Reorganizar

As rugas ao redor dos olhos de Frederico há muitos rosanos pareciam drenar sua vida em direção à barba. Não era possível adivinhar muito sobre ele sem estudar cuidadosamente as compressões e expansões dos vincos no rosto.

— Finalmente… — Comentou Marco, de braços cruzados, o cabelo negro liso um pouco acima dos ombros balançando enquanto ele girava a cabeça em negação.

Byron entrou na sala minutos depois. Sua pressa refletia bem o suor por debaixo das longas e cinzas vestes parlamentares.

— O que aconteceu com você? — Perguntou Alice.

Byron sentou-se em seu lugar habitual, mesmo depois de ver que a geografia da sala mudou. Caterina, Verônica, Alessandro e Leonardo não estavam ali, ocupando seu lado tradicional da mesa à esquerda do mestre. Ângela, que vestia um robe vermelho por cima das vestes regulares do ofício, tomou o lugar de Caterina, e Marco, o de Alessandro; com uma cadeira vazia de distância entre cada um dos presentes, Byron foi o único a ficar exatamente onde sempre esteve.

— Problemas com Tornero. — Mentiu, sem ver a quem respondia.

O dia estava claro e o sol brilhava nas janelas e pátios dos castelos dispostos em linha em Neborum. Byron os observava, abrindo com precisão e velocidade cantos nas cortinas, por onde buscava saber a situação do lado de fora.

— Não acha que ficou muito mais confortável assim, Byron? — Disse Ângela, dando um riso fino depois de pôr os antebraços gordos por cima da mesa. — Muito mais espaço sem aqueles inconvenientes…

— Para onde eles foram? — Perguntou Byron.

— Fugiram. — Respondeu Marco.

Byron assentiu, percebendo que não conseguiria evitar a irritação de Frederico se quisesse que o mestre prosseguisse com a reunião.

— Peço perdão pelo atraso, Frederico.

— Byron… — Começou ele, dirigindo a voz para o centro da mesa. — Espero que compreenda a situação delicada em que estamos.

— Então vamos terminar essa reunião logo. — Disse Luca, o magro mago de cabelos bem cuidados, esfregando as palmas das mãos.

— A pauta. — Disse Alice, devolvendo o papel acobreado para Frederico.

— A primeira coisa a fazer… — Começou ele, parando para reler o documento. — É garantir que todos saibam sobre o que está acontecendo.

— E o que está acontecendo, então? — Questionou Ângela, com um sorriso travesso.

— Eu penso… — Começou Marco. — Que devemos nos focar na questão da união com o resto de Heelum.

— Ou podemos testar o nosso trabalho e ver quão bem a cidade aceita um novo governor. — Comentou Alice.

— Mas um novo governor, afinal? — Questionou Luca.

As atenções se voltaram para Frederico, que negou com um balançar mecânico de cabeça.

— A mensagem que ouvi foi a mesma que vocês ouviram e era assinada pelo Conselho dos Magos, com sede na Cidade Arcaica, e apenas isso. Dresden não é um governor, até onde sei.

— Então é menos problemático ainda. Podemos arriscar, Frederico, tenho certeza, e sei que é isso que a Cidade Arcaica está esperando. Ou não faria esse comunicado para a cidade inteira.

— Devemos decidir isso junto com os outros preculgos, Alice. — Disse Marco.

— Espero uma decisão na próxima reunião. — Respondeu Frederico. — Devemos também mandar uma mensagem para a Cidade Arcaica, mas disso eu cuidarei pessoalmente.

— Uma coisa que eu não entendo… — Disse Luca. — É o porquê de Valeri não ter avisado nada.

— Talvez ela não teve permissão. — Tentou Marco.

— Isso tudo é muito estranho, na verdade, nos deixar descobrir desse jeito… Ao mesmo tempo que o resto das pessoas… — Opinou Ângela.

— Isso, sinceramente, não nos cabe questionar. — Disse Marco, com o que Frederico concordou.

— O último problema… — Prosseguiu o mestre. — É lidar com os parlamentares que fugiram.

Todos concordaram, e enquanto desenhavam na mente uma imagem dos quatro parlamentares foragidos — e como seriam pegos, e o que fazer com eles depois de pegos — Alice voltou-se rapidamente para a direita.

