Incursão

A escada de madeira culminava em um pequeno púlpito que dava, de fato, a impressão de ser um bom lugar para se coordenar a polícia. O saguão de trabalho, com sua luz austera abençoando os policiais a partir das janelas do terceiro andar, era cheio, apertado e, dali de cima, até que familiar. Não que família significasse muito para Rainha.

Virou-se e abriu a porta do gabinete, de onde saiu uma policial apressada antes que pudesse entrar.

— Rainha. — Disse Dalki. — Bom te ver bem.

Sentou-se. Tinha o saco de cartas na mão direita, balançando para fora da mesa simplória de Dalki quando nela Rainha apoiou os antebraços.

— Eu não estou bem. E… — Continuou, antes que ele pudesse dizer alguma coisa. — Eu preciso falar com você.

Ele abriu as mãos, inalando o ar com o qual pretendia expulsá-la dali.

— Você pode não ter ouvido, mas hoje…

— É sobre as cartas do meu pai.

Ele olhou brevemente para onde ele sabia estar o saco que a vira trazer.

— Lemos todas as cartas do seu pai que encontramos na casa e não achamos nada que pudesse indicar que ele era um mago. Se é isso que preocupa você…

— Eu sei que ele era um mago — Cortou Rainha, impassível. — e se vocês não sabem disso ainda isso só quer dizer que vocês não leram todas as cartas dele. Ele era um mago. E…

Ela baixou a cabeça, enxugando lágrimas antes que elas caíssem.

Dalki rearranjou-se na cadeira, desejando ser o tipo de gente que mandava pessoas em luto para fora de seus escritórios porque ele tinha mais o que fazer.

— E… E se eu tivesse me resolvido antes eu não teria ajudado você. Porque o que eles fizeram foi bom.

No reflexo de recuar as mãos, Dalki quis estar pronto para lutar com Rainha — imobilizando-a, prendendo-a, chamando por ajuda se fosse preciso.

Um segundo depois, embora estivesse ciente da bobagem que sentiu, não estava menos surpreendido com toda a raiva que ouviu a garota sintetizar numa única frase fria.

— Sinto muito que se sinta assim.

— Eu não quero me intrometer e dizer como você tem que fazer o seu trabalho — Explicou ela, balançando a cabeça para o nada. As lágrimas sumiram. — Eu só estou dizendo que… Eu sei quem meu pai era. Ele já era ruim antes disso, mas eu descobri que ele era um mago.

Rainha subiu o braço pela borda da mesa, deixando nela o saco algodoado mas ainda o segurando num aperto forte.

— Aqui tem cartas que vão incriminar ele e muitos outros. Muitos outros magos.

— Há nomes? — Perguntou ele, sem tirar os olhos dos papeis que se deixavam aparecer, provocantes, através da sacola a partir da luz dos minérios amarelos.

— Sim. De parlamentares também.

Dalki sabia que tinha muito o que fazer, mas aquilo era demais para ignorar.

— Eu vou dar essas cartas para você… Mas eu quero uma coisa em troca.

— Depois que eu ler essas cartas e avaliar o valor delas então sim, podemos conversar sobre…

— Eu vou ter o que eu quero. — Disse ela, passando por cima da confiança de Dalki. — Eu quero conversar com Lenzo e… Se eu te pedir depois… Soltar ele.

Dalki riu, apoiando os cotovelos na mesa. Arrumou um papel que estava torto mas viu que, como ele foi cortado torto, nunca ficaria alinhado com a ponta da mesa.

— Não posso fazer isso. Você sabe quantas pessoas se envolveram no assassinato do seu pai?

Ela fez que não com a cabeça, sem quebrar o contato visual. Dalki também estava disposto a seguir com ele até o fim.

— Cinco. Hiram, Raquel, Gagé, Kan e Lenzo. Lenzo foi o único que foi preso.

— Por que precisaram de cinco pessoas para matar o meu pai se um homem com uma espada é que fez tudo sozinho?

— Lenzo me disse por quê.

— É porque meu pai era um mago.

Dalki fez um curto gesto de dúvida com os ombros.

— Nada do que ele me disse é conclusivo.

— Eu SEI quem o meu pai era, Hourin! — Explodiu Rainha, desviando o olhar quando a confusão a deixou mais calma. — … Dalki.

