Sul

Sequer ousou se perguntar o que aconteceria se parasse, caísse no chão seco e esticasse braços e pernas de qualquer jeito, pensando em Caterina, Kerinu, Myrthes e Ramon. Deitado, com a cabeça desconfortável, talvez até tonto, diria a si mesmo que não entendia muito de prisões, mas que o conceito começava a ficar familiar. Preso por alguns dias em Prima-u-jir, de iaumo soterrado por um bom tempo em Neborum, estava preso agora também aos próprios pensamentos repetitivos.

Kerinu havia se sacrificado por ele. E ele, no calor da batalha, aceitou o sacrifício de bom grado. Quem faria uma coisa dessas? Seria mentira demais dizer que não poderia, na verdade, ter feito outra coisa?

Sentiu uma dor chata na parte de baixo da garganta e uma corrida de gotas de suor para chegar à gola das vestes azuladas. Ele não estava deitado no chão e não podia deitar. Mas abria a porta para aqueles pensamentos, esperando que um dia pudesse não se sentir tão culpado, tão pequeno e tão inútil quanto agora.

Depois...

O lado bom das colinas naquele trecho da estrada era que sempre havia uma forma de se esconder com relativa rapidez se alguém chegasse. Muitos foram os mercadores, algumas foram as charretes de transporte, e felizmente nenhuma da polícia ou do exército, que passaram por ali. Pensou que se conseguisse apenas andar com a mesma rapidez com a qual se escondia, chegaria mais rápido ao destino. Ou talvez tivesse um infarto, já que seu coração quase saía pela boca cada vez que o chão tremia por causa dos yutsis.

À noite, desistiu da ideia de caminhar pelo caminho e se esconder nas laterais — parou em definitivo nas margens e assistiu as charretes cortarem o caminho na escuridão. Cada uma carregava um minério de luz, que trepidava e fazia as sombras das árvores se mexerem num frenesi ardoroso. Lamar não gostava daquelas sombras.

No outro dia continuou fora da estrada. Logo chegaria à Fortaleza Sul da cidade, e deveria passar o mais longe dela possível de qualquer forma. Ao cruzar uma rua que saía da estrada principal, seguindo para o Leste, lembrou que alguns de seus ex-alunos moravam em uma jir perto dali. O destino da estrada era justamente a jir Vigia, uma grande confluência de casas, comércios e até prédios como postos policiais e um pequeno teatro. Lugar mais próximo à Fortaleza Sul, a pequena jir havia se tornado uma verdadeira potência regional.

O caminho até lá seria fácil. O vento gelado já dava lugar, pouco a pouco, a uma sensação não tão irritante. Passou por algumas plantações que foram ficando cada vez menos selvagens e aleatórias. Ao entrar em uma pequena malha de ruas, pegou um caminho para o Norte, onde encontrou a casa de um ex-aluno: pequena, baixa, com paredes alaranjadas e coberta por telhas vermelhas com pintinhas negras.

Foi recebido por um garoto. O próprio aluno surgiu de algum outro cômodo e fechou a porta numa batida tão rápida que Lamar quase não o viu. Foi embora ouvindo-o ralhar com o menino, explicando que ele não deveria mais abrir a porta para aquele homem.

Lamar encontrou uma ex-aluna, que foi tão receptiva quanto o último. Depois encontrou o terceiro, meio que por acaso. Ele andava de volta para casa e Lamar o seguiu. Ele não quis que Lamar ficasse, e olhava para os lados como se pudesse ser o alvo da prisão daquela vez. Lamar viu que ele não morava sozinho; na verdade, tinha alguns filhos e morava com uma companheira que não parecia de todo contente com sua presença, olhando de relance de quando em quando. Lamar poderia jurar que pelas costas ela fazia gestos para o rapaz. Por mais que não o quisessem ali, permitiram que Lamar levasse algo para a viagem. Lamar não pegou muito — não havia muito para pegar, de qualquer forma — e foi embora agradecendo pouco para não se alongar.

Saiu de lá sentindo-se como um rato. Um ser desprezível. Derrotado, falido, fracassado; sua cabeça dava voltas e arranjava novas formas de se insultar, com o vocabulário rareando aos poucos. Não tivera tanto contato com os ex-alunos assim, ou pelo menos não se comparado ao tempo com o homem que deixou pra trás em Prima-u-jir… Mas a forma como evitaram-no, preferindo dizer que nem o conheciam…

Ele havia falhado por completo, agora isso era um fato. Foi um aprendiz de mago ruim, um mago ruim, um filho ruim, um companheiro ruim e um pai ruim. Agora era também um mestre ruim.

Seus alunos não tinham culpa. Estavam se defendendo, como ele também deveria ter feito. Mas se todos apenas se defendessem e deixassem os magos dominarem Heelum por completo, de quem seria a culpa depois? A quem recorreriam, de quem reclamariam? Teriam coragem, todos, de pôr a culpa no espelho olhando-o de frente?

Depois...

Desde que saiu de Vigia foi para longe da fortaleza, a sudeste, tentando reencontrar a trilha já no trecho em que ela seguia para Den-u-pra. Foi um dia de sol sem trégua, atípico para inasi-u-sana. Os campos de vegetais altos garantiam quase nenhum contato humano para lhe lembrar da paranoia que era ainda estar na cidade em que se está sendo caçado. Um tempo depois recuperou a estrada e, agachado próximo a alguns arbustos folhosos, assistiu a mais alguns desfiles de charretes comerciais correndo com pressa para o porto fluvial e, no sentido contrário, para Prima-u-jir.

