Mensagens

Chuva e trovoada encharcavam a terra infinita de Neborum. No fim de duas fileiras paralelas de castelos, um outro mais baixo; largo, retilíneo e escuro.

— Está iniciada a reunião do dia cinquenta e dois de inasi-u-sana.

Desmodes anunciava a reunião com o mesmo rosto duro, o mesmo olhar preto plano e morto de sempre; a mesma postura de quem só podia relaxar, e quem sabe o faria, depois de garantir uma proteção inabalável, privilégio bem montado do tipo que qualquer um teria orgulho espalhafatoso de ter, mas que Desmodes tratava como tarefa. Não era nenhum Dresden — era o que todos, mesmo quem o apoiava, eram capazes de constatar sem ressalvas. Não demonstrava sentir-se agradecido pelo poder que conquistara; agraciado, no máximo.

Nenhum dos presentes esteve ausente do Conselho desde a declaração de guerra. Os únicos dois lugares desocupados ficavam na ponta oposta ao assento assimétrico do mago-rei; o que pertencera ao próprio Desmodes, ainda sem substituto, e o outro, a Robin, cujo destino continuava desconhecido para muitos.

— Leia-se a mensagem. — Prosseguiu o mago-rei.

Era preciso ter cuidado ao falar diante de Desmodes — expressar-se havia se tornado um desafio; no limite, um jogo. Não havia meios de convencê-lo do que quer que fosse contrário ao que ele já pensava, isso os outros haviam descoberto desde o início de seu mandato. Por outro lado, se havia coisas que pudessem ser ditas, havia outras que podiam apenas ser planejadas. Durante os longos e inquietos silêncios, olhares dominavam a comunicação na mesa; na seção próxima à ponta de Desmodes, adversários encontravam-se praticamente frente a frente, e os aliados estavam, também por coincidência, intercalados principalmente à esquerda do chefe.

Um jovem e magro mensageiro do exército do Conselho, moreno de olhos amendoados, aproximou-se da mesa ao lado de Desmodes.

— Magos do Conselho — Começou ele, arranhando a garganta. — Foram recebidas hoje mensagens de Kerlz-u-een, Enr-u-jir e Roun-u-joss. Kerlz-u-een e Enr-u-jir aliam-se ao Conselho, pondo à disposição todas as suas forças. Roun-u-joss afirmou se posicionar contra o Conselho. Sem mais, General do Exército do Conselho dos Magos, Evan.

Dobrou o papel com a mensagem, guardou-o num bolso do negro casaco militar e deu um passo para trás, passando a olhar o nada, sério, com as mãos juntas à frente do corpo.

Duglas, separado à direita de Desmodes por Saana, foi o primeiro a reagir. Desfazendo o transe sacro do comunicado, deu de ombros.

— Já esperávamos tudo isso.

— Isso é ruim. — Disse Maya, à diagonal de Duglas e à esquerda de Desmodes. Didática, fazia com que seus olhos não ficassem tão exaltados quanto deveriam, e queriam, estar. — Ia-u-jambu e Roun-u-joss estão ambos perto de nós e contra nós.

Nada que já não sabíamos. — Disse Duglas, jogando as mãos ao alto, quase cortando a fala de Maya.

— Mensageiro — Disse Desmodes, olhando rapidamente para os dois magos. — Diga ao General Evan que mande uma mensagem a Enr-u-jir. Ele deve dizer à cidade para que se fortifique, preparando-se para a eventualidade de tornar-se a nova sede do governo.

O garoto anotava o mais rápido que podia as ordens, repondo a tinta à ponta da caneta freneticamente a partir do frasco em cima da mesa.

— Mas Desmodes… — Começou Eiji, no centro da mesa. De onde estava, buscou apoio nos olhares de Peri e Cássio, prosseguindo após uma breve expiração estafada. — Enr-u-jir é uma… — Reprimiu-se no que estava prestes a dizer. — Escolha complicada. O exército da cidade é fraco, e a estrada que leva até lá passa por uma bifurcação que leva diretamente a Ia-u-jambu…

— E eles têm a cobertura de toda a Floresta Al-u-bu pelo leste… Aquela é definitivamente uma floresta perigosa para se recuar…— Confirmou Cássio, preocupado.

— Conheço a região. — Disse Desmodes. — Mas nesta guerra é preciso estar aberto, e não fechado.

Cássio soltou uma risada de escárnio.

— Isso só pode ser uma piada…

— Se nossas tropas forem forçadas a sair da Cidade Arcaica — Continuou Desmodes. — devemos ir para um lugar onde isso represente um movimento simultaneamente ofensivo.