— De cinco pessoas uma foi presa. — Seguiu em frente o chefe. — E eu precisei ir até o Parlamento me explicar quanto a isso. E agora, quer que eu dê liberdade para a única pessoa que foi presa.

Rainha empurrou as cartas para Dalki. Dalki percebeu o quanto a mão da filha do político suava e tremia quando ela enfim deixou de prender a abertura da sacola, recolhendo o braço para junto do outro.

— Quando você prender esses… Ninguém vai mais lembrar do meu pai.

Dalki pôs as mãos nas têmporas, testando a capacidade da poltrona de se entortar até a parede.

“Por que tudo tinha que acontecer de uma vez só?”

— Você pode ler as cartas enquanto eu converso com ele.

Dalki considerou brevemente por que Rainha faria isso se não estivesse falando a verdade. Seu pai estava morto; nada podia trazê-lo de volta. Ela poderia estar atrás de vingança… Afinal, ela queria conversar com Lenzo primeiro…

Ou estava sendo sincera, simplesmente.

O chefe de polícia estendeu a mão esquerda para um cano de ferro que atravessava a parede, puxando-o para mais perto. Com ele já à altura da boca, tirou uma esfera preta do bolso, apertando-a na mão por alguns nervosos segundos. Posicionou-a entre a boca e o cano. Chamou por um guarda, a voz amplificada reverberando na sala, assustando Rainha por um momento. Um policial entrou na sala algum tempo depois.

— Sim, chefe?

— Leve-a para visitar o Lenzo. Fique entre os dois.

O homem fez que sim com a cabeça e a seguiu para fora da sala.

Dalki pensou que poderia ter pelo menos lhe recomendado cuidado. Por outro lado, ela sequer olhou para trás.

Ela se disse satisfeita com a morte do pai. Estava indo conversar com quem ajudou a matá-lo, sabendo plenamente disso. Calculou que tinha que fazer um quadro mais realista dela — ela não era mais a doente que precisava de proteção. Era possível que nunca tenha sido frágil.

Abriu a sacola com voracidade, bufando com o pessimismo repentino de que poderia estar prestes a perder tempo demais com aquilo.

Depois...

Lenzo poderia ter luz na cela. Se quisesse. Mas tirou a camisa, de pano grosso o bastante para a tarefa, e deixou-a amontoada por cima do minério roxo — queria dormir.

O problema era que um ciclo de culpas, desgraças e vergonhas se abatia sobre ele. Não conseguia dormir numa noite, então ficava com sono e dor de cabeça na próxima — mas não conseguia dormir porque estava com dor de cabeça. Quando finalmente desmaiava, o rosto duas ou três vezes lavado pelo choro que vinha sempre sem avisar para lhe atormentar, era acordado poucas horas depois por algum procedimento de rotina que, para ele, nunca se tornava rotineiro o bastante para ser previsível e, quem sabe, esperado.

Sabia que um dia aquilo iria parar. Que poderia dormir tranquilamente — ou pelo menos com regularidade já que, para sua sorte, não tinha pesadelos. Sabia que um dia não ficaria mais na gangorra entre achar que foi um estúpido ao não fugir com os filinorfos ou achar que foi um estúpido por não fugir mais cedo da cidade sozinho, depois do crime. De qualquer jeito, achava-se estúpido; o que exatamente justificava aquilo já pouco importava. Ele estava preso, e autodepreciação matava tempo.

Ouviu um barulho de passos; o arrastar na corvônia do chão era facilmente percebido no grande silêncio do lugar. Lenzo calculava que seria para o senhor na cela no final do corredor.

Quando a chave encostou no trinco da própria porta com um tranco pesado Lenzo levantou-se, assustado como bicho ferido, e conseguiu tirar a camisa preta de cima do minério no momento em que o policial magro com um fino bigode negro entrou.

O guarda olhou para o prisioneiro com desconfiança; seus pequenos olhos castanhos registravam dúvida quanto ao que fazer ao vê-lo de pé, sem camisa, segurando a que ele deveria estar usando.

— O que é que…

— E-estou com calor.

— Está com febre?

— N-não sei…

— Por que o minério está no chão?