Suspirou quando viu que tinha só mais um pouco de água — precisava demais dela. Abriu o cantil e num gole acabou com o gole que havia.

Quando abriu os olhos de novo, a memória do líquido fugidio já escapando aos sentidos, pensou na armadilha que era acabar cedo demais com as provisões. Mas ceder àquela armadilha era inevitável? Todas as armadilhas eram inevitáveis? De que armadilha ele falava agora — da que foi armada para ele em Prima-u-jir? Era culpa sua ter ido à casa de Byron ter vingança? Qualquer um não teria feito a mesma coisa em seu lugar?

O que a Rede de Luz teria a dizer sobre o desejo de vingança que sentira?

Deixou-se cair sentado para trás. Limpou as mãos sujas de terra nas vestes igualmente sujas, e xingou baixinho por estar tão abatido e sonolento. A noite caía rápido. Ele não conseguia pensar naqueles caminhos e descaminhos do arrependimento sem balançar a cabeça pra frente e para trás repetidamente. Tinha uma certeza sinistra de que não resistiria à tentação do sono.

Depois...

Acordou assustado enquanto o sol nascia com tranquilidade. A charrete responsável por acordá-lo sem querer talvez fosse a primeira do dia, talvez fosse a décima. Por sorte nenhuma havia percebido seu corpo quase desmaiado naqueles arbustos. Chacoalhou o que pôde da sujeira e seguiu em frente, com o estômago roncando e a parte de trás da cabeça latejando. Terminou o dia parando em um lugar de onde podia ver o sol se pôr ao lado do contorno da Montanha dos Mestres.

Chegou a uma nova jir apenas na noite do último dia de inasi-u-sana. Havia andado demais e comido de menos, e embora não estivesse com paciência para tentar a sorte com pessoas que não gostavam de andarilhos noturnos, sentiu que podia experimentar pelo menos uma vez.

Não teve medo de andar pelas ruas apertadas do vilarejo. Não era procurado pela polícia, nem por mago algum; não ali. Não havia quintais e jardins; pisar para fora da porta já seria pisar numa rua em que duas charretes não passariam ao mesmo tempo. Grama crescia um pouco além do batente até virar planta amassada e, mais para o meio, nem se dar ao trabalho de crescer. Cada casa tinha um minério de luz acima da porta da frente, o que tornava a trama do bairro visível de longe.

Parou em uma casa vermelha com um minério rosado. Deve tê-la escolhido por preguiça, já que a porta estava aberta e um jovem sentava-se à frente, com uma guitarra de um azul enjoado no colo. Ele levantou a cabeça.

— Você quer alguma coisa? — Perguntou.

— Oi, eu… — Limpou a garganta. — Sim, eu gostaria de… Um pouco de água e comida, se fosse possível.

O garoto, moreno e com um liso cabelo escuro cortado num círculo perfeito, comprimiu os olhos e sentou-se mais reto na cadeira.

— Você é um mendigo?

— Não, não! Sou um viajante.

— Então é um mendigo que não mora numa cidade só.

— Não, eu… Estou sendo… Perseguido, n-na verdade.

Ele olhou para o lado da rua de onde Lamar havia vindo.

— Por quem?

Lamar planejou a resposta.

— A-alguns magos, eu… Eles não gostam de mim. Agora minha casa está queimada e eu tenho que encontrar minha mulher e meu filho, e eles… — Demorou ao pesar a verdade das próximas palavras. — … Precisam de mim.

O aparente dono da casa olhou mais uma vez para os lados, como se estivesse prestes a fazer algo de errado. Matar Lamar a facadas ou dar-lhe um pouco de água?

Por um segundo, um frustrante momento em que uma sensação pesada descia pelo peito para se alojar na barriga, Lamar desejou ser um mago. Não um alorfo, especialmente não um alorfo que até alguns dias nem entrava em Neborum, e sim um mago que pudesse influenciar aquele garoto. Fazê-lo sentir pena do pobre homem.

Mas, ao invés disso, teria que respeitá-lo e se agarrar à chance. À indeterminação, à liberdade que o guitarrista tinha de lhe negar comida, se assim quisesse.

O garoto apertou a boca e começou a tirar a guitarra do colo. A mão escorregou da base inferior para as cordas e um som forte, como o de um pássaro ferido, ecoou pelas ruelas da jir mais rápido do que a palma da mão pôde fazer silêncio. Ele fechou os olhos e suspirou um xingamento chateado, deixando o instrumento apoiado na parede com cuidado.

— Eu vou lá pegar alguma coisa. — Começou a se mexer mas parou e perguntou, apoiando a mão na porta pelo lado de dentro da casa. — Como posso saber se você não é um mago tentando me enganar?

Lamar riu, olhando para o chão. Era um riso amargo e seco, mas era o primeiro em dias. Era como desmontar seu semblante com um chute; repentino, árido. O tipo de coisa que transformava vidas.

— Se eu fosse um mago, eu… Acho que… Não estaria aqui, implorando por água.

Depois...

