Futuro diferente

Lenzo não acreditou que Rainha conseguiu reunir tanta gente de uma vez simplesmente pedindo aos funcionários da propriedade que o fizessem.

Um palco improvisado de madeira — que agravava pela pouca solidez o medo que já fazia Lenzo tremer — foi construído à frente da porta do castelo. O público que os ouvia não estava só à frente, formando dez, vinte, trinta fileiras desorganizadas; dava a volta no pódio, cercando-o, e estendia-se pelas laterais do castelo.

Para a eventualidade de aquele povo querer massacrá-los, Lenzo tentava imaginar se eles poderiam se defender bem por algum tempo. Afastou o pensamento tragicômico de que estava mais seguro na prisão.

Os homens e as mulheres que aguardavam pelo pronunciamento misterioso, às vezes com crianças de colo, não ficaram quietos ou conversando educadamente sobre a ameaça de chuva; eles berravam. É claro que, em suas perspectivas, conversavam; concederiam, quem sabe, que tinham o hábito de falar alto, mas para Lenzo eles vociferavam, em cada palavra imprimindo um tom belicoso. As reclamações eram inúmeras, das mais sérias às mais triviais. Gritos pela escassez disso ou falta daquilo se confundiam com a falta que pessoas desaparecidas ou mortas faziam, sem que investigação alguma conseguisse encontrar um culpado. A irreverência de uns contrastava com o choro a dez pés de distância. Para eles, o culpado inequívoco era sempre Hourin, com outros falando também de alguém chamado Haro.

Lenzo voltou para o saguão de entrada do castelo. Rainha estava de pé no meio da sala com as mãos na cintura e um rosto tão decidido que o primo pensou duas vezes antes de falar qualquer coisa. O medo, contudo, acabou ganhando.

— Eu não acho que seja uma boa ideia falar hoje, Rainha… Você… Viu o jeito deles?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Isso tudo é culpa do meu pai.

“Ela está tentando me dizer alguma coisa?”, pensou ele, abaixando os ombros sem perceber. “É algum tipo de indireta?”

— O que você vai dizer?

Ela sorriu, parecendo gostar da ansiedade dele.

Depois...

Quando Rainha apareceu, a multidão ficou mais quieta.

— Bom dia a todos.

Logo atrás estava Lenzo, com uma mão grudada na outra à frente do corpo . Ao redor deles, alguns funcionários do castelo, tecendo uma trama de olhares como se os rosanos de convivência simulassem, só para eles, a Rede de Luz.

Rainha tomava bastante ar para falar. Talvez achasse que fosse ser mais fácil do que realmente era, pensou Lenzo.

— Eu vim aqui… Não em nome do meu pai, mas em meu nome… Pedir perdão por tudo o que ele fez.

O estômago de Lenzo embrulhou-se na hora em que sua nuca resolveu tremer.

Se as pessoas da multidão formassem um só corpo, poder-se-ia talvez descrever reações semelhantes neles. Absurdamente quietos, dividindo-se em uma metade boquiaberta e a outra de testa franzida, pareciam desacostumados a ouvir qualquer coisa parecida com aquilo quando o assunto era oficial.

— Mas eu quero ser diferente. — Continuou Rainha, olhando cada vez mais para a linha do horizonte ao invés de para baixo. — A partir de hoje… Muitas coisas vão mudar.

— Queremos saber onde está a Kichi! — berrou uma mulher no fundo.

A reação se espalhou como rubor em bochechas; aqueles que procuravam por outros desaparecidos bradaram os nomes e as frases de ordem. Os que antes bradavam por outras coisas não tinham voz agora, mas ajudaram a fazer volume para os mais revoltados com os desaparecimentos.

Lenzo, que nem de longe estava tão perto da prima, podia ver nela gotas de suor escorrendo pelo corredor entre a orelha e a bochecha.

— Eu sei! — Disse Rainha, baixinho. — EU SEI! — As vozes foram se acalmando. — Eu sei que encontrar as pessoas é uma prioridade, p-por isso eu vou fazer o-o que for possível. Mas hoje eu quero anunciar outras coisas também. Em primeiro lugar… — Emendou, aproveitando a quantidade de pessoas mais disposta a ouvi-la do que reclamar. — Eu quero dizer que as terras vão ser repartidas. As jirs de vocês terão a posse definitiva das terras. E-e vocês terão aulas de magia também, p-para quem quiser, dadas por Lenzo!

No último momento ela levou a palma da mão aberta para trás — tremendo tanto que ela quase parecia estar incerta sobre a localização de Lenzo, que nesse momento olhava para as costas dela com os olhos arregalados e a forte sensação de que ela gostaria de cometer suicídio, mas não tinha coragem de fazê-lo sozinha.

As reações aos dois anúncios foi tão polarizada que os ingredientes da multidão pareciam perder a conexão uns com os outros. Houve quem, logo à frente do palanque, comemorasse as notícias sobre a divisão de terra e levantasse os braços como se quisesse tocar Rainha para agradecê-la com um abraço. Estavam emocionados, mas nem de perto tão eufóricos quanto grupos que ficaram mais atrás, dizendo que aquilo tudo era um plano nefasto e elaborado para acabar com eles de vez.

