O soldado treinado para se opor

Naqueles dias parecia que uma fina camada de gelo cobria toda e qualquer coisa: das árvores às casas, da frágil força do que se plantava até a mobilidade das mãos que colhiam. O frio entrava nos ossos, achava um caminho por debaixo das roupas mais quentes, e ajudava com seu sopro sólido a prender Inasi-u-een na gaiola azul que eram os cinquenta e quatro dias de inasi-u-sana. A neve unia a paisagem da terra à do céu num único túnel cuja única diferença para o mar é que este balança. Aqueles, clausuram e oprimem.

Harald segurava as duas mãos no limiar da janela com uma espécie de hesitação. Sempre fazia isso, e não sabia o porquê, já que não tinha medo da altura do segundo andar. Se apenas hoje ainda fosse ontem, pensava — só um dia a menos, o dia em que faltava só dois para a neve fatalmente começar a derreter, e Harald poderia sentir de novo que aquele vento não lhe trazia mais arrepios, e sim brilho nos olhos e cor nas bochechas.

Mas hoje só o que ele conseguia era pensar se na próxima inasi-u-sana o povo de Inasi-u-een estaria livre ou sujeito à corja de magos que sempre desprezaram.

Mairaden entrou em silêncio na sala. Mais alto que Harald, seu pai, tinha ombros largos e orelhas tímidas. General das forças da cidade, vestia um longo casaco marrom com as botas pretas de seu cargo, espelhando quase que fielmente o pai. Carregava na mão direita, coberta por uma grossa luva abarrotada, uma alabarda apoiada no chão.

Há muito tempo Harald não via aquela arma. Esculpida e reforçada por uma de suas filhas, não era a mais suntuosa à disposição do general, mas ele parecia resoluto ao segurá-la tão perto de si naquelas circunstâncias; trazia com ele aquele olhar de quem não tem escrúpulos de encarar quem quer que fosse diretamente nos olhos.

Seu olhar vagou de novo pra janela, sem conseguir ficar tanto tempo longe daquela vista. Havia algo naquele ângulo… Algo que o acalmava nas piores crises.

Desejou que já fosse hora do pôr do sol.

— É essa que você vai levar?

— Confio nela. — Respondeu Mairaden, deixando-a apoiada na parede alaranjada e andando até a cadeira rosada em frente à mesa bege. — Não posso levar outra.

Harald assentiu, voltando os olhos para a cadeira na qual o filho tinha a mania de nunca sentar. Tirar os olhos do mar o deixou abatido, como se um aspecto ósseo tomasse conta de seu rosto já fino, com seu bigode e seu cabelo, rebeldes e cinzentos, assumindo posições de enfeites precários.

— Quando sair daqui — Começou o mais velho. — não perca tempo. Arregimente a parte da tropa que lhe compete e vá em frente.

— Isto já está sendo preparado.

— Quando passar pela fortaleza leve todos com você. Aos civis, diga que voltem para cá. Teremos lugares para todos.

Mairaden concordou num gesto simples com a cabeça. Harald virou-se para ele e deu alguns passos, encostando as pontas flácidas dos dedos sobre um grande mapa de Heelum recém tirado do armário.

— Você já disse adeus?

— Sim.

— Foi visitar sua mãe?

— É claro, pai.

— Está certo.

Harald enfim se permitiu sentar, pondo um cotovelo em Kor-u-een e os olhos em Novo-u-joss.

— Não sabemos se Novo-u-joss estará do nosso lado, mas manterei você informado com um mensageiro. Eles não devem demorar para decidir. Quanto a Rirn-u-jir — Inclinou-se um pouco para a frente e apontou a cidade com a mão direita. — considero melhor passar pelo caminho estreito na Cordilheira Ocidental.

— Oriental.

— Oriental, certo. Vocês vão precisar de mais provisões, mas podem atacar algumas jirs de Rirn-u-jir aqui. E aqui também.

— Ou Novo-u-joss pode ajudar.

— Também, sim… — Harald passou a olhar para Enr-u-jir. — Mas é aqui que você deve se separar.

Mairaden não disse nada enquanto observava a confluência de estradas que se ligavam à cidade à beira do Lago Enr.

— É aqui que você vai e o seu exército fica.

Os olhos de Harald encheram-se de lágrimas quando ele foi capaz de ver — nítido como se o tempo tivesse vontade e quisesse correr para trás — as feições de menino por detrás da barba arrasada daquele homem à sua frente. Eram os mesmos olhos, verdes como o da mãe, como se o rosto tivesse se construído e reconstruído ao redor de dois pontos de apoio fortes, profundos. Sem medo.

— Eu sempre soube, meu filho. Sempre soube que você não seria treinado por precaução. Só por tradição.

— E se não houver um governor?

Harald havia pensado nisso também.

— Você acredita nisso?

— O comunicado foi claro. É um conselho de magos. Quando eu estiver em Enr-u-jir, vou procurar por um grupo, não uma pessoa. E Roun não deixou de surgir. Continua nascendo todos os dias.

— E se forem todos os magos de Heelum? Juntos, dessa vez? Esse é o nosso medo real?

— … Creio que sim.

As imagens do filho mais jovem sobrepostas à versão forte e decidida sumiram, por mais que esse fosse o momento de maior insegurança e indecisão por parte do pai. Ou justamente por isso, já que era preferível ter perto de si a imagem de um forte guerreiro; não do principiante que ele um dia foi.

— Então esta guerra é muito maior. E jamais vai ter fim.