Andar despercebido na multidão estava sendo fácil. No começo certamente o foi, já que não havia tantas pessoas no anel externo do porto fluvial, região rural com ruas bem cuidadas e nomeadas. Mas o núcleo da jir, marcado pela Torre do Exército e pela gigantesca ponte sobre o Rio do Sul, tornava-se no virar de uma esquina um lugar completamente diferente.

Cheias de mansões de cores fortes e grandes prédios comerciais de corvônia, as ruas eram tomadas a todo momento por charretes apressadas, caixas pesadas e toda sorte de pessoas, de profissionais a moradores, passando por viajantes, marinheiros, militares e mendigos. As caixas eram particularmente importantes para o cenário, que parecia ser feito mais delas que de todo o resto: largadas pelos lados, empilhadas, grandes ou pequenas, amarelas ou vermelhas, com escritas que Lamar não entendia em garrafais letras azuis ou verdes; a maioria inteira e lacrada; algumas quebradas, abertas, vazias. O tipo de coisa que Ramon poderia aproveitar para brincar de esconder.

A movimentação não lembrava Lamar de Kerlz-u-een, e muito menos de Prima-u-jir, com seu centro previsível e seus cidadãos de sempre. Pessoas com roupas tanto do Leste quanto do Oeste carregavam para cima e para baixo olhares ora severos, ora escorregadios. Empregando diferentes níveis de pressa e cuidado, trombavam entre si, conversavam em grupos perto das portas das casas, trocavam ou vendiam segredos com os ombros encostados em qualquer parede, muitos oferecendo diversos serviços a preços autoproclamadamente imbatíveis.

O porto fluvial de Den-u-pra ficava muito longe da jir central, mas era importantíssimo para a cidade. Controlava o fluxo do Rio do Sul para o mar, e toda a produção de Kerlz-u-een que saía de lá por navios passava por ali. A Torre do Exército, com um grande sino acobreado no topo exposto, cuidava do tráfego marítimo, e a ponte, construída com fortes bases de corvônia e treliças de aço, tinha uma passarela elevada, generosa com os navios que passavam por debaixo dela.

Lamar abriu caminho pelos grupos esparsos e por duas correntes de pessoas em trajes coloridos, com rostos altivos — uma que entrava na ponte e outra que dela saía. Entrou na zona portuária e diminuiu o passo, chegando numa região ainda mais cheia, em que cores mais neutras e cabelos mais oleosos dominavam a paisagem. Cheiros inquietantes e sons mais breves, humanos ou mecânicos, mas que substituíam a fala, martelavam na cabeça do alorfo; as mãos e pernas daquelas pessoas faziam tudo com rapidez, e eram tantas coisas diferentes que dava tontura tentar discernir tudo que faziam.

Os navios enfileirados no rio eram relativamente pequenos. Suas velas indicavam cores preferidas, marcas de experiência e cidades de origem, e criavam um espetáculo à parte se vistos de lado, na sequência, ou de longe, de cima da ponte. Havia um barco maior mais ao fundo, que transportava não apenas mercadorias e a mínima tripulação necessária, mas também passageiros em direção a outras cidades — uma placa garantia sua identificação, pelo menos para quem sabia ler.

Havia sempre um ou dois barcos daqueles por ali. Construídos com madeira nobre, entalhes perfeitos percorriam suas bordas, e um calado grosso e profundo lembrava pescoços grandes demais dando suporte a sorrisos felizes, aqueles que são sempre acompanhados por olhos satisfeitos. O navio era um daqueles grandes sorrisos.

Só havia um naquela hora. As velas, agora recolhidas, atraíam olhares de todo o porto quando eram enfim libertadas, panos tão comuns que conseguiam emular tão bem, em sua forte vermelhidão, alguma forma de veludo embebido em dignidade. Apesar dos bons serviços e da aparência extravagante, viajar dentro dele não requeria tanto dinheiro. Como Lamar não tinha dinheiro algum, o navio era caro demais.

Do píer até o acesso uma pequena passagem de madeira fazia a conexão com o navio. Havia uma mulher à frente da passagem, as mãos guardadas nos bolsos de um longo casaco verde-musgo bem cortado. Seu rosto forte, assinalado por sobrancelhas finas, estava tranquilo. Ela estava definitivamente trabalhando ali, Lamar concluiu, mas não parecia ter pressa ou entusiasmo. Talvez fosse a capitã do navio, regulando a entrada de passageiros e mercadorias. Do lado estava uma outra mulher, mais alta e mais suada, de pele mais clara, usando um vestido azul marinho que, na imaginação de Lamar, não combinava muito com portos e navios. Embora tivesse um rosto menos ameaçador, tinha feições mais preocupadas.

Lamar observou a vizinhança, tomando consciência de si e enrubescendo pela distração. Estava encostado em um poste sujo e mal lixado na ponta do qual estava um grupo feio e assimétrico de minérios de luz. Ao seu redor e ao nível do rio, a vida seguia; à frente, a uma distância boa o bastante, o grande navio.

Ele teria que usar magia. Só não sabia como.

Viu-se dentro do próprio castelo, propositalmente em sua torre mais alta. Deu uma volta no lugar, vendo que tudo ainda estava chamuscado pelo incêndio provocado por Byron. Deu de ombros, pensando que teria que se preocupar com aquilo mais tarde — se é que precisasse se preocupar. Ao se voltar para a janela, estancou com a boca aberta por alguns segundos de estranha admiração.

