Reuniões

Desde que saíram do centro a charrete seguia em silêncio. Lenzo observava a prima com, no máximo, o canto do olho. Ela estava altiva e bem vestida, com um traje azul longo e sedoso. Só não sorria.

Fazia rosanos que ele não a via. Costumavam conversar sobre todo tipo de besteira, e Lenzo sentia-se bem perto dela porque sabia que, no fundo, ela gostava mais dele que de Koti, seu irmão mais velho. Mas isso foi quando ainda eram crianças. Depois, por alguma razão, eles pararam de ter chances de se ver.

Apertava uma mão contra a outra, deixando as duas em cima das pernas que tremiam juntas. Ela olhava para um cenário cada vez mais campestre pela janela do outro lado no banco à frente. A charrete parou uma vez só antes de passar por diversas jirs populosas — Lenzo fechou a cortina e recostou a cabeça, não gostando muito da ideia de olhar para desconhecidos. Quando não estavam numa jir, cortavam a área de imensas plantações, tapetes retalhados em diferentes tons de verde até onde a vista alcançava.

Cada um saiu por um lado quando pararam. Estavam diante de um castelo feito de pedra escura, uma sombra sólida pairando como uma masmorra acima da terra contra o forte e claro céu azul. Duas torres baixas ladeavam um saguão pequeno, seu portão emoldurado em corvônia grossa e irregular.

O interior era decorado em vermelho e verde, com panos decorativos e estandartes substituindo retratos, cortinas e toalhas. Havia uma mesa retangular de frente para uma lareira apagada. Lenzo sabia que aquele era o castelo de Hourin, mas sentia-se estranhamente à vontade ali.

— Lenzo… — Disse Rainha, dando uma volta no tapete logo à frente da porta antes de se voltar para o primo. — Eu disse que eu queria sua ajuda.

Lenzo concordou com um aceno.

— E eu disse que seria a condição para tirar você da prisão.

Concordou de novo.

— Eu quero que você ensine magia. Para o povo que mora aqui, não para mim.

Lenzo respirou fundo, não aguentando uma expiração forte: seria obrigado a falar, e não sentia-se muito confortável perto da própria voz naqueles dias.

— Eu… N-não acho que é uma boa ideia.

— Por que não?

— Porque…

Sua voz morreu quando ele se percebeu no papel insignificante que tinha ali. Ele ajudou a matar o pai dela — e ela mesma o salvou. Que direito tinha de argumentar contra um pedido seu?

— P-porque… É-é ilegal em Al-u-een, e…

— Isso não impediu você de ser alorfo antes. — Interrompeu ela, séria.

— S-sim, mas… Eu nunca ensinei magia para ninguém.

— Eu sei.

Lenzo se resignou em concordar com a cabeça.

— Há um escritório no andar térreo em que você vai achar os papeis que indicam todas as jirs da propriedade. — Disse ela, num tom técnico, antes de se virar e andar em direção às escadas.

Lenzo assistiu ela se afastar, tentando se decidir se era o momento certo de conversar sobre o que aconteceu com Hourin. A vergonha falou mais alto e ele ficou para trás, pegando a pequena mala e começando a se aclimatar à nova casa.

Depois...

Dois dias haviam se passado desde a operação de Dalki com o exército, mas agentes ainda vasculhavam as salas dos parlamentares presos em busca de mais evidências e, quem sabe, de outros nomes. Minoru percorria os corredores do parlamento com uma satisfação que se via de longe; sorria para os policiais e para outros passantes — via de regra, sorria para todo mundo.

Quando virou o corredor, suspendeu o sorriso largo para um mais modesto. Apertou a mão de Dalki, que o esperava em frente à sua sala.

— Ainda não agradeci você. — Comentou o chefe de polícia. — Ouvi dizer que terminou a operação.

— Ha… Não… — Respondeu Minoru, balançando a cabeça. — Só o protegi quando você foi atacado. Os seus comandados próximos na linha de comando assumiram o posto e terminaram tudo.

Dalki assentiu.

— Obrigado.

— Não tem problema.

— Como foi a repercussão?

Minoru deu de ombros.

— Alguns acharam um absurdo no começo, mas estavam com medo. Eu também fiquei, na verdade. Mas eles entenderam que foi necessário.

— Eu preferia que fossem pegos um a um, mas a votação para a guerra estava acontecendo. Era importante.

Sim. — Concordou Minoru, enfático. — Não teríamos ficado contra a Cidade Arcaica sem essa intervenção, disso eu tenho certeza.

— E o que está sendo discutido agora?

— Generais vieram conversar sobre as primeiras ações, e estamos inclinados a atacar simultaneamente a Cidade Arcaica e Karment-u-een… Mas isso depende de Roun-u-joss e Ia-u-jambu também, então vamos decidir definitivamente amanhã.

— Ótimo. — Comentou Dalki, cruzando os braços.

— Também estamos pensando em enviar uma frota para Rouneen, caso… Bem, eles sempre tiveram uma boa relação conosco, mas…

— Vocês estão preocupados.

— Sim. Não vamos fingir que não já supomos que Al-u-ber vai ficar contra nós, então é algo que temos que ver desde já… Para onde vai levar os presos?

— Um castelo no Norte. Vou cuidar pessoalmente deles. São um grupo complicado.

Minoru concordou, voltando a sorrir.

— Você foi corajoso, Dalki. Não tenha dúvidas, você fez história.

— E foi assim que você viu que Kent não era um mago.

Minoru caiu em gargalhada, apoiando as mãos na cintura.

— É, mas, sabe… Ainda tenho minhas desconfianças. Mas se souber de algo eu aviso você.

Dalki expressou gratidão adiantada e despediu-se do parlamentar com uma palmada em seu ombro.