Corpo e conduta

Tadeu pediu ao cocheiro que parasse um pouco antes. Ficariam provavelmente em frente a um castelo residencial na curvatura de uma rua, com uma praça de altíssimas árvores do outro lado.

Interpretando a parada ligeiramente mais longa como sinal de que estavam no lugar certo, Gabriel despertou da desatenção e começou a se mexer para sair. Tadeu impediu sua mão de abrir a porta.

— Gabriel, s-só…

— Gabriel não, garoto. Mestre. — Respondeu ele, sério, imóvel na metade de seu levantar.

— M-mestre, desculpa… E-eu queria pedir pra você p-pra que eu pudesse ir até o local primeiro e quando eu voltar podemos ir juntos.

Gabriel sentou-se de novo, com a boca semi-aberta.

— Por quê?

— Por favor. É importante.

Gabriel bufou, não fazendo a menor cerimônia quanto a estar impaciente. Tadeu realmente não sabia por que ele havia concordado em ensiná-lo se nenhum dos dois queria as aulas.

Por outro lado, se Tadeu não as queria e no entanto ali estava ele, talvez alguma força maior — a própria Joana — o obrigasse a estar ali também.

— Só não demore.

— Obrigado!

Depois...

Chegou cansado ao lugar do encontro. Fez Amanda, que esperava por ele de pé, descruzar os braços, franzir o rosto em preocupação e rir do namorado, tudo quase simultaneamente.

— … Pode parar de rir… Hoje eu não posso… Ficar. Mais ou menos.

Ele a beija ao chegar enquanto ela começa a reclamar com as sobrancelhas.

— Mas tem que ser hoje, eu tinha tantas coisas para falar pra você!

— É-é que… — Começou ele, forçando-se a respirar de forma mais organizada. — Eu vou ter aulas de esgrima.

— Hmm… — Reagiu Amanda, calmamente absorvendo a notícia. — Por quê?

— É ideia dos meus pais… Por causa da guerra.

— Eles querem te mandar para a guerra?

— Não! — Disse ele, mas sempre, como em seus pensamentos, adicionando o adendo pesaroso. — Eu acho…

— E quando vão ser as aulas?

— Agora.

Amanda olhou para o caminho por onde Tadeu veio.

— Quem vai te ensinar?

— Eu pedi para o professor esperar lá embaixo um pouco, mas eu vou voltar e vou vir para cá com ele. É um mago de Roun-u-joss.

— Mas por que aqui, Tadeu? No nosso lugar?

— Porque aqui eu posso ficar depois da aula quando ele for embora, a gente só precisa… Se encontrar mais tarde, agora.

Amanda fechou os olhos por um momento, sorrindo sem vontade ao abri-los.

— Então… Até daqui a quatro dias, só que mais tarde?

Tadeu fez que sim, tristonho.

— Eu desço com você…

Depois...

Gabriel não escondeu o desprezo pelo lugar secreto de Tadeu ao chegar no pequeno pedaço de terra nivelada na saída da trilha.

— Você me fez subir um morro — Disse o mestre, reforçando a frustração no olhar marinho com gestos discretos com a palma da mão. — depois de desnecessariamente andar de charrete para chegar até o morro… Para acabar aqui.

— … S-sim, é… Eu…

Gabriel deixou cair a mão aberta sobre a coxa. Jogou a espada longa embainhada que trazia na mão esquerda em direção a Tadeu, que a pegou sem jeito nem vontade.

— Pode até ser bom… O lugar é pequeno, então você não pode fugir. — Apontou para os pinheiros amontoados na íngreme descida, sem cercas ou proteções, alguns passos atrás de Tadeu. — Você não pode cair. Você não pode correr ou se esconder. Sua única proteção contra o inimigo é a qualidade da sua luta. Sua garantia de sobreviver se reduz ao seu manejo da espada.

Tadeu apoiou a ponta da espada no chão, sentindo o couro seco da guarda nas mãos suadas, sem coragem de tirar a arma do conforto da capa.

Aquele instrumento lhe era completamente estranho.