— Caiu.

O policial balançou a cabeça, como se entendesse que lidava com coisas irrelevantes. Entrou na cela, ainda segurando a porta. Lenzo franziu o cenho e levantou a cabeça, curioso.

Por um momento pensou que sua mãe viera lhe visitar. Ou talvez o irmão.

Era uma mulher, mas não era sua mãe. Até que lembrava a progenitora; afinal de contas, havia um parentesco entre ela e a bela menina de compridos cabelos castanhos.

Na verdade, não era mais uma menina — não a pequena prima de quem tinha memória. Mas era bela, ainda que aquela seriedade dolorida a deixasse cinzenta.

Era, acima de tudo, filha do homem que ele matou. Ele era a causa de sua seriedade dolorida.

— Lenzo… — Ela olhou de esguelha para o policial, que olhava para a parede como se conseguisse fingir que não estava ouvindo. — Eu não tenho raiva de você.

Lenzo abaixou a cabeça. Já não bastava pensar o tempo todo naquilo, agora alguém — ela, de todas as pessoas — tinha que vir emprestar a voz para todas aquelas coisas?

— Lenzo?

Quando ele se ajoelhou, Rainha fez o mesmo.

— Lenzo, você me ouviu?

— Você não tem raiva de mim?

Rainha confirmou com a cabeça. Lenzo experimentou olhar para ela. Foi a pena daquele rosto angelical que o fez chorar.

Aquele rosto condescendente.

— Está aqui para me ver infeliz?

Não! Eu quero te tirar daqui!

O policial desgrudou-se da parede, olhando para ela. Rainha explicou que não queria fugir com ele. Esperava pela permissão de Dalki para tirá-lo dali legalmente.

— D-Dalki? P-por quê?

Por acaso a prima lhe preparava algum tipo de tortura que ela pudesse considerar mais apropriada para o caso?

— … Porque eu quero a sua ajuda.

— M-mas eu não tenho nada, eu não posso… — Seus lábios tremiam junto com a perna e, ainda mais involuntariamente, os músculos dos braços. — Te ajudar com nada…

Talvez fossem os primeiros pesadelos chegando, fortes, obrigando-o a dormir depois de reclamar tanto que não conseguia. “Isso é pior que estar preso…”.

Pode, Lenzo.

— Com o quê?

— Não posso dizer aqui.

Os olhos arregalados do policial quase não piscavam ao vigiar os dois.

Depois...

Dalki bateu à porta da enorme casa rodeada por um jardim de fazer inveja à praça em frente ao Parlamento. Era verde por fora e, ao que parecia numa inspeção rápida pelas janelas, toda azul por dentro. As colunas externas, que seguravam varandas no segundo andar por cima das cabeças de quem vinha visitar o banqueiro, eram verdadeiras esculturas decorativas de extremo bom gosto.

Dalki bateu à porta de novo, dessa vez com mais força. Comprimia os olhos por causa da claridade, o que o deixava com ainda mais pressa para terminar aquilo de uma vez.

Havia muito a ser feito em pouquíssimo tempo. Queria poder ir diretamente ao Parlamento, mas Monji era importante demais.

A porta abriu-se e, para surpresa do chefe de polícia, era o homem em pessoa. Vestia uma longa capa azul-marinho por cima de calça, camisa e botas marrons.

— Boa tarde, Dalki.

Um aperto de mãos rápido selou a maior das cordialidades que Monji estava disposto a conceder. Fechou a porta atrás de si e logo saiu andando pelo caminho de pedras que levava até o portão da casa.

— Hoje não tenho tempo. — Monji tentava projetar a voz para trás. Era uma estratégia interessante: “preciso que você ouça o que eu digo, mas não posso me virar para você ou demonstro que estou disposto a ouvi-lo”. — Outro dia podemos conversar.

— Vai ao Parlamento, Monji? — Questionou Dalki, fazendo-o parar por um instante.

O homem forte e alto voltou-se para Dalki, juntando as mãos negras à frente do pescoço. Dalki sentiu uma ponta de medo — não era nem de longe franzino, mas Monji era consideravelmente mais forte — e estalou os dedos, tentando ser o mais barulhento possível. Era o primeiro sinal. Monji pareceu não perceber.

