Equipes

Eva e Tadeu desceram as escadas. Galvino já esperava lá embaixo, devidamente paramentado. A mulher e o filho usavam longas capas azuis. Tadeu precisava da sua para combater os calafrios que apareciam, chatos e incômodos, cada vez que ele pensava no que ele estava prestes a presenciar. Vinham da base da coluna e alcançavam as olheiras fundas que a mãe tentara, em silêncio e com mãos menos brutas que em outras vezes, disfarçar com maquiagem.

Pensou mais uma vez. Afastou toda culpa e todo remorso, porque se aquilo tudo o alcançasse de verdade, sentia que ia vomitar.

Deu o último passo gelado para fora da escada e contemplou o espaço à frente da barriga do pai, que com um “vamos” sussurrado introduziu mais uma série de frases que Tadeu não escutou. Não escutava nada.

Tentava se concentrar em coisas felizes, mas Anabel manchara sua vida inteira com promessas não cumpridas, pedidos de promessas, a depressão repentina; com a muralha desumana que a própria indiferença aprovava com um sorriso mórbido.

Até na morte Anabel não me deixa em paz. — Era quando pensava assim que Tadeu se reprimia, uma voz interna contra outra. “Lutar”, pensava, lembrando das aulas com Gabriel. “Ele quer que eu lute. Ou é ela ou sou eu”. Ou era razão que lhe falava ou era vazão de um desesperado, pensava.

A execução de Anabel era um evento único, singular, contradição aparente que se resolvia no resumo da retórica de Al-u-ber frente à guerra que se aproximava. Apoiavam os magos, e no entanto lá estava o povo, vivenciando a execução de uma maga nas mãos dos magos. Isso fazia sentido porque era, afinal, a extirpação do lado ruim do grupo. Os maus elementos dentre os magos. Aqueles que, ao saírem da margem que as regras justas permitiam, não podiam continuar vivos ou incentivariam, através da impunidade, o mau uso do conhecimento da elite.

A charrete tinha dificuldade de avançar pelas ruas, apinhadas como estavam. A praça em que a execução seria feita ficava próxima à entrada do morro em que ele e Amanda se encontravam, e foi escolhida por ser provavelmente o espaço mais aberto da cidade — que, ainda assim, não oferecia a melhor das visibilidades.

Mas talvez as pessoas não estivessem lá para isso. Não precisavam ver com os próprios olhos, mas só estar com o próprio corpo; participar, ouvindo as pessoas mais à frente confirmar o resultado previsto.

E depois? Ficariam uns na casa dos outros, discutindo o que aconteceu, ou voltariam para as próprias casas? Encerrariam o dia, impediriam que qualquer coisa acontecesse depois de tamanha brutalidade, ou simplesmente ririam da má sorte da abusada que teve o que mereceu e voltariam a seus afazeres diários?

A audição de Tadeu voltava aos poucos, e ele percebia o quão comuns eram todas aquelas pessoas. Não berravam, aplaudiam ou se agitavam como no dia do discurso. De braços cruzados, conversavam e sorriam; fofocavam sobre uma outra coisa qualquer — coisas da vida, não da morte — formando um burburinho que ardia quente no ouvido de Tadeu.

Ardia porque as mesmas pessoas estariam ali, daquele mesmo jeito, se fosse ele no lugar de Anabel.

Depois...

A plataforma de enforcamento ficava em frente aos fundos de um castelo residencial, limite norte da praça. Nas janelas, dezenas de pessoas se apertavam para ver a maga dar o último passo em frente a uma plateia ainda mais ávida. Um pouco mais longe, numa arquibancada também provisória e separadamente protegida, ficariam os parlamentares e outros magos eminentes, como o delegado especial que cuidara de Anabel até ali. Deprimida e esquálida como a prisioneira estava, ele temia que mesmo a própria morte teria que ser incentivada, com guardas arrastando seu corpo fraco até o palanque. Isso adicionaria um toque desnecessariamente cruel ao evento, pensava ele; De um lado havia a ideia de uma maga terrível pagando por seus crimes; de outro, uma maga destruída por dentro sendo enfim destruída por fora. Eram cenários antitéticos.

Anabel foi colocada em um apartamento vazio no castelo atrás do palanque. As janelas foram trancadas, e os móveis, retirados: ela tinha espaço, mas recusava-se a usá-lo.

Escolhera a esmo um canto e lá ficou, recolhida dos ombros aos joelhos, absorta dos olhos enuviados aos cabelos deslavados. Dois magos faziam a guarda ostensiva da prisioneira à frente da porta, enquanto outros espalhavam-se pelo prédio bloqueando saídas e patrulhando corredores.

Ou espalhariam-se, bloqueando saídas e patrulhando corredores, se eles não estivessem cansados.

Não fisicamente, estafados, exaustos. Tinham energia de sobra. Era apenas uma pena que precisassem desperdiçá-la numa demonstração inútil de força como aquela. Eles viram a prisioneira — se não viram, algum colega jurou que viu — e a conclusão era óbvia: ela não representava perigo para um umenau sequer.