Do lado de fora dezenas de castelos moviam-se pelo terreno, campos inteiros de gramíneos sendo esmagados para debaixo dos prédios para se levantar novamente do outro lado. Os castelos dançavam nas configurações mais estranhas, desajeitados gigantes de pedra e alvenaria — alguns grandes obras da arquitetura, outros tendas reforçadas com muita madeira e muros altos. Desviavam-se entre si, atravessavam a paisagem abrindo caminho sabe-se lá como, rodopiavam e até mesmo colidiam uns com os outros, o que sempre fazia uma nuvem de poeira subir e parte dos danos cair, destruição recuperada num piscar de olhos.

Lamar voltou a Heelum com medo de que alguém o visse com o rosto tão fora de contexto. Ninguém parecia estar olhando para ele, mas por outro lado também não poderia ficar muito tempo com seu iaumo parado em frente à janela.

Sentou no chão com a coluna encostada, seca e desconfortavelmente, no pobre poste. Voltou a Neborum para sair de perto da janela e já voltou a atenção para o navio em Heelum.

A capitã recebia um pedaço de papel de uma mulher, esta mais velha e com roupas negras mais pesadas. Quando terminou de ler o que a carta dizia, à frente de um olhar franzido da guarda-costas, devolveu o papel e, sorrindo, indicou o caminho para dentro do navio.

Lamar olhou para o lado, achando que um homem careca estivesse olhando para ele. Ele logo sumiu na direção da saída do porto.

Aquilo era loucura.

Limpou as palmas das mãos nas vestes sobre as coxas, bufando seu crescente nervosismo para fora da boca. Ele não conhecia técnicas complexas. Ele teria que causar uma dor de cabeça em alguém ou… O que é que ele poderia fazer com água em termos de técnicas? Como nunca aprendeu nada assim, sabia que não adiantava sequer tentar.

Aquilo era loucura.

Depois...

Certamente deveria haver algum relógio por ali. Um porto precisa de relógios. Mas para onde quer que Lamar olhasse, não via nenhuma indicação mais precisa das horas. Tudo o que ele podia contar se resumia à quantidade de pessoas que entrava no navio, e portanto quantas vezes o mesmo ciclo de pensamentos lhe ocorria.

Primeiro, adivinhava qual das pessoas que caminhavam pela área estava indo para o navio. Depois, vigiava a janela em Neborum na tentativa de verificar qual castelo lhes correspondia. Depois da terceira leva de passageiros nenhuma das tarefas ficou muito difícil. Visualizava o plano. Destruiria as portas de um dos castelos com fogo e então entraria no castelo e subiria até a torre mais alta, onde causaria um incêndio que começaria uma grande dor de cabeça para a pessoa que teve o castelo invadido.

Era aí que começava a sentir o coração bater mais rápido, numa mistura de mundos em que os batimentos mais pareciam um tambor no andar de baixo no próprio castelo. Ele tirava os olhos da janela e sentava no chão, com os punhos nos pisos — era como se pudesse sentir cada coluna daquela estrutura. Tentava reunir coragem, inspirando e expirando, inspirando e expirando, para ir adiante com o plano. Só encontrava desculpas para evitar se mexer.

Daí logo vinha o medo de parecer estúpido: voltava para Heelum, verificava se podia realmente fazer aquilo, e constatava que a capitã já havia terminado de ler a carta, ou de contar as barras de ouro, e as presas fugiam para dentro do navio, onde estariam seguras, já que seriam inúteis para Lamar.

Mas outro problema também precisava ser confrontado. Qual seria o próximo passo? Depois que alguém começasse a ter dores de cabeça, o que fazer? Não lhe parecia, com suas investigações preliminares, que as duas mulheres guardando o navio fossem magas, mas sempre havia uma chance… Talvez elas pudessem facilmente resolver o problema — e mesmo que não pudessem, o que é que Lamar faria, afinal?

Lamar chacoalhou a cabeça e apoiou a testa com a mão esquerda. Suspirou, tonto por alguns segundos. Aquele navio partiria em breve e Lamar, indo ou ficando, estaria em péssima situação. Preferia não ficar.

Ele não podia correr para dentro do barco pois seria removido à força. E não sabia como influenciar a capitã, ou a guarda.

Começou a pensar naquela breve e simples técnica para causar conforto a alguém. Era como um abraço — foi o que dissera a seus alunos, não foi? Tentara dar-lhes confiança para fazer isso mesmo sem visitar Neborum. Seu sucesso foi uma mentira de Tornero, mas… Lamar conhecia a técnica. A técnica de verdade. Junto à dor de cabeça vinda do fogo, era uma das poucas que Byron tivera tempo de ensiná-lo antes de considerá-lo indigno de magia.

Riu de sua desgraça moral, levantando-se logo em seguida. Apoiou-se no poste como um macaco amedrontado e sem equilíbrio. Começou a andar em direção à capitã. Teria que conhecê-la; tornar-se, em sua mente, uma pessoa amigável — algum preculgo seria capaz de fazer isso, mas ele teria que fazê-lo sem magia — e forçar sua compaixão… Através de uma sensação reconfortante. E pedir por um lugar no navio.