Cássio olhou para o mago-rei enquanto esperava que alguém preenchesse o silêncio com um argumento a seu favor. Começou a balançar a cabeça quando viu que ninguém o faria.

— Muito bem, estrategista.

Ainda temos o problema de Ia-u-jambu. — Relembrou Maya.

— O que você acha, Valeri? — Perguntou Duglas, sua voz rochosa projetada pelo queixo empinado até a outra ponta da mesa em direção à maga bomin. — Sendo uma grande general.

— Você não é do exército também, Duglas? — Perguntou Souta, inclinando-se para ver o colega a uma posição de distância.

— Sim, mas não sou general. — Explicou, com um sorriso engessado.

— Valeri? — Perguntou Desmodes, para surpresa até mesmo de Duglas.

A maga de longos cabelos cacheados olhava para o comandante, serena.

— Sinceramente, eles são… Bastante deliberativos. Vão demorar para se organizar, e ainda podem estar preocupados purgando a cidade de qualquer coisa que cheire a magos, então…

Mesmo que a maioria dos ouvintes balançasse a cabeça, provavelmente propensos a acreditar no que gostariam de ouvir, Maya ficou surpresa ao ver Anke, logo ao seu lado, espelhar o gesto com o olhar perdido e a nuca tensa.

O barulho do trovão enfureceu a sala, e Maya sentiu-se sorrateiramente ameaçada. Por um segundo, era como se fosse a única humana num mundo de estátuas em escala de cinza — do outro lado da mesa, Igor balançava a cabeça do mesmo jeito regular e doentio que, um pouco mais longe, Lucy e Ramos replicavam.

Só sentiu-se viva de novo, afastando o calor que subia pela nuca, quando viu olhares seguros e compreensivos entre outros pares na mesa. Todos, pelo que ela lamentava, apoiadores de Desmodes.

A reunião foi encerrada. Saíram quase todos rapidamente, sem comentários; restaram ainda o mensageiro, completamente imóvel atrás do mago-rei, e Valeri, ainda sentada em sua posição habitual das reuniões.

— O que quer? — Perguntou Desmodes

— Quero ser substituída.

Desmodes estreitou os olhos.

— Por quê?

Valeri pegou ar para responder.

— Prima-u-jir vai se juntar a nós, eu tenho certeza. E embora nós tenhamos um exército numeroso, ele é… Precário. Eu cumpri meu papel aqui mas agora meu lugar é lá. E… Lá eu vou continuar ajudando a nossa causa. Eu vou estar à frente da batalha.

Desmodes, recostando-se na cadeira, fez que sim com a cabeça antes de ela terminar a explicação.

— Você tem permissão para deixar o Conselho. Mas deve escolher alguém que apoie a guerra tanto quanto você.

Ela concordou, agradecendo enquanto arrastava a cadeira para se levantar.

— Escolha-o sem mediação, o mais rápido possível. — Retomou ele.

A um aceno breve de que entendera a mensagem a maga deixou a sala.

Desmodes esperou até se certificar de que a paisagem de Neborum, que continuava recebendo castigos do céu tanto quanto em Heelum, estivesse livre dos membros do Conselho.

O mensageiro aproximou-se de Desmodes e pôs a mão no bolso externo da capa azul-escura que o mago vestia; vasculhou-o sem querer fazê-lo, inseguro quanto a própria vida por dois longos segundos, até encontrar um pedaço de papel alaranjado.

Não precisou, e nem conseguiria, perguntar o que fazer com ele. Suas mãos se mexeram mais rápido que o pensamento, guardando o papel junto ao rabisco de resposta que, intuía, não teria chance de transformar em uma carta organizada. Enquanto as pernas, apressadas, faziam com que deixasse a sala de reuniões, os olhos viam os lugares passarem correndo por ele sem que ele decidisse para onde estava indo.

Mesmo não tendo o menor poder sobre a corrida que fazia rumo à charrete de volta para a Cidade Arcaica, sabia que era para lá que estava indo e, como sua mente parecia que não o deixaria mais esquecer (“Já entendi!“), ele sabia o que tinha que fazer.

Depois...

— Você não vai mesmo me dizer por que me quer longe daqui?

Valeri olhava diretamente para o cabelo curto da maga que, de costas com a desculpa de estar bebendo água na mesa de canto de seu quarto, fingia que ignorar a conversa resolveria as coisas.

— Se tem alguma coisa acontecendo, Sandra, eu já disse que pode confiar em mim… Eu posso entrar, se você quiser, vasculhar o…

Não! — Disse Sandra, veemente, virando-se num sobressalto.