Não era possível divisar um argumento isolado — dezenas de pessoas falavam ao mesmo tempo numa mesma faixa de volume. A única forma de entender o que acontecia era tentar decifrar os rostos daqueles que falavam, procurando saber se se estavam felizes, confusos ou nervosos.

Rainha queria falar de novo, e depois de tanto tentar conseguiu que o debate girasse em torno dela de novo.

— Nós não queremos saber de magia!

— A magia é para calar a nossa boca!

— As terras também, ela quer é dar o que ela não precisa e ficar com a parte boa pra ela!

— Chega de magos em Al-u-een, já bastam os políticos!

— O pai dela era um mago também! — A concordância foi geral. — A magia tem que continuar proibida SIM!

Não fazia nem três dias que o Exército de Al-u-een invadira o parlamento para prender dezenas de magos, então Lenzo não tinha como não deixar de pensar que talvez eles tivessem razão. Afinal, ele mesmo aceitara ajudar a matar um mago.

— Deixem-me explicar! — Suplicava Rainha, de braços abertos. — Meu pai era sim um mago!

A sinceridade abrasiva daquela jovem que eles quase nunca haviam visto, com quem quase nunca trocaram uma palavra sequer, parecia ser seu principal método para desarmar qualquer pensamento negativo.

Rainha deixou os braços caírem, parecendo exausta. Seu rosto já estava embebido em aflição — rosto de quem não aguentava mais notícias ruins.

— Eu fui filha do meu pai, e hoje eu sei que o meu pai era um monstro. Eu não… — Travou, tendo sorte que o que dizia era estranho demais para alguém pensar em interrompê-la de novo. — Eu nunca fui querida por ele. Nunca pelo menos senti isso, mas… Eu sei que ele fez muitas coisas erradas e eu não posso desfazer nada. Mas eu posso ajudar vocês. Eu não quero essas terras, porque eu quero que elas sejam de vocês. E a magia é necessária porque o meu pai era mago e era esse tipo de coisa que ele fazia. Ele e os outros convencem vocês de que a magia é ruim e por isso vocês têm que ficar longe, mas o que o meu pai fez ele fez não só porque ele era mago, mas porque vocês não sabiam nada sobre magia! E eu não quero que vocês sejam magos como ele, i-iguais a ele! Eu não quero que ninguém seja como ele… Mas eu quero… Que vocês saibam o que é a magia para não serem mais vulneráveis. Se vocês aprenderem magia, nunca mais serão enganados. Nunca mais serão derrotados. Nunca mais serão controlados.

Depois...

— Você enlouqueceu, Rainha?

Ela andava a esmo no próprio quarto, com as mãos na cintura e um riso no rosto. Tinha escolhido um quarto de hóspedes que praticamente nunca fora usado — com móveis, cortina e tapeçaria rosa e amarela, gostou de parecer que estava dentro de algum tipo de creme doce e suave. Era naquele creme que ela deslizava, com os pés descalços, mais leve do que já esteve em praticamente toda sua vida. Queria chorar de felicidade, mas com Lenzo por perto conseguia no máximo um descontrole do maxilar.

— Eu fui bem, não fui? — Perguntou.

— Essas aulas vão ser descobertas e-e isso vai ser perigoso!

Lenzo pensou em adicionar “Eu não quero voltar para a prisão!”, mas isso provavelmente a lembraria de que, na verdade, ela poderia colocá-lo lá de volta com mais facilidade do que as aulas seriam descobertas pela polícia, mesmo que ser mais fácil que isso fosse difícil.

Ela parou no lugar, engolindo em seco, o sorriso desaparecendo tal vela que se apaga.

— Eu sei, mas eles têm que aprender. Nós devemos isso a eles por tudo que meu pai fez.

— Eu não sei o que o seu pai fez com eles!

— E ainda assim concordou em matá-lo.

Lenzo desviou o olhar, incapaz de acreditar no que dizia por causa do que ouvira. Pior era pensar que aquilo que vinha ensaiando pareceria um improviso tolo naquele momento, mas não havia hora melhor, ou menos, para fazê-lo: precisava conversar com ela.

— E-eu não queria ajudar no plano, Rainha… Eu fui controlado.

— E não tem problema se essas pessoas forem também?

Ela continuava fitando o primo, dura, enquanto ele recebia o impacto com estranheza que aflorava no rosto retorcido. “Isso não é sobre eles, é sobre mim!

— Eles têm que saber se defender.

Lenzo fechou os olhos, resignado. Um leve arrepio percorreu seu corpo ao pensar que a conversa longa, significativa — e cheia de presunção de que ela teria pena dele e acabaria confortando-o, perdoando-o, quem sabe até abraçando-o — sobre a morte de Hourin virou uma discussão política antes mesmo de começar.

— Não sei se você é alorfa ou se é uma sonhadora, mas… Pelo menos quando eu estive com os alorfos uma grande parte das pessoas, quando descobre o que pode fazer com a magia, deixa de ser defensivo e passa a ser ofensivo

— Então explique a eles só o que eles precisam saber pra não se deixarem atacar mais — Rebateu ela. — Você prometeu, Lenzo.

— É, mas eu não sabia…

— … Ou pode voltar para a prisão, se preferir.