— Mas eu não preciso aprender isso porque eu não vou precisar correr ou me esconder, p-porque eu não vou estar na guerra. E-eu não quero lutar.

— Humpf… Claro.

Tadeu não havia realmente planejado o que se seguiria ao que disse; não esperava que pudesse sair dali para nunca mais ter aulas, por exemplo. Mas o “claro” altivo o desmontou de um pedestal que ele não sabia existir.

— Eu poderia falar sobre a importância de aprender a lutar. — Continuou Gabriel. — Sobre o que significa lutar. Mas estou sem paciência para um garoto mimado como você.

Tadeu abriu a boca, mas não conseguia articular sons ou pensamentos.

— Você n… Você não…

— Não o quê? Não me conhece? — Questionou o mestre, as mãos ainda juntas à frente do corpo, as sobrancelhas levantadas. — Você é o resultado da sua vida, garoto! Do privilégio que vêm dos seus pais. Nunca precisou lutar por nada e está sempre insatisfeito por não ter tudo. E quando for contrariado vai desistir porque não sabe que o que é seu precisa ser defendido. Como sei disso? Você não é tão diferente de incontáveis filhotes de magos de alta posição.

Tadeu engoliu a sensação que cresceu em algum lugar da cabeça entre a garganta e o nariz. No processo que durou segundos, viu a si mesmo como o garotinho que detestava os outros garotinhos e as outras garotinhas com os quais era aglutinado de tempos em tempos. O garotinho que cresceu detestando quase tudo e, quando começou a aprender magia, detestou-a também.

— Às vezes… A gente desiste porque faz um sacrifício. Eu já lutei pelo que eu quis, eu sei lutar quando eu preciso!

Tadeu conferiu o que disse algumas vezes enquanto esperava uma reação de Gabriel. Tinha certeza de que tinha lutado para juntar Amanda e Gustavo e separar a si mesmo dela. Para o bem dela. Para a segurança dela.

— Me parece um exemplo bem específico.

Tadeu ensaiou juntar a boca num bico até conseguir formar a palavra inicial.

— P-por que disse isso?

Gabriel piscou algumas vezes antes de abaixar os olhos. A demora em responder irritava Tadeu mais do que as próprias ofensas. O que é que aquele homem queria com ele? Por que as ofensas gratuitas — e por que tão pessoais?

— O que eu posso oferecer é o mínimo conhecimento para se defender. Mas você o recusa porque acha que não precisa dele. E suas palavras sempre indicam que você não quer lutar. O seu problema é pensar que todos vão respeitar essa escolha. Que se você não quer lutar, então tudo bem. Ninguém vai lutar contra você, não é mesmo?

— N-não é isso… — Pensou em dizer várias coisas, mas pouco saiu antes da interrupção.

— Você acha que alguém vai pedir licença quando quiser passar por cima de você? Que vai deixar de atacar porque você se recusa a usar a força para se defender?

Tadeu já não olhava mais para Gabriel. Desviara o olhar; sentia-se nu.

Não queria estar ali, e tinha vontade de berrar que não queria aprender nada e só queria voltar para casa — mas algo lhe dizia que aquilo não só era o tipo de coisa que não faria, mas também o tipo de coisa que estava sendo acusado de fazer. Seria aquele que usa suas vontades como a medida do mundo. O garotinho que nunca quis saber o que vivia além do cercado das suas volições.

— Então pra que serve a magia? — Indagou, tendo plena consciência da resposta.

Gabriel sorriu.

— Quando deixam para trás essa fase os filhos dos magos caem na síndrome de achar que a magia é a solução para tudo. Mas pelo menos contra isso eu posso argumentar. A outra fase precisava da humilhação.

— Não entendi.

Só olhou para Gabriel quando teve segurança de que àquela distância não se descobriria a vermelhidão dos olhos. Não apenas apoiava a espada pelo pomo de um jeito mais seguro como tinha quase vontade de usá-la.

— Digamos que eu seja um inimigo. — “Mas você é”, retrucou Tadeu em pensamento. — E estou aqui, a essa distância.