Aquilo estava além da loucura; invadia ofensivamente o território da idiotice.

Os pelos na nuca de Lamar se eriçaram. Virou o pescoço para a direita, mas sabia que não era para Heelum que deveria olhar — talvez extrema intuição fizesse parte das técnicas mágicas, mas o castelo cinzento que se aproximava do da capitã causava certo alvoroço. Vinha distante, em segundo plano, com duas torres altas e recuadas como chaminés gigantes saindo do bloco principal, que era um grande prédio feio pontilhado por janelas quadradas, dispostas em três andares. Estava muito atrás, mas vinha em alta velocidade, comendo grama pelos desvios entre os outros castelos.

Lamar despertou de sua meia passada em Heelum e quase caiu sozinho para a frente. A capitã já estava de pé, atendendo a primeira pessoa em uma fila que se formava para entrar no navio. Mais atrás, no porto, um homem enrolado em um pesado casaco-xale rosa, que cobria quase completamente seu cabelo negro, aproximava-se do navio. Não corria para chegar depressa, mas ele definitivamente estava agitado, varrendo a região com um olhar num instante. Lamar podia apostar que ele andava rápido porque estava com medo.

Lamar voltou a Neborum e olhou uma última vez para o castelo da capitã. Voltou-se para o outro, cinzento, e viu em uma das janelas do segundo andar alguém andando dentro dele. O iaumo olhava para todas as direções, desconfiando de cada castelo, sapateando sem rumo entre os ângulos da vista, como se procurasse — e procurasse não encontrar — alguém.

Ele era um mago. E estava agora em último na fila, atrás de quatro pessoas.

Lamar saiu de seu castelo descendo as escadas da torre e disparando porta afora. Venceu a distância sem sequer percebê-la, e, sem nem olhar para os lados, conseguiu fazer fogo bastante para estourar as trancas dos portões escuros — que, notou Lamar assim que passou por eles, já pareciam estar bem precários antes disso.

Olhou para o iaumo que descia num atropelo degraus à direita num dos cantos do saguão invadido, ocupado por sujeira e bandeiras negras que estavam longe de seus dias de glória.

Vários planos passaram pela cabeça de Lamar, mas só um deles o motivara a ir até lá. De qualquer forma, não podia esperar para ser derrotado e exposto ou então jamais descobriria se estava certo.

Partiu para o ataque. Viu o rosto de seu alvo exibir incredulidade como se berrasse em insanidade e silêncio com seus olhos azuis aguados: “Quem é você?!”.

Instantes depois viu o rosto inimigo iluminado pela chama; rosto separado da possibilidade de ser queimado e vencido apenas por um movimento firme do antebraço e então…

E então veio o soco.

Lamar piscou forte, acordando em Heelum como se tivesse chupado limão. Na fila à frente do navio, o homem que havia acabado de nocauteá-lo olhava para ele com o mesmo olhar de descoberta do castelo.

Marinheiros, mercadores e outros tinham que desviar de Lamar para passar por ali, mas ele não se incomodava. Agora precisava jogar aquele jogo.

Lamar voltou a Neborum, mas assim que chegou um chute no rosto o jogou com força contra a parede do saguão. Não teve tempo de engolir o que quer que estivesse em sua boca, já que a mão do outro mago subiu por seu colo e escorregou até o pescoço, tirando-o do chão.

PorFavor… — Lamar tentou falar.

O mago o largou, e apontou para seu rosto com um dedo que tremia.

Dier mandou você?

— Eu não conheço nenhum Dié! — Começou Lamar, arcado para frente, massageando o pescoço. — Por favor, me ouça… V-você é alorfo, não é? Meu nome é Lamar!

Ainda havia mais duas pessoas na fila. Olhou com discrição para um Lamar que arfava entre os transeuntes, a língua quase para fora e o olhar perdido. Completamente alheio a Heelum.

— Quem é você?

— Sou um alorfo de Prima-u-jir com bomins atrás de mim e preciso encontrar minha família de novo! — Despejou Lamar, apressado, apoiando-se na parede. — Você é um alorfo?

— Por que acha que eu sou um alorfo?

Menos um na fila.

— Você não tem muito tempo, por favor me ajude!

Você não tem muito tempo! — Retorquiu o outro, franzindo o cenho.

— Sim, e-eu não tenho!

Chegara sua vez; ele abriu a boca, na surpresa de se encontrar frente a frente com a capitã, que inclinou seu rosto para o lado na espera de alguma coisa.

— Carta de ingresso? — Perguntou ela.

— É… Não, eu…

“Por favor!”, ouvia Lamar berrar no fundo de sua cabeça.

A guarda virou o pescoço para olhá-lo menos de soslaio.

“POR FAVOR!”

— Eu vou pagar agora.

— Certo.

— Para duas pessoas.

A capitã balançou a cabeça afirmativamente, enquanto a guarda começou um aviso em tom de dúvida:

— Estamos quase saindo, e se a pessoa não esti…

— Estou aqui. — Disse Lamar, apresentando-se ao lado do desconhecido com os braços cruzados.

A capitã pegou as quatro cartas seladas que o homem havia tirado de um bolso interno das vestes, por debaixo do casaco, e o puxou para perto.