— Você poderia cuidar disso, não é, Byron?

Respirou fundo — na fração de momento que o levou a responder que sim, viu-se assegurando a integridade do próprio castelo.

Depois...

As cores desbotavam no olhar, já que a luz era quase nula. Os membros cansaram de tanto ficar dormentes de quando em quando. Lágrimas involuntárias, lavando o mesmo caminho que outras, desbravadoras, já percorreram, às vezes substituíam os lamentos que ele não conseguia se furtar a repetir.

A torção dos braços foi feita desigual da última vez que os empregados, sob supervisão de Byron, o deixaram de pé e o levaram ao banheiro. O pescoço, tentando consertar o arranjo torto das costas, derramava-se em torcicolo; transformou a carne da nuca em corvônia. A ligação entre os ossos não sabia mais como se mexer — qualquer movimento era algo novo, gesto de criança, descoberta de até onde ele poderia ir até conseguir uma posição ligeiramente menos desconfortável que a última. Mesmo que, no fundo, ele só conseguisse alternar entre três ou quatro opções. Nenhuma delas boa.

Era pior quando perdia a sensibilidade nos pés por um momento e o formigamento voltava ao tentar mexê-los — duro, enregelante, subindo pela perna o estalar de cada músculo até ele gemer de novo um gemido mais longo, que ele queria transformar em grito, mas não conseguia. E a cãibra seguia em frente, como um homem doentio de olhos desproporcionais, inexpressivos, que lhe dizia, com o entusiasmo de quem fala com crianças como se elas fossem bebês, “Vamos, vamos, de boca aberta já!“.

Respirou fundo. Aquilo sempre causava um tremor nos hematomas mais recentes da barriga.

Uma chave encostou na porta e um momento depois Byron entrou sem cerimônia. Kerinu se perguntou que dia era. Tinha quase certeza que só dois haviam passado, mas Byron parecia rosanos mais velho; o cabelo, sempre alinhado à superfície da cabeça, crescera e lhe dominara. Não parecia ter tido tempo para se barbear tampouco.

Fechou-se a porta. Kerinu não podia ver os braços do inimigo, mas sabia que estavam tensos ao longo do tronco.

— Eu quero que me liberte. — Disse Byron, olhando-o de lado.

Kerinu respirou imediatamente melhor, por apenas uma lufada de ar, ao imaginar o quão esmagado o orgulho daquele homem devia estar.

— O que… Você… O que fez você deixar de esperar? — Disse Kerinu, com a voz falha.

Byron chegou mais perto em passos falsamente casuais.

— Eu exijo que me liberte.

Byron olhava diretamente nos olhos do alorfo, e Kerinu respondia com uma consciência recobrada.

Que espécie de pedido era aquele? Por acaso Byron conseguia ver o alorfo pelo que ele realmente era no momento? Um prisioneiro, amarrado e torturado, a ponto de ser descartado a qualquer momento? Seria aquilo algum truque?

Tornero não estava por perto, constatou. Byron não iria querê-lo por perto.

— Eu não confio em você… E você não confia em mim. Eu sei que você não vai me soltar se eu soltar você…

— E eu preciso sair de meu castelo agora.

Byron falou entre os dentes, olhando para o vazio. Kerinu engoliu em seco, temendo pela negociação. Byron parecia tão estável quanto um yutsi sonolento.

— Dou minha palavra. — Disse Byron, voltando a olhar para o prisioneiro.

Kerinu pensou se não estava levando aquilo longe demais.

— Sua palavra não vale nada. — Disse, por fim, com os olhos lacrimejados. Asfixiou as próprias esperanças, sussurrando para si mesmo o quão falsas elas eram. — E eu sei que a minha… Não vale nada para você também.

Depois...

Já achava que era final de tarde quando a chave entrou de novo na fechadura. Kerinu quase dispensou uma olhada pelas janelas em Neborum para confirmar que era Tornero.

Tentou se contrair, virando para a esquerda num espasmo. Segurou melhor a corda, mas percebeu que Tornero entrava no quarto de um jeito diferente. A espada ainda estava na cintura, por debaixo da capa laranja aberta, mas ele não parecia trazer nenhum saco de minérios de cura dessa vez.

