O começo e o fim

Fecha-se a porta do quarto. A luz ainda se esmagava, se humilhava para emprestar seu tom de mel à entortada mobília carmim da qual Anabel não tinha orgulho, mas tampouco tinha vergonha.

Seus dentes cor de creme compunham o sorriso enviesado enquanto, sentada na cama, apoiava-se no forro macio e alaranjado. Expôs de mansinho o lado direito do pescoço sem fissuras. O cabelo vermelho balançou para o lado, melindroso, diante daqueles outros dentes que surgiam debaixo de olhos sinceros, fixos, loucos que atravessam a carne da companheira. Ele já abandonara as roupas; ela também.

Encontrou um lugar para si com o joelho, recostando-se a ela por trás. Cada pedaço de pele encontrava seu par, ou assim queria fazê-lo: suas mãos subiam pelos braços dela enquanto os lábios encontravam os melhores espaços do pescoço para descansar, descansar, descansar antes de mudar de ideia e beijá-la de baixo a cima, chegando ao lóbulo da orelha com hesitação mínima, calculada com todo o engenho para fazer o coração pular uma batida.

Anabel não fingiu estar sem pressa. Tirou os cabelos da nuca com as mãos, fechou os olhos, encolheu a barriga arrepiada enquanto as mãos mornas de Gustavo faziam dali um novo lar; seu novo parque, seu novo ardor.

Tudo muito diferente da prisão ocre em que Anabel estava.

A não ser, talvez, pela amarelidão da cela subterrânea que podia ter provocado, afinal, a memória em primeiro lugar.

O ar traiçoeiro da noite se desfazia com a vitória de Roun — ela podia senti-lo, mesmo longe da janela. Estimou que na sala em que estava caberiam umas trinta pessoas, se bem apertadas.

A porta que ela encarava há horas tinha duas fechaduras, uma perto do topo e outra da base. Quando um quadrado próximo ao chão de terra mal tratada abriu num deslizar para cima, um prato acobreado com pão, gordura quente e sal vermelho foi empurrado para dentro da saleta.

Dirigiu um único olhar para o pão antes de ignorá-lo. Abraçava as pernas, suspensas em um banco duro acoplado à parede de pedras rubras atrás de si. Não confiava naquela comida.

Depois...

Os mesmos policiais sem uniforme que vieram prendê-la na noite passada vieram buscá-la. Estavam aglutinados no corredor além da porta, tampando o já fraco vento que vinha da única janela do lugar. Ao vê-los, Anabel repensou seu espaço: talvez naquela cela não coubessem nem mesmo dez pessoas.

Controlou a respiração, olhando e se deixando olhar. Infelizmente não era o olhar de Gustavo, que tanto adestrara. Monitorava seu castelo em Neborum com zelo total; fechara as janelas, escurecera as salas, instalara novas trancas na porta.

Acompanharam-na pelos corredores do prédio-prisão dentro do círculo coeso que seus corpos formavam; ela mal conseguia andar sem ter que medir os passos para não tropeçar em quem estava à frente.

Chegaram a uma porta no final de um curto corredor no que parecia ser o segundo andar; a formação se abriu pela frente e os cinco recuaram, bloqueando a passagem de volta.

Antes de entrar, sentiu o iaumo do entrevistador tão colado à porta de seu castelo pelo lado de fora quando o seu pelo lado de dentro. Apertou os dedos sobre a ranhura do portão, alerta.

A luz na sala era fraca. Uma cortina de goma escura aquietava o sol com seu peso, e um minério de luz vermelho que brilhava muito pouco jazia bagunçado em cima do que parecia ser uma mesa.

— Sente-se, Anabel. — Disse o delegado.

Anabel sentou, analisando o que conseguia ver: cabelos e olhos escuros, um meio sorriso costurado no rosto — involuntário, fazia parecer que nasceu sorrindo amarelo e não conseguia mais parar. Seu casaco azul-marinho aparecia mais àquela luz que seu rosto cheio de pelos aleatórios nas sobrancelhas. Não o sentia mais tão perto em Neborum.

— Foi Jorge quem fez a sua denúncia. Ele é um mago competente… Conheço ele. Confio nele.

Anabel comprimia os olhos sem perceber. Tanto em Heelum quanto em Neborum.

— E ele disse que você fez um ataque misto contra ele.

— … Acho estranho que ele sabia onde eu morava.

— Ele era seu médico.