Valeri via mais uma vez acuado o rosto que julgava ser o mais bonito de Heelum. Sem se dar conta, inclinou o pescoço para se mostrar solidária.

— Não faça isso. — Concluiu Sandra, andando até o sofá rosado no canto do quarto mais oposto à porta.

— Mas você sabe que posso… — insistiu Valeri, seguindo a companheira. — Se você quiser.

— Val, por favor

Sandra fechou os olhos no último pedido, e Valeri apressou o passo. Sentou no sofá com o joelho primeiro, partindo direto para abraçar a cabeça tão claramente confusa que já estava lá.

Desfez o abraço só para segurar a cabeça de Sandra entre as mãos, trazendo-a para si e deixando os olhos das duas frente a frente.

— O que é que eu vou encontrar no seu castelo se eu invadir você?

— Nada. — Respondeu ela, balançando a cabeça nos limites das mãos de Valeri. — Você já pediu para ir embora?

Valeri expirou, cansada. “Desisto”, pensou, enquanto deixava o rosto de Sandra livre.

— Já.

— Já pensou em quem pode vir no seu lugar?

— Talvez o Byron…

Sandra concordou com um balançar de cabeça.

— Val, saia o mais rápido possível daqui. Nós vamos nos ver de novo… — Disse ela, cortando o início do protesto de Valeri. — … Eu só não sei em qual situação.

Valeri franziu a testa, preocupada.

— A guerra. — Clarificou Sandra. — Quando ela acabar não sei se vamos precisar nos esconder ou se vamos ficar aqui.

— A gente já vem para cá para se esconder. — Retrucou a outra. — Nem mesmo agora que Desmodes nos tornou públicos as pessoas sabem onde a sede fica… — A maga preocupada concordou, passando a olhar para o chão à frente. — Tem mais uma coisa… Os magos não voltam para cá. Depois que eles saem. E eu pedi para sair, então não acho que o Desmodes vá me aceitar de volta.

— Talvez Desmodes não seja o mago-rei até lá…

Sandra… — Advertiu Valeri, pensando na forma soturna como Sandra olhava para o nada.

Qualquer preocupação escapou pelos ouvidos quando ela a beijou.

Seus lábios estavam seguros, mais firmes do que haviam sido em dias. Mas o beijo era rápido, emergencial; a paixão que o motivara já não sabia se mostrar.

Mas Valeri gostou. Pôde simplesmente terminar de respirar pelo nariz e sentir o descolar molhado e lento da boca de Sandra junto à sua enquanto a própria chuva parecia ficar mais calma lá fora.

Quando abriu os olhos quase pôde se esquecer, bom como era perder-se nas íris de Sandra, das suspeitas de que alguma coisa em algum lugar no caminho tinha dado completamente errado para todos os magos do Conselho.

Depois...

Cássio entrou pela porta que sabia, por já estar tudo combinado, não estar trancada. Diminuiu o passo agoniado depois de fechá-la pelo lado de dentro e só ver Maya em frente à janela, de costas, com uma mão na cintura e outra no copo.

— Cadê os outros?

Maya respondeu com um muxoxo.

— Medo.

Andou até ele, ficando frente a frente com o bomin.

— Acho que você percebeu algumas coisas também, não?

— Que coisas?

— Elton… Ramos… Eles, especialmente… Você não percebeu como eles andam quietos demais? E quando dizem alguma coisa, como tudo parece calculado, como se…

— … Como se alguém falasse por eles… — Completou ele, com os olhos apertados.

Cássio também pôs as mãos na cintura, instituindo o signo como bandeira da frustração. Pôs-se a andar pelo espaço entre o armário marrom e a cama de madeira bordô com lençóis vermelhos.

— Eu não tenho acreditado em nada do que eles têm me dito, para ser sincera…

— E os outros, o que acham disso, hm? — Perguntou Cássio, voltando-se para Maya depois de mais uma caminhada. — Peri? Saana?

— Que ainda há tempo de reverter essa guerra. — Cássio balançou a cabeça em concordância. — Só Ia-u-jambu e Al-u-een vão nos caçar se conseguirmos dizer que foi tudo um erro, um… Mal-entendido. Podemos vencer isso se formos espertos ao invés de agirmos feito yutsis de guerra.

— Mas temos que nos livrar do problema primeiro. Do que causou isso tudo.

Sim! — Exclamou Maya, dando meia volta para ir até o balcão do quarto deixar o copo vazio. — Mas precisamos de apoio ou isso vai partir o Conselho em dois.

— Ou não… Um mago-rei acabou de morrer e nada aconteceu.