Estavam a pouco mais de dez pés um do outro.

— A espada está nas minhas mãos. — Continuou, tirando-a da bainha. Não estava particularmente afiada e não parecia muito brilhante, mas devia ser porque aquele era apenas um treino. Gabriel a segurava, abaixada, com a mão direita. — O que você vai fazer?

Tadeu respirou pela boca, cansado daquele jogo antes mesmo de ele começar. Sabia que Gabriel ia tentar convencê-lo de que a resposta certa era “lutar”.

— Eu atacaria você.

— Com magia.

— Sim…

— Você me causaria dor?

— Sim.

— Certo.

Gabriel avançou para cima do aluno e em três passos estava com a espada segurada pelas duas mãos esticada até a cabeça de Tadeu, que só teve tempo de recuar, assustado, levantando a espada fechada, com a mão esquerda no fio embainhado, numa tentativa lenta demais de segurar o golpe.

— Eu não estava pronto, isso não foi justo!

Gabriel recolheu e espada e Tadeu observou, perplexo, o quanto o mestre ainda estava longe quando a espada podia tê-lo ferido.

— Como você ainda está aprendendo magia, vou facilitar essa próxima demonstração. — Disse o mestre. — Eu vou andar, aqui, até o lugar mais distante em que você ainda consegue ver o meu castelo. Quando eu chegar lá, vou voltar correndo até você. Você vai me atacar lá. Eu vou golpear você aqui. Vamos ver o que aconteceria.

O sangue de Tadeu fluía demais para ser desperdiçado na garganta; não disse nada. Esperou Gabriel sair do campo de visão para se focar completamente em Neborum.

Abriu a porta do castelo para sair dali o mais rápido possível assim que o castelo de Gabriel, que mais parecia uma mansão, começasse a voltar. Apesar dos materiais enegrecidos — que não pareciam corvônia — sua estrutura era de uma casa grande, com três andares no máximo, e várias pequenas casas atrás da primeira, principal. O terreno, cercado por um muro baixo, era mais profundo que largo, e a construção não tinha torres. Tadeu assumiu que algum dos cômodos superiores no andar mais alto funcionaria para a técnica da dor de cabeça.

Decidiu incendiar um andar inteiro só por segurança.

Quando o terreno de muros baixos tornou-se um ponto distante no limpo horizonte azul, e parecia não mais estar se distanciando, Tadeu saiu portão afora.

Correu o mais rápido que pôde, e não se surpreendeu quando chegou rápido às portas do castelo.

Concentrou-se no fogo, e em nada além. Se tivesse que pensar em Heelum se atrasaria e perderia.

Destruir o portal baixo do muro foi fácil; passou num pulo quente por cima da portinhola incendiada e chegou a outra, certamente mais reforçada e suntuosa, em frente à fachada com duas janelas de vidro escuro em molduras marrons.

Incendiou as mãos e os braços de novo e empurrou-os de qualquer maneira pra frente. Conseguiu ver o impulso que ela tomou ao se esgaçar, revelando o interior pouco iluminado do interior da casa.

Teve a impressão de ver alguma coisa estranha ao lado da porta assim que passou por ela. Depois de um momento de hesitação quanto a parar e olhar ou seguir em frente, Tadeu tomava uma lufada abundante de ar em Heelum; seus pulmões exigiam aquilo.

Gabriel estava logo à sua frente, parado, com a espada fria encostando no pescoço do discípulo.

Tadeu deu passos atabalhoados para trás. Gabriel projetou a espada para trás, agarrou sua camisa e o puxou de volta, arrastando-o para o lado até conseguir lançá-lo para as encostas do morro.

Ofegante e com a espada caída longe, Tadeu tentava entender por que ainda pescava por ar como se…

Levou a mão ao pescoço. Tentou voltar a Neborum e não conseguiu. Neborum não parecia sequer existir mais.

Era como ter acreditado numa fantasia ridícula.

— V-você… — Começou Tadeu, engolindo com dificuldade. — C-cortou meu pescoço?!

— É a sua primeira morte em Neborum?