— Nunca fui paciente dele! — Respondeu ela, virando o pescoço para encarar o homem de lado.

— Ele tem anotações sobre você de mais de uma estação atrás.

Desgraçado. Ele planejou essa prisão mais do que eu pensava.”

O delegado pôs as mãos abertas sobre a mesa. Paralelas, igualmente distribuídas, com as palmas para baixo; Anabel viu unhas bem cortadas e uma pele enrugada.

— Então vamos lá, Anabel. Qual é a sua tradição original e qual você aprendeu depois?

As pupilas do interrogador brilhavam, e Anabel queria arrancar a garganta dele para não ouvir mais sua voz doce, levemente rouca, que não demoraria meio segundo para condená-la à morte.

— De que cidade você é, Anabel? — Insistiu ele, com a boca continuando aberta pela metade. — Você é daqui?

— Quero falar com o meu namorado.

O delegado fechou a boca e tirou as mãos de cima da mesa. Rolou de volta para a escuridão do encosto da cadeira, ponderando o pedido.

— Quem é o seu namorado?

— Tadeu.

Primeiro se moveu, como se tremesse de frio por um instante. Aproximou-se, ficando mais perto que nunca da luz débil do minério vermelho. Ela podia ver a confusão que se alastrava por seu corpo, partindo das pálpebras e chegando no cuidado com o qual as mãos apoiavam-se, cautelosas, na mesa que o separava dela.

Que Tadeu?

Em Neborum, permitiu-se sorrir.

— O filho do parlamentar Galvino.

Depois...

Quando Amanda abriu a porta, não sabia que receberia aquele tipo de Gustavo. Ele permaneceu de pé depois que entrou, cerrando os punhos como se suportasse alguma dor.

— Você me invadiu. — Começou ele.

Amanda franziu o cenho.

— O quê? — Defendeu-se, balançando a cabeça. — Não!

— Se duplicou, queimou minha porta e me invadiu.

Amanda tentava conectar uma coisa à outra, mas ficava irritada por falhar.

— G-Gustavo, eu sou preculga, eu não uso fogo! E eu n-não sei o que é duplicar, eu não…

Parou. Se de início presumiu que ele fosse continuar parado na sala, relativamente inofensivo, chegou em Neborum a tempo de vê-lo fechar a porta do castelo dela pelo lado de dentro.

Segurou-se à escada circular para não cair; as luzes do sol de Neborum distorciam-se com sua atenção indecisa. Conseguiu se concentrar o bastante para ver o sorriso malicioso que a forçou a voltar a Heelum, só para garantir que ele não fazia nada lá.

— Gustavo, por que… — Começou ela, em Neborum.

Ele avançou. Da mão direita voltada para trás surgiu uma espada longa, e Amanda fez um punhal saltar da mão trêmula, desenhando um arco no ar enquanto caía com o antebraço esquerdo por cima da cabeça. As lâminas colidiram; e Amanda sentiu um corte no braço.

Esgueirou-se para perto da parede circular, mais assustada que sentindo dor — não fazia ideia do que acontecia com sangramentos no iaumo. Gustavo cravou a espada no chão pelo qual Amanda se esquivava, tentando se levantar. As pedras redondas atrapalhavam sua subida, a desequilibravam, até que com um impulso desesperado ela conseguiu velocidade para ir até o outro lado do saguão.

Gustavo foi atrás dela tão rápido quanto ela fugiu. Amanda jogou o punhal nele de qualquer jeito, que ele tirou do caminho torto com a própria espada.

Pensou no mesmo aço que compunha o punhal abrindo-se num escudo que cobrisse seu corpo por inteiro — recitava na cabeça que queria um grande círculo plano o bastante, metálico, com seu dedo de espessura, sem detalhes, sem desenhos, sem marcas…

Parou de se esquivar e se deixou cair no meio da sala: o ataque vertical de Gustavo chegava para atingi-la no tronco. Um enorme escudo expandiu-se a partir do próprio centro na barriga e bloqueou a lâmina quando ela chegava ao destino.

Gustavo olhou o escudo e sorriu enquanto recuava, fazendo a espada encolher até sumir.

Em seu lugar surgiu um longo machado, a grossa cabeça pendendo para o chão e fazendo subir o cabo que Gustavo pegou com a mão esquerda. Amanda não sairia de baixo do escudo enquanto pudesse, mas ele tinha pressa.