— Você ouviu as notícias. Preciso ver os meus contatos no Parlamento, que vão me aconselhar. Eu também sou um cidadão, afinal, e mereço saber o que os parlamentares decidirão.

— Antes de todo mundo, é claro. — Respondeu Dalki, cruzando os braços. — Certamente você não quer influenciar a escolha deles.

Monji riu, indiferente.

— Não tenho tempo, Dalki. Falaremos da próxima vez.

O mago virou-se e achou curiosa, embora não de todo incontornável, a presença de dois policiais guardando seus portões pelo lado de fora.

A um aceno de cabeça de Dalki, os policiais desembainharam a espada, ficando em guarda para proteger a saída.

Dalki pôde perceber a respiração pesada de Monji antes de vê-lo se voltar para ele.

— O que é isso?

— Você está preso, Monji.

O banqueiro voltou a olhar para os guardas determinados, de espadas em punho, bloqueando sua saída. Seu punho fechou.

— As pessoas lá fora não estão só de passagem, não é?

— Não.

Dalki bateu duas palmas que ele tinha certeza de que seriam, com todo seu nervosismo, um fracasso total — mas saíram em alto e bom som.

Os dois policiais guardaram as espadas enquanto entravam no jardim de Monji, puxando linhas de agentes que formavam círculos ao redor dele. Quando terminaram o procedimento, duas linhas de policiais cercavam o banqueiro.

— Isto é um grande erro, Dalki! — Anunciou ele, avaliando cada um de seus adversários em potencial.

Dalki deu um último sinal com a cabeça.

Todos avançaram ao mesmo tempo, sem espadas para tornar um pouco menos fatal para eles mesmos um eventual controle que o mago exercesse sobre qualquer um.

Monji lutou como um bufão, desde o primeiro soco rangendo dentes à mostra. Seus punhos amassaram o rosto de dois policiais à frente, primeiro à esquerda, depois à direita, fazendo-os cair por cima dos que seguiam atrás, no segundo círculo.

Os golpes que chegavam a seus braços e pernas não pareciam ter efeito. Quando um homem agarrou seu pescoço por trás, praticamente pulando em suas costas, girou até jogá-lo em outro homem. Perdeu o equilíbrio no giro, e uma policial aproveitou a oportunidade para se jogar em cima dele, aterrizando com o cotovelo em seu peito. Outros, espertos, ajudaram a iniciativa procurando chutar suas costelas e suas coxas; outros, mais corajosos e preparados para assaltos desse tipo, prenderam seus braços. Conseguiram erguer seu tronco, puxando seus braços para trás até fazê-lo grunhir de dor ou de indistinguível raiva.

Um policial, que estava mais atrás do grupo, começou a derrubar os outros, tentando abrir caminho até o mago; outros correram até ele, jogando-o no chão e tentando-o manter lá.

Alguém conseguiu enfim prender-se a Monji pelas costas, os tornozelos apertando a barriga até que a chave de braço fizesse efeito e ele perdesse os sentidos.

O policial controlado deixou de se debater contra os colegas; pedia desculpas, ofegante, enquanto os companheiros davam-lhe tapas de incentivo no ombro e levantavam-se para ajudar a prender de fato o mago.

— Rápido, rápido! — Dizia Dalki, limpando o suor da testa.

Monji foi rolado de barriga para baixo, e um longo pedaço de madeira foi alinhado com seu corpo. As pernas e os braços foram amarrados; a boca, amordaçada, a goma escura passando também pelo poste. Dois policiais, um no lado da cabeça e outro no dos pés, ergueram-no pela madeira e acomodaram-no sozinho em uma charrete acoplada por um sistema de ferragens a uma outra, mais à frente, puxada por quatro yutsis. A charrete com o prisioneiro foi na frente, seguida de outras cinco cheias de guardas. Dalki foi em outra, que tinha um destino diferente.

Depois...

Aquilo estava sendo um desastre.

Estava cansado e abatido; acima de tudo, amedrontado. Nunca na sua vida política se sentira assim — e cada vez que deixava a raiva que tinha dos magos tomar conta de seu sangue, conseguia direcionar aquilo para algo bom. Era um projeto; um sentido de vida. Cuidar de um povo tão determinado em sua vontade de viver livre faz da liberdade a mais doce das coisas se ela estiver constantemente ameaçada.