Avançava pelo quarto devagar, com um ar de curiosidade. Passou pela cama e parou em frente à janela, o escuro não deixando claro para onde olhava.

— V-veio… Me ferir mais?

Seus lábios tremiam enquanto sussurravam o desafio tolo. Era quase como se tivesse de fato coragem para ficar e aguentar aquilo tudo; sabia que se passasse por aquilo de novo ia ter que se voltar para Neborum como das outras vezes. Enquanto o homem à sua frente, limpo, descansado, perfumado, perfurava-lhe os membros, Kerinu estaria caindo em um buraco, quebrando-se no ombro, ou nas pernas, no chão do fundo que depois ia ser descoberto como falso — ele se abriria de novo, e Kerinu cairia de novo, em todas as direções, vendo o mundo desenhado num céu que parecia teto e o buraco abrir-se de novo abaixo de si.

— Não.

Tornero desfez o nó lateral das cortinas. Arregaçou os panos, e a luz do sol entrou no cômodo como se o primeiro ato de Tornero no dia fosse furar os olhos do inimigo.

— Tem algo de errado com Byron… — Tornero continuou, olhando indiferente para o rosto contraído à frente. — Eu sei que tem alguma coisa. Alguma coisa que eu não estou entendendo direito…

— Byron está preso! — Rosnou Kerinu.

Tentou abrir os olhos, e a dor era mais gerenciável. Via partículas de poeira voando em espirais pelo quarto inteiro. Queria pedir para Tornero abrir a janela e deixar o ar fétido que se acumulou por dias sair de uma vez no voo que levantava o vento de inasi-u-sana (ou já estariam em kerlz-u-sana?). Mas lembrou onde estava, e ficou quieto.

— Explique… — Disse Tornero, tentando misturar ternura à ordem enquanto chegava mais perto da cama.

— Eu fiz uma coisa em Byron… Em Neborum… E ele não pode mais sair do castelo dele…

Os olhos de Tornero moveram-se por todas as direções; esquadrinhavam o quarto, cada pedaço da parede, o teto; quando o bomin virou-se de costas, Kerinu teve certeza que seus olhos ainda percorriam cada uma das esvoaçantes partículas amareladas.

— Sim…

Kerinu calculava suas chances. Tornero era ambicioso — como todo mago arrogante. Seu mestre estava vulnerável, e Byron, pelo que Lamar lhe contara, não possuía herdeiros. Ou qualquer família. Tornero era tudo que aquele homem importante e rico tinha. Toda sua importância e riqueza certamente passariam a seu discípulo caso ele morresse.

O sangue parecia voltar a fluir nos braços; era amargo, e ele podia sentir as pinças do homem abestalhado de sua imaginação voltando, fincando farpas nos ossos do punho — mas sentia-se vivo de novo, acima de tudo. No entusiasmo orgânico sentia que a libertação estava próxima; a qualquer momento levantaria da cama, esmagaria Tornero contra o armário e correria para fora daquela casa.

Mas engoliu em seco, ainda preso, e achou estranho o tempo que o companheiro desigual de quarto levava, virado de costas, para pensar naquilo tudo.

— E o que acontece se você morrer?

Tornero virou-se de novo, tirando a mão do queixo e cruzando os braços.

Kerinu procurou sorrir, esperando ganhar tempo para pensar.

“Se eu morrer, Byron está livre”, ensaiou.

Tornero não queria que Byron ficasse livre.

Ou talvez queria, se apenas ele conseguisse alguma coisa em troca. Afinal, Byron premiaria seu discípulo por lidar com aquela situação de maneira tão fiel.

Abriu os olhos. Tornero não desgrudara os seus dele.

— O que você acha?

Tornero riu de boca fechada. Andou até a janela e apoiou-se no parapeito.

O coração de Kerinu fazia seu tórax vibrar na cama. O sangue podia até fluir melhor nos braços, mas estes se retesavam, prontos para reagir — impossível — a Tornero, que podia usar a espada a qualquer hora para acabar com o suspense.

— Acho que você, alorfo… Ainda está vivo