Protegidos

Como não havia indício de luz por detrás das cortinas vermelhas, Leo deixou as costas caírem de novo na cama grande, entre macios edredons amarelos, pensando nas últimas cenas do pesadelo fugidio que o acordou no meio da noite.

Perdeu o sono rápido; ficou curioso quanto à agitação atípica no corredor. Parecia que vinte pessoas ocupavam o andar, andando de um lado para outro, carregando coisas barulhentas e batendo às portas.

Alguém até bateu à dele.

Levantou-se. Vestia uma calça preta e um casaco vermelho fechado; achou que não teria problema atender a porta descalço, considerando que ainda era madrugada.

Abriu a porta e ninguém em particular veio falar com ele — mas o barulho duplicou, e Leo entendeu por quê.

Músicos carregando não apenas malas e sacolas com roupa e comida de toda sorte — malas abertas, fechadas, jogadas pelo chão, de todas as cores e formatos — como também seus instrumentos, andavam em bandos, provavelmente em bandas, batendo na porta de cada quarto.

À direita uma porta se abriu e quem nela batia — um homem alto e magro, negro com um alto cabelo encaracolado, carregando um papel cheio de números — pediu desculpas por incomodar e foi para a próxima, liderando seu grupo de outro homem e duas mulheres, todos vagando atrás do porta-voz que praticamente arrastava as pernas.

Alguns abriam as portas sem que ninguém os chamasse; traziam coisas espalhadas no corredor para dentro do quarto. Um baterista reclamou que ninguém o ajudava a carregar nada (“Eu tenho mais coisas que vocês, o que é que custa?”), enquanto mais pessoas desciam as escadas e sussurravam para um grupo na porta ao lado de Leo que já estava tudo ocupado naquele bloco.

Mais no final do corredor uma mulher de óculos tentava convencer outra, que já tinha conseguido um lugar, a dividi-lo com sua banda. A discussão ficava insistente de um lado e nervosa do outro.

Leo deu um passo para trás, pescando a chave na porta. Trancou o quarto e subiu um andar. Não precisou ir na direção dos quartos dos companheiros; os três estavam juntos no único espaço em frente às janelas disponível no meio de tantas malas e guitarras.

— O que é que…

Abrindo espaço entre Fjor e Leila, Leo viu na rua em frente ao bosque cerca de duzentas pessoas, aglomeradas em uma barreira dispersa nas entradas para o hotel. Conversavam entre si enquanto carregavam, aqui e ali, estacas com minérios de luz; alguns vermelhos, outros azuis. Vestiam grossos trajes verdes-musgo com luvas e botas pretas. Na cintura, espadas; nas costas, geralmente escudos revestidos em algo que parecia ser couro ou sacas de goma escura que pareciam particularmente pesadas. Atrás deles, cocheiros conversavam em rodinhas à frente de algumas charretes espalhadas por todo canto que podiam observar dali.

— P-policiais? — Perguntou Leo, franzindo a testa.

— Acho que são do exército… — Respondeu Beni, sem tirar os olhos da rua.

Ouviram uma voz irritada atrás deles, mas só Leo quis prestar atenção.

Onde eles vão botar a gente se não tem mais quarto e disseram que tinha que ficar todo mundo aqui?

Era um garoto loiro com olhos castanhos cansados e cabelo desengonçado — característica, aliás, da banda toda, feita de mais três garotos. Leo os reconheceu de um show que fizeram; nascidos e criados em Jinsel, faziam um rock de cidade que Fjor detestava. Não olhou para o irmão, mas se ele ouvia a conversa provavelmente estava rolando os olhos para cima naquele momento.

— Ei, vocês aí — Disse um dos garotos, com seus braços musculosos imunes ao frio. A banda toda se virou. — Vocês já têm quarto?

— Sim. — Respondeu Leila, taciturna.

— Quantos por quarto?

— É um quarto só. — Disse ela de novo, dando as costas para eles depois.

Leo sabia que ela mentiu, mas ele tampouco queria dividir seu quarto.

— Que grossa… — Comentou o jovem, saindo para ir fazer outra coisa. Deixou seus companheiros olhando para o chão e para as portas fechadas dos quartos, agora já mais ocupados que o corredor.

— É… — Começou Leo, dando um passo à frente para falar com eles. — vocês sabem o que está acontecendo?

— A gente só sabe o que vocês sabem… — Respondeu o mais próximo dele. — A gente estava numa festa no centro. A gente ouviu tudo.

— Ouviu o quê?

Beneditt inclinou a cabeça com cuidado, sem querer mostrar muito que prestava atenção.

— A charrete tinha uns cinco mil minérios de som juntos, é sério que você não ouviu?

Leo olhou para as costas dos companheiros, buscando algum apoio. Via só traço do olho de Beni.

— N-não, eu estava dormindo.

— Parece que existe um “Conselho dos Magos”, e eles querem que as cidades passem a obedecer a eles agora. Quem não quiser…— Fez com o dedo um movimento cortando o pescoço.

— E Jinsel vai querer?

Ele deu de ombros.

— Não sei.