caídas recebiam atenção dos que estavam por perto.

Em todas as outras partes da praça e do entorno do Parlamento os debates alcançavam um nível fervoroso. Argumentos pulavam de grupo em grupo, e muitos caminhavam pela área para participar de várias conversas, formando verdadeiras correntes de ideias e diálogos. Berros apoiados por mais berros clamavam pela declaração imediata de guerra àquele absurdo — caso fosse um anúncio sério e genuíno, o que era posto em dúvida por outros.

Os parlamentares assistiam à tudo numa parte suspensa do segundo andar, área na qual tinham acesso à vista mais completa da agitação na praça. Um vão pelo qual era possível ver o saguão de entrada abaixo deles separava duas alas próximas às janelas. Raramente alguém lá fora prestava atenção às figuras bem vestidas, contidas e estarrecidas — mesmo os que discutiam praticamente aos seus pés, na escadaria dourada do prédio.

— Nós deveríamos declarar guerra . — Disse Minoru, de braços cruzados, quebrando o silêncio duradouro.

Nós decidimos as coisas. Essa decisão não cabe a eles assim. — Rebateu Hideo, apontando para o povo com um gesto de cabeça.

— Mas a argumentação tem que ser pública! — Interveio uma parlamentar próxima a Hideo, que também cruzava os braços. — Esse é um assunto que…

Ela não terminou a frase, deixando o balançar negativo da cabeça fazê-lo.

— Seriza, a argumentação já é pública. — Riu Minoru. — É só olhar. Não há ninguém preocupado conosco, senhoras e senhores… — Abriu os braços, voltado para os colegas. — Ninguém querendo saber nossa opinião!

— Ah… Poupe-me do seu impulso de agradar o povo, Minoru. — Reagiu Hideo, apertando os olhos e aproximando-se da bancada que separava as duas alas próximas às janelas no pavimento. — Nós não somos bonecos da vontade pública, somos líderes. Nós mantemos a cabeça fria para tomar as decisões corretas enquanto eles fazem festa com o que pode nos levar à morte certeira.

Minoru apontou para a praça.

— É você que vai dizer para eles que vamos obedecer aos magos? Vai fazer isso numa charrete com quantos yutsis, senhor Hideo?

— Devemos pelo menos pensar nisso com calma! — Interveio Kent, que havia há pouco saído das escadas.

Minoru movimentou o dedo indicador entre Hideo e Kent.

— Vocês estão juntos nisso porque vocês são magos, ou…

As discussões paralelas, que já não eram tão silenciosas, explodiram no saguão à imagem e semelhança da praça. Alguns pediam que Minoru não continuasse com aquilo, tentando convencê-lo de que precisavam analisar todos os prós e os contras antes de se posicionar perante o povo. Outros, voltados para Kent, discutiam que dificilmente deveriam contrariar a raiva do povo — que podia, afinal, voltar-se contra eles de qualquer forma. Hideo falava mais baixo, com um grupo mais fechado de parlamentares, sobre as implicações de uma guerra contra uma variedade de cidades que, acreditava ele, certamente seriam aliados da Cidade Arcaica.

— Uma charrete! — Irrompeu Seriza. — Há outra charrete vindo!

Ela seguia com ímpeto, abrindo caminho direto rumo ao parlamento por uma via à esquerda. Havia muitas pessoas ali ainda, e algumas desavisadas acabavam tendo que correr para sair do caminho.

Os parlamentares voltaram a conversar, mas a ansiedade não levava qualquer discussão para frente. Puderam ver por um ângulo ruim que apenas um homem descia da charrete e entrava no prédio. Logo o viram à frente das escadas, acompanhado de uma funcionária do Parlamento que o levou até onde a maioria dos políticos estavam.

Ao chegar, não sabia para quem se dirigir. A coleção desordenada não dava nenhuma indicação óbvia. Ele desistiu, tirando desajeitadamente um papel enrolado de dentro do bolso interno do casaco dourado.

— Trago uma mensagem de Roun-u-joss. — Disse, a voz firme não acompanhando bem seus olhos vacilantes. Abriu a mensagem, com Minoru bufando ao ver seu tamanho.

— Você leu a mensagem? — Perguntou ele.

O mensageiro fez que sim com a cabeça.

— É u-um procedimento padrão para garantir que entendemos t-todas as partes.

— Então pode resumir? Já sabemos do Conselho dos Magos.

Hideo fechou os olhos. Kent pensou em repreendê-lo, mas na verdade gostou da ideia.

— Tudo bem. — Disse o mensageiro, deixando a mão relaxar, fazendo o papel aberto quase encostar no chão. — Recebemos a notícia ontem e já declaramos guerra à Cidade Arcaica. Roun-u-joss quer saber qual é a resposta de Al-u-een.

Minoru sorriu, procurando o olhar de Hideo.

— Temos que decidir rápido. — Propôs Kent.

— E eu tenho certeza que não importa o que vocês digam, eles já decidiram.

— Não são eles que comandam o exército da cidade nem que se preocupam com qualquer massacre que ele possa sofrer sem necessidade! — Ralhou Hideo.

— Você acabou de reconhecer que precisamos tomar uma posição oficial do jeito certo, Minoru! — Disse, irritado, um baixo parlamentar de pele negra ao seu lado. A conversa sobre legalidade veio brevemente à tona do outro lado da sala.

— É verdade… — Aquiesceu Minoru. — Mas quero que fique claro quem aqui pensa que não é absolutamente necessário lutar pela nossa cidade.