— Se você está sendo controlado — Sussurrou em seu ouvido. — eu posso ajudar…

Ela desfez o aperto com um sorriso bondoso no rosto. Quando virou-se para Lamar o mesmo sorriso se alterou como se ela soubesse o que Lamar fizera de errado e os dois fossem cúmplices eternos.

— Vamos. Entrem. — Comentou, impaciente, a guarda atrás da capitã.

Depois...

Lamar abriu a porta do pequeno compartimento que o ouro, representado pelas cartas do banco, lhes alugou: era uma cabine dupla, cubo com dois sofás duros opostos um ao outro que, com travesseiros e muita imaginação, tornavam-se camas. No meio da cabine e entre os sofás havia uma mesa amarela que não deixava muito espaço para as pernas. O lugar era iluminado por um minério amarelado dentro de um compartimento da parede que podia ser fechado, apagando assim a luz.

Lamar largou no assento a sacola surrada e sentou perto da janela. Não queria perguntar se o colega tinha comida ou se estava pensando em comprá-la em breve, mas tinha tanta fome que ela já havia evoluído para uma espécie de letargia muscular no estômago. O órgão argumentava, como se mais provas além de mal conseguir manter os ombros sustentados pelos braços fossem necessárias, que o corpo estava fraco demais.

O benfeitor sem nome tirou o casaco e o colocou no canto do seu lado da cabine. Sentou, deixando as mãos entrelaçadas por sobre a mesa e os olhos fixos nelas. Desfazendo o entrelace, perguntou:

— Como vamos fazer isso? Em Neborum ou aqui mesmo?

Lamar já havia saído do castelo dele diretamente para o seu apenas por desejar isto — uma “característica” da magia que muito lhe agradava. Não queria ter que voltar para Neborum de novo, pelo menos não naquele dia.

— Eu preferia falar aqui.

— Tudo bem.

Ele concordou com a cabeça algumas vezes antes de olhar diretamente para o colega. Lamar percebeu que eles pareciam ter idades semelhantes; o mesmo rosto com uma barba que obviamente não lhes pertencia, tendo crescido e resistido por pura força das circunstâncias; a mesma pele sem muitas marcas, a dele mais escura que a de Lamar. O cabelo dele, de um preto brilhante, crescia para todos os lados como capim selvagem. Lamar pensou ter visto um sorriso por um instante.

— Meu nome é Nereda. Estou fugindo e gostaria de saber se posso confiar em você. Eu paguei pela nossa entrada no navio e eu tenho dinheiro, então você está nas minhas mãos. Além disso, não parece que vou ter muita dificuldade com você em Neborum, se eu precisar lutar. Então agora eu quero saber quem você é e o que você quer comigo.

Lamar engoliu em seco, desviando o olhar.

— É… Eu… Meu nome é Lamar, e… — “Eu já disse isso para ele!” — E… Eu sou um alorfo de Prima-u-jir.

— E você precisa encontrar sua família.

— S-sim… Você é m-mesmo um alorfo, ou…

— Sim. Como você sabia? — Perguntou, abrindo a guarda.

— Eu percebi que você estava fugindo quando vi você chegando perto do navio, e… Vi que você era um mago porque vi você em Neborum dentro do castelo, então… Eu corri um risco.

— E por que me atacou?

— Porque você estava assustado, e eu pensei que… Se alguém entrasse no meu castelo e quisesse conversar comigo eu não ia esperar para conversar, e-eu atacaria de uma vez! D-digo, fugindo, com medo…

— Então quis me atacar primeiro e perguntar depois.

— S-sim, é… Me desculpe.

— Tudo bem… De quem você está fugindo? — Perguntou ele.

— Da polícia de Prima-u-jir.

— Colocaram eles atrás de você?

— Sim.

Ele balançou a cabeça.

— Quem você quer encontrar? Filhos?

— Minha companheira e meu filho, eles… Eles foram para Imiorina porque eu fugi da prisão de Prima-u-jir e, se alguém seguisse eles, não me encontrariam. Então eu fui para Kerlz-u-een com o irmão da-da minha companheira e o nosso plano era voltar para Imiorina passando por Prima-u-jir.

— Mas isso deu errado, porque você está aqui.

— Sim. Foi… Foi horrível, uma… Meu amigo, o-o irmão da minha companheira, tinha uma amiga alorfa na cidade e ela acabou sendo controlada e dizendo que eles tinham morrido, e-e que um dos bomins que estava atrás de mim ateou fogo na casa.

— Mas eles tinham fugido?

— Sim, foram para Imiorina. Mas eu fiquei tão… Fui até a casa do bomin, eu queria…

— Vingança, é claro…

Lamar não resistiu à sugestão. Era a conclusão mais óbvia.

— Sim… Então a gente lutou, e eu consegui fugir.

— E achou que seria óbvio demais ir para Imiorina pelo caminho mais rápido.

— Sim… É, sim.

— Mas você veio, sem dinheiro, pegar um navio do porto para Den-u-pra… Você vai para onde depois?

— Torn-u-een, Den-u-tenbergo… E Imiorina.

Como queria fazer isso tudo sem dinheiro?

— Eu… Não sei.

As pálpebras de Lamar começavam a se fechar. Nereda mantinha-se sério, mas já não parecia mais hostil. Desgrudou da mesa e foi para trás, descansando no encosto duro do sofá, e olhou para o teto.

— Desculpe pelo que disse antes.

