Sentido

Leila, Beneditt, Leo e Fjor entraram na última charrete, procurando justamente não dividir o transporte com ninguém. O bosque em frente ao hotel estava cheio de carroças, e todos os músicos estavam sendo levados para algum lugar ao mesmo tempo.

Fjor e Beneditt olhavam para tudo e todos como se não quisessem perder um só detalhe do mundo para além das paredes e janelas do hotel. Fjor o fazia com fome e prazer; Beni parecia desconfiar de cada cocheiro e guerreiro que passasse por perto.

Leo sentou-se de frente para Leila, e por mais que fixasse nela seu olhar — para que ela tivesse que olhá-lo de volta — ela não apenas não se importou com aquilo como não devolveu-lhe atenção.

O baterista e o baixista não tiravam o dedo da cortina sobre a janela. Viam que as ruas da cidade, ainda que fosse muito cedo pela manhã, estavam desertas de civis, mas povoada de militares. Havia grupos que se movimentavam, curiosamente, na mesma direção que eles, e também o ocasional solitário uma esquina sim, outra não.

— É o caminho pro galpão. — Comentou Fjor, desapontado.

O lugar fora trabalhado; paredes improvisadas com tábuas toscas foram erguidas pelo lado de dentro, criando dois corredores ocultos nos flancos do prédio. A porta dos fundos estava aberta, mas bloqueada por um pequeno palanque de madeira cercado por soldados, à frente do qual rodas de pessoas bem vestidas conversavam. Fjor identificou, esticando o pescoço, Seimor entre eles.

Os músicos navegaram juntos pelo lago barulhento de colegas de hotel. Encontraram um bom lugar para estranhar a presença de tantos no lugar que costumava ser uma fortaleza de isolamento para os ensaios.

Beneditt sentiu um arrepio quente passar por detrás das orelhas ao ver soldados trancarem a porta por dentro.

— Está tudo tão… Estranho… — Comentou Leo, do seu lado, passando a mão nas costas abaixo da nuca.

— Sim…

— A gente não… Tem se visto muito.

— É… Desculpa.

— Não precisa… — Começou Leo, sem jeito. — Eu só queria… Saber se ainda está tudo bem.

Beneditt expirou o ar que, sem perceber, guardara nos pulmões ao ouvir aquele princípio estranho de conversa. Não queria dar falsas esperanças a Leo, mas não via outra saída.

— Sim, claro.

— A gente vai fazer essa banda funcionar, não vai?

Ver aquele otimismo todo tão de perto era quase desesperador.

— C-claro.

Fjor reagiu com desdém instintivo ao ver o olhar de escrutínio torpe que Seimor lançava aos músicos. Por entre as cabeças das três ou quatro fileiras de pessoas à frente dele e de Leila, pôde ver o agente reconhecer a agenciada e saudá-la com um aceno de mão e um minúsculo sorriso.

A reação da guitarrista foi abaixou o olhar, ausente.

— O que eu não entendo é como você pode ser a preferida dele e ainda ficar assim deprimida o tempo todo.

— Cala a boca, Fjor. — Disse ela, sem mudar o resto da expressão.

Ele se voltou para a frente, em nada ofendido, levantando as sobrancelhas para si mesmo. Voltou a olhar para a colega um segundo mais tarde.

— Você nunca quis ser a vocalista principal.

Leila abriu a boca de supetão, como se deixasse de estar engasgada após dias guardando algo podre na garganta. Fjor franziu o cenho, preocupado por um instante, mas o susto veio e foi rápido, e ele viu o quanto ela estava pronta para chorar.

— É, Fjor, eu não quis.

— Quem é aquela? — Perguntou Leo, atrás deles.

Beneditt virou-se para o palanque quando uma mulher subiu nele e pediu por um silêncio imediatamente aceito.

— Bom dia a todos. — Começou a loira de cabelos cacheados, com a voz firme e gentil.

Leo cruzou os braços, curioso. Embora do alto de seu delicado vestido rosado a mulher fosse provavelmente uma agente musical, poderia facilmente ser uma excelente cantora, calculava ele.

— A política governamental de Jinsel sempre foi a de incentivar a arte, a alegria e a liberdade de nossas festas. Essa é uma tradição do nosso povo e espero que todos aqui estejam familiarizados com isso.

— Alguém sabe quem é ela? — Perguntou Fjor.

Sshh… — Censurou Leo.

— Na fase difícil que é uma guerra é papel do governo garantir, mais do que nunca, que esse continue sendo o papel da arte. Só assim vamos manter nosso povo forte e unido para superar esse momento.

— Momento para mandar a gente matar mais gente! — Berrou uma voz ao fundo.

A massa de músicos à frente virou o pescoço para identificar quem havia dito aquilo; Beneditt pescou um rosto um pouco mais velho que o dele, que parecia ser o certo: indignado, revoltado e debochado.

— Ninguém gosta da morte e o objetivo da guerra é evitar a morte desnecessária. — Continuou a mulher, firmando as palavras sem descer ao tom da raiva. — Nossa força deve ser sempre medida para que nossos adversários entendam que colaborar e negociar é a melhor saída.

Enquanto o burburinho nascia e morria e o discurso o ignorava, sufocando o assunto, Beneditt lembrou do que o músico do hotel lhes dissera na noite em que tudo aquilo começara. “Eles querem que as cidades passem a obedecer a eles agora. Quem não quiser…”

— Shows serão realizados todos os dias, em todas as jirs da cidade, mas principalmente no centro. Festivais e festas continuarão a acontecer, com total apoio do governo de Jinsel. Cada banda deverá procurar seu agente para verificar que lugares e dias já estão alocados para eventos, e não preciso dizer que o repertório deverá ser sempre alegre, festivo e popular.

Beneditt procurou de novo pelo músico desafiador que ousou interromper o discurso antes. Ele certamente teria alguma coisa para dizer.

Encontrou-o de novo e viu que ele olhou para baixo — estaria ele desapontado demais para dizer qualquer coisa? Aquilo tudo era realmente absurdo, afinal.

Começou a andar para o início do galpão. “Ele não pode ir embora”, pensou Beni. “Estamos presos aqui…”

Beneditt o acompanhou, entre aparecimentos e desaparecimentos de suas costas na multidão, até vê-lo parar em frente a dois militares na abertura para os corredores laterais.

Ele estava parado, ereto e sereno, até ser puxado pela camisa e jogado com força para dentro do corredor improvisado na lateral do galpão.

Beneditt virou a cabeça para frente num golpe que quase o deixou tonto. Notou como as dúzias de soldados iguais àqueles na frente do palanque tinham olhares fixos — uns para o chão, outros para o teto; outros patrulhavam a plateia, sorrateiros.

Para de respirar forte, Beni. — Disse Leo, entre os dentes.

Beneditt lembrou de onde estava, aparvalhado. O som pareceu invadir seus ouvidos de novo.

— … E agentes especiais garantirão que o espetáculo de cada banda estará dentro dos padrões que estamos divulgando agora para vocês.

— Mas eles são soldados normais, não têm nada de especiais… — Reclamou Fjor, balançando a cabeça.

Cala a boca, Fjor…— Irritou-se Leo, grato pela decisão do irmão de expressar aquela opinião em voz baixa o bastante.

— Agradeço pela atenção em nome do governo de Jinsel. — Disse a mulher, juntando as palmas das mãos à frente do busto. — Seus agentes e a mestra do programa musical de Jinsel estão aqui para responder às suas perguntas e organizá-los para os próximos dias. Por enquanto isto é tudo.