Descreveu um arco por cima de si, urrando ao fazer o esforço final, uma mão escorregando até bater na outra. O escudo estilhaçou com força por cima do iaumo desconcertado de Amanda no chão.

O sorriso bobo queimou quando Amanda o empurrou em Heelum; recuperou-se da surpresa e, na feição mais enraivecida que Amanda já havia visto em alguém, foi até ela e puxou seu cabelo, pondo-a de joelhos.

Gustavo já refazia a espada em Neborum quando parou, sentindo um impacto nas costas; sua visão escurecia enquanto observava o impreciso iaumo de Barnabás, com um arco na mão, parado à porta aberta.

Largou Amanda, olhando neurótico para todos os lados até encontrar o parlamentar na porta de entrada. Disparou por ela sem pensar se ele tentaria pará-lo, deixando Amanda no chão com a mão nos cabelos magoados.

Ela suportou só um olhar do pai antes de correr escada acima, ecoando soluços pela casa.

Depois...

Tadeu diminuiu a velocidade na descida das escadas quando viu que havia visitas à porta. Galvino olhava para ele com uma curiosidade que certamente tinha por função reprimir, só pelo tempo absolutamente necessário, alguns berros. Do umbral o provável grupo de magos o observava fixamente.

— O-o que foi?

— O delegado quer falar com você, filho.

— Polícia? — Reagiu Tadeu.

— Não exatamente…

Um dos homens na companhia de magos abriu espaço e fez um gesto com a mão, convidando-o a passar. Tadeu chegou até eles, e logo os magos o acompanhavam com firmeza, cercando-o por todos os lados.

No outro dia tudo havia se encaixado: o fracasso de seu plano inicial tinha sido completamente esquecido. Ele e Amanda ajudariam Anabel e Gustavo, e seriam ajudados de volta. Teriam disfarces perfeitos para se encontrarem e continuarem a viver do jeito que quisessem. O futuro sombrio que tinha se acostumado a visualizar com tanta facilidade nos últimos dias virou tola preocupação.

Mas ali estava ele, indo falar com “o delegado”, seu corpo sitiado, seu pai silenciado.

Visitou Neborum. O castelo do pai, longe do círculo das robustas construções em volta da própria, estava fora de alcance — os iaumos dos magos que o escoltavam estavam à frente de sua porta, garantindo passivamente que ninguém ali entrasse.

Ou, talvez, que ninguém dali saísse.

Depois...

— Tadeu, eu vou ser direto… Talvez indiscreto. — Disse o delegado. — Você tem uma namorada?

Tadeu estava preocupado demais com Neborum para prestar total atenção à conversa. Sabia que corria o risco de parecer um tolo em Heelum, mas não podia ignorar o que estava acontecendo. Olhou por todas as direções pelas janelas de seus andares mais altos, mas não conseguia mais encontrar o castelo de Anabel que podia jurar ter visto naquele prédio que parecia uma prisão.

Girou os olhos na direção da pergunta.

— Não.

— Anabel disse que você é o namorado dela.

Tadeu sentiu uma tontura ligeira, um arrepio no ombro direito — fingiu não sentir nada, mas a garganta começava a secar. A cabeça pesou. Pendeu para frente um pouco. Corrigiu-se.

Suas costas doíam. O maxilar incomodava.

Não percebeu de imediato como estava difícil respirar.

— A-Anabel e-era… — Resistiu ao impulso de fazer tremer a perna esquerda. E de olhar para o pai. — E-era uma amiga.

— Não era uma namorada?

— Não era uma namorada. — Repetiu ele.

Galvino levantou-se de supetão, inclinando-se para frente. A ponta do dedo indicador ficando perto do rosto do delegado, que continuava impassível.

— Ela deveria ser executada imediatamente pelas MENTIRAS que está contando! Isto é um ABSURDO!

O delegado riu, cantando agudo uma mensagem que lia “por favor!”. Relaxou na cadeira, desviando o rosto enquanto deixava drenar a diversão que tirara do acontecido.

— Ora, sente-se, Galvino. Deixe de teatro. — Já parecia mais amargo enquanto Galvino sentava-se com a mesma postura de antes. — E você conhece as regras, sabe que é assim. Ela aprendeu outras técnicas, então deve ter sido de alguém de Al-u-ber. Eu só quero descobrir quem é. Ela resiste, e como eu sou espólico, achei que o seu filho pudesse me dar umas respostas mais rápido que eu.