Mas o curioso quanto à beleza da liberdade é que se ela não existir para todos, aquele que luta por justiça não estará jamais satisfeito.

Ele ria agora, olhando-se no espelho.

“Liberdade…”, pensou. Os magos faziam troça da liberdade, essa era a verdade.

Uma manhã e toda ilusão de que viviam em um mundo minimamente equilibrado se foi. A audácia das ruas — que continuava forte, agora com minérios de luz e fogueiras ao redor das quais cidadãos esperavam por um pronunciamento — era inversamente proporcional ao terror que, num Parlamento esvaziado e sem a luz de Roun, parecia impregnar-se nas paredes, grudar na pele, no cabelo, na roupa e debaixo das unhas.

Para alguns parlamentares, se os magos tiveram a coragem de sair das sombras e exigir obediência, é porque eles obviamente já tinham a vantagem. Alguma coisa lhes dera garantias de vitória, ou não teriam revelado prematuramente seu lado megalomaníaco.

Deveriam enviar os homens e mulheres de Al-u-een para uma batalha perdida? É claro que eles estavam dispostos a dar a vida pela liberdade — especialmente a liberdade de seus concidadãos. Mas a cidade poderia pedir que fizessem isso? Havia chances de vitória ou aquele era um pedido injusto?

Logo a minoria virou maioria e o Parlamento passou mais tempo discutindo como “frasear” a resposta que deveria dar ao povo do que, mais propriamente, a resposta, que se resumia à aliança com a Cidade Arcaica.

Minoru ouviu um estampido seco na porta do banheiro alaranjado e virou-se, alarmado; um grupo de cinco guerreiros de armadura entrou no lugar, cercando-o num semicírculo contra a pia.

O parlamentar encolheu, sem pensar, sem respirar, sem saber para qual dos elmos prateados olhar — as espadas levantadas e os escudos à altura dos pescoços prendiam Minoru, que pouco conseguia ver dos olhos por detrás das máscaras.

— Não é alvo! — Falou uma voz abafada que Minoru não conseguiu saber de qual deles vinha.

Saíram do banheiro, apressados, as ligas metálicas em seus braços e pernas chocando-se enquanto se afastavam para o corredor.

Minoru podia ouvir um som que não queria se fazer presente; propagava-se em passos cuidadosos, cochilos zelosos — o calor de uma agitação proibida que Minoru sabia estar ali. Tinha que estar ali.

Virou o corredor do banheiro e não precisou alcançar a porta para ver lá, na saída, que estava certo. Policiais uniformizados e soldados aparelhados do Exército de Al-u-een avançavam rápida e silenciosamente para a direita.

Minoru integrou-se ao fluxo, contando cerca de setenta pessoas. Estavam no primeiro andar, e provavelmente vinham da porta dos fundos.

Certamente haviam cercado o Parlamento, enviando forças para cada entrada, evitando a saída de prisioneiros em potencial. Apertavam agora cada região rumo ao foco central que era a Sala Pequena, onde sabiam que estavam reunidos.

— Com licença — Minoru chamou uma das últimas policiais do grupo, que virou o ombro para ele mas seguiu andando. — Quem vocês querem prender?

Ela sorriu, os olhos grandes de quem estava prestes a ganhar um grande prêmio.

— Um bando de magos!

E apertou o passo para acompanhar os colegas, deixando para trás um político sorridente que, ao parar para recuperar o fôlego, começava a rir um pouco de si mesmo.

Depois...

Dalki ouvia o discurso de Hideo de olhos fechados a partir das portas principais, com a testa encostada na ranhura que as separava. Sentia o fedor, a respiração, o peso dos guerreiros atrás dele. Seus joelhos deviam estar até flexionados.

— Al-u-een já passou por eras difíceis, e os magos, não vamos nutrir fantasias, são uma realidade em nossa cidade. É possível imaginar uma cidade sem magos? Talvez.