Lamar balançou a cabeça, sem força pra fazer disso um movimento breve.

— Você só estava falando a verdade. Eu que tenho que pedir desculpas pelo ataque, eu… Estava desesperado… Precisando chamar atenção…

Nereda riu e fechou os olhos, encostando também o topo da cabeça na madeira acima do sofá. Pensou em dizer que finalmente podia relaxar; que tinha vivido com medo nos últimos tempos e com terror nos dias mais recentes; que os alorfos deveriam viver mais juntos e ajudar uns aos outros. Lamar também pensou em fazer as próprias perguntas — agora que estava estabelecido que ele não era uma ameaça, Nereda provavelmente contaria sua história também.

Mas tudo que saiu de Nereda antes do sono pesado de luz acesa foi um leve “É bom ter você aqui, Lamar”.

Depois...

Lamar só acordou quando a tarde já havia se transformado em madrugada. Não conseguia ver nada pelo buraco com vidro que chamavam de janela, a não ser que o navio balançava de leve. Aquilo estranhamente não incomodava Lamar; talvez fosse porque não havia nada em sua barriga que pudesse ser posto para fora. Nereda dormia sentado, com a cabeça um pouco para o lado, roncando baixinho com a boca semi-aberta.

Foi só quando decidiu que precisava de um pouco de ar fresco para lidar melhor com a fome que a barriga cobrou satisfações. Sentiu algo como a vertigem de quando entrava involuntariamente em Neborum na época em que não queria estar lá; lidou com a situação por um tempo, esperando o pior passar.

Levantou-se e se embrenhou pelos corredores estreitos, todos iluminados com minérios amarelos presos ao teto baixo. Subiu duas escadas curtas até chegar à proa.

Viu que quanto mais os olhos se acostumavam à escuridão, mais as luzes das estrelas emprestavam seus tons às árvores, aos arbustos esparsos e, mais ao longe, às planícies claras que faziam fronteira com plantações e jirs longínquas. À frente, a água se abria em um leque cada vez maior e mais colorido, espelhando o céu como fazia de melhor, na foz do Rio do Sul.

Lamar respirou o vento forte que passava por ele sem querer ser respirado. Sentiu-se bem, no limite do possível. Era um vento de kerlz-u-sana; aromático, nutritivo, desprovido dos espinhos com os quais correntes de ar da estação fria rasgavam os ânimos.

Decidiu verificar Neborum; veria algo que o impressionaria de novo, certamente. Subiu à própria torre — e, por estranho que isso lhe parecesse, sentia seu rosto latejar — e viu um círculo de castelos ao longe, muitos com minérios e fogos acesos.

Por diversão, procurou pelo castelo de Nereda. Na janela em que já estava, não o encontrou; foi para o outro lado da sala em alguns passos, abrindo outra janela para poder procurar em maior ângulo.

Encontrou o castelo, mas também viu três outros se aproximando dele em um triângulo sufocante.

Viu a colisão surda entre eles e foi puxando a si mesmo de volta para Heelum. Na escuridão, perdeu-se por um momento, pensando se deveria agir em Neborum ou em Heelum.

Agiu sem decidir. Entrou no alçapão pelo qual tinha saído para o convés e correu pelos corredores, batendo ombros nas paredes até abrir com força a porta da cabine.

Nereda não estava mais ali.

Não quis procurar por ele em Neborum pois achava que teria mais chance procurando-o no navio; dali ele não poderia ter saído. Tinha acabado de ser capturado.

Correu pelo outro lado do corredor mas não conseguiu virar a próxima curva quadrada; alguém que o esperava do outro lado deu-lhe um soco no nariz que o jogou contra a parede.

Aquele era seu corpo, não seu iaumo. E aquilo era dor de verdade.

Atingiram-lhe na barriga; derrubaram-lhe com um chute lateral. Não conseguiu sequer ver o rosto de quem o atacava, o corredor ficando levemente menos iluminado enquanto as outras mãos amarravam as suas com uma corda áspera e enchiam sua boca com um pano seco, as pontas amarradas na nuca com um nó que parecia só um pouco menos complicado que o das mãos.

Foi posto de pé para andar até uma sala maior mais à frente, a presença violenta atrás de si dando-lhe calafrios.

Era uma cabine com seis vezes o tamanho da cabine dupla, e um teto um pouco mais alto. Viu Nereda amordaçado, amarrado e ajoelhado no chão oposto a um homem de cabelo tão escuro e desarrumado quanto o de Nereda, mas mais curto; tinha lábios pálidos e um olhar duro de cima para baixo. Atrás dele, a guarda da capitã, com o cotovelo apoiado em uma estante na parede, a manga do vestido comprimindo-se de volta para perto do corpo.

O agressor de Lamar chutou-o para dentro, fazendo-o cair de barriga e nariz logo à frente do amigo. Ele se virou o mais rápido que pode, tentando deixar as mãos atrás das costas para desfazer os nós — o que logo descobriu ser difícil demais. A própria capitã, depois de chutá-lo, fechou a porta. Lançou-lhe um último olhar frio e posicionou-se atrás do homem à frente, encostando-se à parede.