— Quem fez a denúncia? — Perguntou Galvino.

— Jorge. Um médico preculgo.

Pai e filho balançaram a cabeça. Tadeu não fazia ideia de quem era aquele homem.

— E onde estão os pais dela?

— Os policiais que fizeram a prisão disseram que ela só tinha o pai, mas ele conseguiu fugir.

“Fugir daqueles cinco magos?”, pensou Tadeu, levantando as sobrancelhas.

— Gostaria de falar com ela, Tadeu?

— Ele não gostaria. — Atravessou-se o pai, respondendo por ele.

— O seu filho pode ajudar, Galvino… Deixe ele entender o que significa fazer parte da comunidade.

Tadeu não tinha dito nada ainda, mas estava louco para concordar. Naquela situação, contudo, não queria contrariar o pai. Galvino olhava para baixo, como se preparasse uma resposta elaborada — mas deve ter reconsiderado, porque apenas balançou a cabeça, fazendo o delegado sorrir de novo.

— Então, Tadeu… Gostaria de falar com ela ou não?

Depois...

Quatro dos magos que o haviam buscado em casa estavam em algum lugar no corredor atrás dele; um deles segurava as chaves da porta da cela, tinha a mão na maçaneta, e esperava que Tadeu desse o sinal para deixá-lo falar com a prisioneira.

Em Neborum, o castelo de Anabel estava próximo, ainda que silencioso. Mesmo assim, sabia que a amiga sentia sua presença.

Ele olhou mais uma vez para o mago segurando a porta, desgrudando um pouco os olhos da mesma direção estanque.

— E-eu… Queria ficar sozinho com ela.

Aquilo não ia ajudar se queria convencê-los de que não era namorado dela, pensou Tadeu.

O mago balançou a cabeça para os lados.

— Ela é perigosa.

Tadeu pensou rápido, sua mente formigando para achar uma solução. Eles também estariam em Neborum, prontos para entrar em ação caso ela saísse do castelo — lugar que provavelmente defendia com todas as forças desde que foi presa. Não podiam conversar lá.

— Vocês podem… I-ir um pouco para trás? Desde que v-vocês consigam ficar perto em Neborum, está bom. P-para me proteger.

O mago fez que sim com a cabeça, destrancou a porta e deixou Tadeu passar.

Anabel se jogou em seus braços mais rápido do que ele pôde vê-la; o mago logo fechou as portas atrás dele e trancou de novo.

Tadeu ouviu passos.

— Eu pedi para eles se afastarem… — Quase sussurrou ele.

— O que é que você vai fazer? Você tem que me ajudar!

O rosto da amiga parecia mais pálido; seus olhos, mais fundos, o roxo abaixo deles forte na pele fina e seca. Ela o segurava pelos ombros; ele mal encostava em sua cintura. Fios dos cabelos vermelhos dela se agarravam ao pescoço dele, retardatários do abraço.

— A-Anabel, o que está acontecendo? S-seu pai fugiu!

— Ah… — Disse, perdendo o viço nos braços. — Sim…

— Estava tudo dando certo…

— Sim…

Tadeu olhou para as paredes da cela. Tudo que sabia é que precisava ir embora.

— O que eu posso fazer?

— Diga a eles que é meu namorado. — Explicou ela. — Como a gente combinou antes, lembra? Sobre nós nos ajudarmos? Vamos seguir com esse plano!

O estômago de Tadeu se revirou. Ela estava condenada, e associar-se a ela…

Sua inocência seria presumida ou descartada?

— M-mas Anabel, é a minha palavra contra a de um médico, u-um mago formado, mais velho, que…

— Tadeu, se você não me ajudar eu vou morrer!

Tadeu passou a língua nos lábios, mas não conseguia molhá-los. Devia estar olhando para ela com o tipo de pena que se conseguia ao arquear as sobrancelhas no centro do rosto. Ela arregalava os olhos, mostrando com a boca semiaberta a necessidade de um braço que a tirasse daquele buraco.

Um segundo depois ela desfez o abraço, e a boca se fechou. Virou-se de costas. Tadeu já sentia-se um condenado; se não pelos magos, pela frieza por ela decretada ao sentar no banco no fundo da cela.

— Se você não me ajudar eu confesso tudo, Tadeu.

Ela olhava para seus olhos, atravessando-os com mágoa. Não os desviou quando ouviu passos se aproximando da porta.

— Você tem até amanhã de manhã.