Imaginava a cena: nos sofás não sentavam-se mais figuras prontas a defender com unhas e dentes a espada e o martelo que ficava sempre abaixo do parlamentar que discursava. Sentavam-se, quase deitavam-se, abatidos, as figuras de capas negras abotoadas quase até o queixo. Controladas pelo desânimo, derrotadas pelo medo, conformadas pela possibilidade de não terem que enfrentar nada nem ninguém para voltarem para casa e fingir que aquele dia nunca aconteceu.

— E vamos ser sinceros, nossa polícia não faz um trabalho tão bom.

Dalki sorriu, voltando a se sentir confiante. Voltou-se para trás, pedindo que os guerreiros na linha de frente se afastassem um pouco.

— Os magos estão entre nós, e podemos viver bem negociando com eles. Se o que eles querem é melhor organizar Heelum, como eles mesmos disseram na mensagem hoje de manhã, então que deixemos que nos organizem! A padronização uma vez favoreceu o comércio entre as cidades, a vida comum que tantos de nós sabemos ser positiva. Vamos lutar contra eles, sim, claro… Na política, na participação no poder. Poder que agora, aliás, será o poder de Heelum, de Heelum inteira, de nossa terra, de nosso povo. Nós somos todos iguais e sabemos que só nos dividimos para fugir de um inimigo que não conseguíamos vencer. Mas nós vencemos, e agora a Cidade Arcaica, não por coincidência, quer nos reunir de novo. Não vamos desistir disso. Não podemos. Isso não é Al-u-een. E é isso que devemos dizer ao povo que nos aguarda. Essa é a resposta que devemos dar às suas dúvidas, a direção que devemos dar à confusão deles, o frenesi que faz com que não enxerguem um palmo diante do nariz, o…

Dalki abriu as portas apenas o bastante para passar por elas sozinho. Torceu para ser barulhento, mas mesmo sem o artifício Hideo parou e olhou para ele, seu rosto pálido concentrando ódio e desprezo por uma série de coisas que agora Dalki provavelmente encarnava.

— Dalki? Essa é uma reunião para parlamentares, não policiais.

— Na verdade, fiquei sabendo que esta é uma reunião de magos.

Vários políticos estavam de pé, como ele não previra. Observou, com incógnita felicidade, os braços cruzados de muitos traidores da cidade irem ao chão, aos bolsos e até mesmo juntarem-se, certamente sem nenhum conforto, nas costas.

Já os parlamentares abatidos sentavam-se, parecendo acabar de acordar ao virar o pescoço para trás com tênue curiosidade.

— Sim, nós já tomamos nossa decisão, policial, e Al-u-een formará uma aliança com a Cidade Arcaica. Então se quer dizer que nos tornamos magos por nos aliarmos a eles, então, bem, que seja. Poupe-nos da sua ironia, porque aqui sua opinião não tem força.

— Não. Não é isso que quis dizer. — Virou-se para a porta. — Agora!

A porta foi escancarada pelos guerreiros que avançaram na sala a partir das paredes, marchando rápido para forrar o lugar com escudos. Pelo centro do corredor de onde vinham começaram a passar os primeiros policiais.

Antes mesmo de Hideo conseguir controlar seu espanto, um casal de políticos correu para a saída dos fundos da sala, à diagonal do púlpito; logo voltaram de costas depois de bater com força nos escudos que surgiam de dentro do corredor para onde corria a saída. Os parlamentares sentados levantaram-se, alarmados, começando a entender que aquele não seria um lugar pacífico por muito tempo.

— Prendam! — Clamou Dalki.

Os policiais abordaram em grupos os primeiros parlamentares por todos os lados da sala, prensando-os para os fundos. Os alvos da ação recuavam só até o ponto de sentirem as pontas das espadas dos guerreiros do exército. Quando voltavam a olhar para a frente, seus braços já estavam juntos nas costas, prontos para serem amarrados. Um segundo grupo de policiais entrou na sala, trazendo mais longas estacas de madeira para a sala.

— Isto é um ABSURDO! — Bradou Hideo.

Dalki puxou dois policiais próximos a ele pelos braços.

— Comigo!

Derrubou com o ombro um mago que se debatia, com as mãos amarradas pela frente, e seguiu caminho subindo no púlpito por um lado. Hideo desceu para o outro, estabanado, prensado na saída dos degraus por dois escudos. Patinou no pequeno tapete azul no qual caiu, achando estranho que os soldados não se abaixaram para pegá-lo.