Lamar olhou para os três, estudando seus rostos, esperando que algo acontecesse. O lugar de onde era mais provável que viesse alguma coisa era o bem vestido senhor. Calças amarelas bem talhadas, um casaco singelo e reto, azul real, abotoado e com uma cauda bifurcada que Lamar podia ver bem — embora não tão bem quanto o sapato de couro de bufão a centímetros apenas de seu rosto.

— Obrigado. — Disse finalmente o homem, fazendo um gesto singelo com a mão. — Podem ir agora.

— Ha! Não! — Disse a guarda. — Eu quero saber o que você vai fazer dentro do meu navio.

Então ela era a capitã.

Não que fizesse diferença para Lamar. Ou para Nereda.

O homem respirou fundo, sequer disfarçando quão irritado estava. Lamar não havia reparado na espada encostada à parede até o homem desembainhá-la e girá-la numa virada de quadril e braços que dilacerou a garganta de Nereda.

Lamar urrava por detrás da mordaça, a pressão na cabeça acelerando a cada vez que sentia mais sangue de Nereda pingando em sua roupa, suas mãos, até em sua nuca. Ouviu um baque atrás de si, o corpo por fim caindo para trás.

— DIER, você TINHA que fazer isso? — Ralhou a capitã. — Você alguma vez PENSA no que faz?

Relaxe! — Ordenou Dier num único som entre dentes. Encostou a espada de volta e bufou ao pôr as mãos na cintura. — Estará no mar antes de amanhecer.

— E essa sujeira? — Perguntou a guarda, casualmente.

— Se paguei vocês posso pagar alguém para limpar, se a incomoda tanto.

Sim, incomoda. — Disse a capitã, tirando o braço da estante e ficando frente a frente com Dier, os dois praticamente da mesma altura — Aprecio seu dinheiro, mas até Den-u-pra não temos mais nada a ver com você, estou sendo clara o bastante? Você disse que queria recapturar, essas foram as suas palavras, não matar ninguém.

— Tenho certeza de que você está confundindo um pouco as coisas.

— E eu tenho certeza de que você é um preculgo medíocre porque eu mantenho meu castelo sob controle e você nunca entrou nem nunca vai entrar nele pra me fazer duvidar de mim.

Dier cedeu, soltando um sorriso torto e jogando as mãos para cima. Lamar pôde ver seu rosto de lado; sorria como vagabundo apaixonado, culpado confesso, amante dedicado a brincadeiras pueris. Ele parecia mais velho; devia saber que aquilo o fazia parecer mais frágil do que realmente era.

A capitã foi embora pisando duro, e a guarda a seguiu piscando para Lamar antes de fechar a porta na saída.

Dier pôs as mãos para baixo e desfez o sorriso como um laço frouxo. Arrastou uma cadeira guardada no outro lado da sala e sentou, pondo a sola do sapato no peito de Lamar, endireitando-o para que ficasse totalmente para cima.

— Não sei nada sobre você. Mas não gosto de você.

Tirou o pano da boca de Lamar e ele arfou ainda mais rápido.

— O que está fazendo aqui?

— E-eu…

— Você é um alorfo também?

Deveria dizer a verdade? Calculou suas chances: estava amarrado. Não era um bom mago. Não tinha uma espada — e estava amarrado. A capitã do navio não apenas não se importava com ele como ajudou a capturá-lo.

Mentir só faria sentido com um plano, coisa que ele não tinha.

— S-sim.

— Pare de hesitar. Responda rápido quando eu perguntar e sem titubear. Entendeu?

— Sim. — respondeu Lamar num quase sopro.

— Você é alorfo?

— Sim.

— Conhece outros alorfos?

— Sim. — “Mas não sei se estão vivos”.

— Pode me dar o nome deles?

— S-sim.

Dier se deu ao trabalho de parar de apoiar um antebraço nas coxas para estapear o prisioneiro. Logo depois, esbofeteou-lhe de novo, com as costas da mão.

— Falei para não hesitar. Sabe onde estão e pode me levar até eles?

Não podia dedurar seus amigos — que, de fato, não via há rosanos — nem Kerinu, pois isso o deixaria em ainda maior problema caso conseguisse se livrar de Byron.

Mas havia outra possibilidade.

— Sim!

— Feliz demais. O que está escondendo?

— Não estou escondendo nada! — Respondeu, antes que pudesse balbuciar de novo.

— Quantos são?

— Um! Em Imiorina!

Só isso? — Riu ele, jogando-se para trás na cadeira, o sapato ainda leve na barriga de Lamar.

— Vai valer a pena!

— Explique.

— Eu fugi de Prima-u-jir e preciso reencontrar minha família. Eles estão em Imiorina. Uma alorfa de Prima-u-jir…

— Você não me falou dela… — Interrompeu Dier, inclinando a cabeça e arqueando as sobrancelhas.

— E-ela está morta! — Disse Lamar, querendo tirar logo esse detalhe do escrutínio.

— Tem certeza?

Lamar sentiu o sapato do mago apertar sua barriga, e foi invadido pelo medo de que ele talvez fosse tão tolerante com suas mentiras do que fora com a fuga de Nereda.

— E-eu não sei, na verdade, eu…

— Não gosto quando falam “na verdade” para mim, porque significa que mentiram para mim.

Não é ela que você quer!

Levou outro tapa; gemeu de irritação. O que foi que fez agora?

Dier voltou a se recostar na cadeira.

— Penso que teremos bastante tempo para nos conhecer.