Acenou que sim.

— Seu iaumo vai se refazer dentro do seu castelo, mas vai demorar um pouco. A questão na qual você deve pensar é: você perdeu em Neborum ou em Heelum?

Tadeu não estava com a menor vontade de responder. Preferia continuar massageando o pescoço.

— Eu estava prestes a matá-lo aqui antes de matá-lo lá, garoto.

— É porque…

— Você não é um mago bom. Talvez. — Cortou Gabriel. — Talvez… Mas você tem mais chances de um dia se ver lutando contra um mago do que contra um não-mago. Vocês vão lutar em Neborum. Com o tempo perdido ele vai atacar você aqui, com uma espada que pode arrancar sua cabeça de verdade, mas você não vai se defender.

— Entendi.

Gabriel estendeu uma mão para o discípulo inclinado no banco de terra. Tadeu aceitou a mão mais por não querer deixá-lo esperando por muito tempo. Se pudesse, teria pensado mais.

Recolheu a espada, caída na direção da trilha por onde vieram. Olhou para o mestre, forçando-se a tal. Tinha que ser digno o bastante para olhar para ele de igual para igual, mesmo que não gostasse dele — ou que não fosse, nem de longe, seu igual.

Tinha que engolir o garotinho que lhe sussurrava o que fazer quando tinha raiva ou medo.

— Tire a espada da bainha. — Orientou o mestre, com seus olhos verdes invariáveis nem um pouco mais acessíveis.

Tadeu puxou a espada, que parecia só um pouco menos pesada do que quando guardada. O fez devagar, solenemente, mais por medo de se machucar — mesmo vendo que a espada não estava nas melhores condições —- do que por respeito.

— Onde eu deixo a… Bainha?

Gabriel deu de ombros.

— Jogue-a de lado.

O aluno obedeceu.

— A primeira coisa que vamos aprender são ataques e defesas básicos, além da posição de guarda que…

— Mestre… — Disse Tadeu. — E quanto aos… Alorfos? E-e filinorfos?

Gabriel apoiou a própria espada no chão.

— Sim?

— V-você disse que eu tenho mais chances de lutar contra um mago do que contra um não-mago. Isso inclui… Esses magos, não inclui?

— Sim.

— Mas… O que eles são, exatamente?

Gabriel respirou fundo, desviando a atenção por um ou dois segundos.

— Esta é uma aula de esgrima, Tadeu, não de magia. Pergunte isso ao seu mestre.

Depois...

— Oi, pai.

Barnabás a esperava na sala em que as aulas geralmente aconteciam, a mesma em que Amanda tivera sua primeira aula.

— Onde estava, filha?

— Na aula de cultivo… M-mas ela foi transferida para um pouco mais tarde pelos próximos dias, tudo bem?

— Bem, filha, na verdade… Vamos ter que interromper a aula de cultivo.

Amanda engoliu no meio do caminho de se abaixar até uma almofada.

— Por quê?

— Temos que acelerar suas aulas de magia.

A amabilidade do tom do político só era comparável à forma firme como escondia o quanto estava tenso.

— Aconteceu alguma coisa, pai?

— Não, filha… Mas uma guerra nos deixa preocupados, sempre, com… Bem, deixe isso para lá.

Amanda concordou, mal tendo tempo para pensar em como exatamente aquilo complicava seus encontros com Tadeu. Por ora, acabava com eles.

— Hoje nós vamos aprender uma técnica, filha. — Barnabás juntou as mãos, esfregando uma na outra de uma maneira completamente aleatória e, para Amanda, hipnotizante. — Na verdade, a base da maioria das técnicas preculgas.

A aluna balançou a cabeça, entrando e saindo de Neborum algumas vezes, tentando manter um pouco de atenção nos dois lugares — exercício que fazia de vez em quando, principalmente antes de começar a praticar com o pai.

— Nós, preculgos, filha, prestamos atenção a duas coisas dentro dos castelos das pessoas. Aos planos delas e às colunas dos castelos. Essa… Esse conjunto de técnicas é chamado de pilares da conduta.