Sentiu a camisa ser puxada e repuxada, seus braços segurados, e viu-se nariz a nariz com o chefe de polícia.

— Agora você vai ver como trabalhamos bem!

Dalki jogou-o no chão, mais policiais vindo amordaçá-lo e ligá-lo à madeira.

Um soldado começou a berrar em um dos cantos da sala; policiais distraídos por ele foram chutados por prisioneiros que recomeçavam a resistência.

— GUERREIROS! — Berrou Dalki, seguindo para lutar com um parlamentar preso que, pegando uma espada solta no chão, conseguiu se soltar.

Os dois guerreiros ao lado do soldado que berrava o prensaram contra a parede, tentando tirar seu elmo. Um deles logo deixou a posição, dando alguns passos para trás; quando questionado, fincou a espada no guerreiro que ainda queria conter o primeiro rebelde.

Dalki desarmou o político, que lutava mal; deixando a espada em uma mão, desferiu um gancho contra o queixo do adversário, que caiu virando um sofá para trás.

POLÍCIA — Berrou ele, frustrado. — DERRUBEM OS MAGOS PRIMEIRO!

Os parlamentares presos, ainda acordados, debatiam-se no chão, tentando se libertar; policiais que amarravam novos alvos abandonavam os postos para sufocar os antigos, deixando-os fora de combate.

A luz abacate dava um tom nauseante à bagunça, chamando à superfície a enxaqueca entorpecente de Dalki. Os políticos que não eram alvo da ação terminaram uma barricada de sofás no chão à esquerda do púlpito, que começou a ser derrubada para trás por soldados próximos à saída dos fundos, controlados pelos políticos magos para se voltarem contra suas ordens. Os inocentes chamavam por Dalki; os que tinham espadas começavam a tirá-las das bainhas, mesmo que soubessem que não as usariam tão bem quanto os inimigos.

— TIREM OS MAGOS DA SALA! — Dalki sacou sua espada, defendendo-se do golpe de um policial completamente desesperado. Correu para e entrada depois de desviar de outros dois. — REFORÇOS… SUBAM!

Nenhum soldado restava nas paredes, divididos que estavam em grupos controlados e não-controlados; atrás da tropa ainda com Dalki, os parlamentares tinham cada vez menos lugar para onde recuar.

Dalki viu que duas mulheres que deveriam ser presas pegavam espadas e escudos do chão e aproximavam-se da saída dos fundos; tentou não se preocupar com a saída, que ainda devia estar bem guardada. Olhou para o canto à direita a tempo de ver dois policiais cortando as cordas que prendiam as pernas de um mago à madeira.

Correu para lá pulando por cima de um sofá e, com um chute nas costelas de um e um soco no rosto de outro, deixou-os caídos por tempo o bastante para refazer a corda.

Eu vou fazer você CAIR! — Vociferava o parlamentar loiro.

Dalki terminou um nó básico quando começaram as tonturas; caiu por cima das costas do prisioneiro e rastejou até conseguir prender o pescoço do inimigo.

— Vo… Cê… Vai… — O mago tentava dizer.

Dalki sentiu suas pernas formigarem, um colorido absurdo na visão completando os arrepios quentes que não davam trégua do pescoço à cintura. Não sabia mais o que acontecia para além dos seus braços. Estes ele manteve firmes.

Ofegava em cima do corpo inconsciente do inimigo, conseguindo rolar para o lado a ponto de ver os novos soldados entrando pelas portas frontais. Queria levantar e coordenar a operação, mas conseguiu só se apoiar nos cotovelos, sabendo que não ia ficar de pé de novo.

Procurou prisioneiros pelo chão; viu um grupo de policiais do outro lado da sala tirando da sala uma mulher presa, abrindo caminho por entre os novos policiais que chegavam.

— Aq… Aqui…

Dalki tentou falar, mas só conseguia sussurrar de um jeito estranho. A língua não respondia à vontade.

O mundo girou de cabeça para baixo e ele, de barriga para cima; obedeceu à vontade de fechar os olhos quando um círculo de policiais preocupados, gritando coisas que ele não entendia mas que machucavam seus ouvidos, tornou-se a última coisa que ele viu antes de apagar.