— Certo. — Assentiu Amanda.

— Toda conduta, filha, é voltada para os benefícios, próprios ou de outro alguém. É de uma análise de benefícios, de prejuízos e de custos da ação que todo plano é feito.

“Todo plano é um papel, ou um grupo de papeis, explicando o que a pessoa quer fazer, por que quer fazer, quais são os possíveis benefícios, quais são os possíveis prejuízos, e quais são os custos de se fazer cada coisa. E cada plano, por mais que se refira a outras pessoas ou outras coisas, sempre é representado por um projeto de construção de uma nova parte do próprio castelo.”

— Como uma reforma? Uma ampliação?

— Sim.

— Mas…

Amanda pensou em perguntar uma, duas ou três coisas, mas pensou que deveria simplesmente deixar o pai falar.

— Há outras coisas envolvidas na execução de cada plano. Esses… São mais propriamente os pilares da conduta. Cada castelo, filha, tem… — “Será que ele acabou de me deixar pensando que eu devo deixar ele falar?” — … E as torres, que muitas vezes… — Amanda pôs-se a ir e voltar de Neborum, procurando não parecer investigar o próprio castelo pouco a pouco. — … Nas colunas, que representam o quão apropriado alguém vai sentir que as condições são. — “Para de pensar nisso, Amanda, você está ficando maluca.” — … Estou falando rápido demais, filha?

— Um pouco, pai. — Respondeu ela, balançando a cabeça.

— Vamos pensar num exemplo. — Recomeçou ele, juntando as mãos à frente da boca. — Você quer que eu pense que é uma boa ideia ensinar você alguma técnica nova. O que deve fazer se conseguir invadir o meu castelo sem que eu perceba?

— Eu devo… Escrever um plano.

— Mas onde, filha?

Amanda pensou, buscando lembrar do que ele havia dito enquanto ela não prestava total atenção.

— Você n-não… Me disse, certo?

— Disse, filha. Num papel.

— Ah, claro, mas em que sala?

— Peço desculpas, filha, foi uma confusão. — Disse ele, com um sorriso bobo. — Eu não me fiz entender. Bem, é uma pergunta importante. Você deve encontrar a sala que guarda os meus planos. Isso você já sabe como fazer.

— Agora sei. — Confirmou Amanda. Barnabás esperou em silêncio, com as mãos nos joelhos. — Hmm… Eu… Depois, eu tenho que escrever os benefícios do plano? — O mestre fez que sim. — E então os prejuízos do plano e os custos do plano?

— E o plano deve ser o plano também de quê?

— De uma parte nova do castelo.

— Certo.

— Pai, mas… Sempre que a pessoa tem um plano e faz esse plano o castelo cresce?

— Bem… Nem sempre… Com alguns planos sim, com outros, não. Pode haver planos cujo objetivo é destruir uma parte do castelo e reconstruí-la depois, diminuindo o castelo.

— Então nós não podemos construir, nós mesmos, partes do nosso castelo?

Barnabás abriu a boca, mas acabou só juntando as palmas das mãos de novo.

— Bem, filha… Não acho que haveria um efeito.

— Então você nunca tentou?

Ele negou com a cabeça, mas ainda olhava para o chão, distante.

— A magia é sempre a influência sobre os outros, filha, sempre. E depois, nós… Nós somos o que nós fazemos. Temos planos e, quando seguimos adiante com eles, o castelo muda para refletir quem somos. Tentar alterar essa ordem seria… Mentir para nós mesmos.

Amanda assentiu, cheia de perguntas que, dessa vez, iam muito além da mera prática. Se o castelo muda de acordo com os planos e os preculgos podem facilmente mudar ou incluir novos planos nas pessoas, não seria fácil mudar o castelo todo de alguém?

Que planos em sua vida fizeram com que seu castelo fosse do jeito como era? Seriam as duas grossas torres que formavam o seu castelo um símbolo da forma como vive uma vida dupla, encontrando-se com Tadeu pelas costas do pai?

— Vamos falar um pouco mais sobre esses planos, filha.