Na antiga história, o apático garotinho aceita que cada umenau, do menor ao maior, vá fazendo seu ninho dentro de seu corpo; quando o Yutsi Verde também quis, o menino teve medo, mas foi tarde demais: irado pela recusa, a besta estraçalhou o menino. Quanto mais jovem a criança, menos sangrento é o final da história contada mas, de qualquer maneira, o que se dizia entre os soldados é que a garota deixaria o yutsi entrar sem protesto.

Estavam cansados daquela vigia sem sentido. Essa era a verdade.

Tão cansados, mas tão cansados, e tão confiantes na absoluta calma com que tudo transcorreria, que decidiram não ir trabalhar.

Não todos, é claro: se não houvesse policiais magos, a prisioneira não poderia ser escoltada para o palanque, e então todo o esquema de folga seria descoberto pelo delegado. Não, é pura lógica que não poderiam pedir por um dia de descanso para o delegado. Ele negaria, dizendo que aquele era um dia importante; essencial, até. Não poderia ter sua segurança comprometida num dia como aquele! E se algo desse errado?

Mas é claro que não daria. O que poderia dar errado?

Nos corredores do castelo atrás da praça havia minérios de todas as cores, mas já que eram separados por grandes distâncias, todo o caminho de pedras negras ficava escuro de uma rara janela a outra. Gustavo, vestindo as mesmas roupas de quando fugiu dos filinorfos — mas praticamente irreconhecíveis de rasgadas, sujas e fedidas que estavam — tinha olhos e ouvidos atentos na escuridão, o corpo curvado, a mão firme na adaga, única arma que encontrara no caminho que abrira com magia até chegar ali.

Libertou as chaves da outra mão apertada e esgueirou-se porta escura adentro.

O lar era simples, vermelho e laranja por dentro. Costumava ser barulhento com os outros ocupantes, mas restou apenas um — Gustavo pediu que os outros deixassem o lugar por uns dias.

O morador e proprietário era um homem bronzeado, franzino, que sentia orgulho da barba ruiva. Sentava-se reto numa cadeira grudada à parede pedregulhosa oposta à porta. Ele via à frente o jovem de claro cabelo empalhado e pequenos olhos castanhos, cercados por vincos, e ouvia seus berros — berros de boca bem aberta, esganiçados. Gustavo correu em sua direção enquanto ele se levantava, esquivando-se rumo à cozinha.

“Calmo…”, avaliou Gustavo em pensamento, recompondo-se mas forçando um respirar ofegante.

— O s-senhor precisa se acalmar! — Advertiu o dono da casa, desviando o olhar do semblante forçosamente louco do mago.

Gustavo logo abandonou aquela feição ridícula. Já estava feio o bastante para parecer louco sem precisar ficar de boca aberta.

Suas técnicas funcionaram.

Depois...

Amanda ficou feliz pela impossibilidade de ficar com o pai no camarote ao lado do palanque. Se ela não podia estar lá, tampouco podia Tadeu. E ela sabia que Tadeu tinha que ter vindo.

Sem querer dar a entender para o pai — que a observava, é claro, dada a posição em que estava — que procurava pelo companheiro, queria não andar muito por entre os observadores, mas olhava com atenção para cada brecha que se abria entre as cabeças. Procurava por um semi-careca beirando o moreno; se visse só parte do rosto, as sardas podiam ajudar a achá-lo.

Talvez Tadeu não estivesse ali porque escapou da multidão assim que pôde. Se ela estivesse no lugar dele não iria querer ver a amiga morrer daquela forma.

Ou ex-amiga, pensou. Algo entre os dois polos.

Viu o momento em que o pai virava-se para conversar com uma outra parlamentar e começou a lentamente abandonar a cena, entrando nos caminhos tortos do parque em que verde e marrom se interligava com rostos, chapéus e golas.

— Atenção, cidadãos de Al-u-ber! — Ouviu Amanda, imediatamente voltando-se para a plataforma.

Cabeças em toda a praça faziam o mesmo, interessadas no que a voz masculina com um minério de som tinha a dizer. Amanda não conseguia ver quem exatamente falava, mas sabia que vinha de uma pequena área resguardada de público logo em frente à forca.

Depois...

O castelo não tinha alas que abraçassem o local da forca; era-lhe na verdade indiferente. Crescia para o outro lado, com dois corredores protuberantes a partir do principal, formando um retângulo interior que estava sempre ao abrigo do sol, ainda que não da chuva.

Com quatro andares, tinha conexão direta, de parede a parede, com outros castelos mais robustos e menos geométricos dos lados, além de portas feias no térreo, voltadas para a praça, e portas mais proeminentes, à frente, voltadas para o que eventualmente seria uma rua. As portas da praça haviam sido trancadas e, dada a quantidade de pessoas do outro lado no dia da execução, não foram tidas como perigosas; ninguém ousaria fazer nada através delas. Já as saídas nos corredores principais, em todos os andares, para outros castelos, estavam guardadas, assim como as portas da frente, a sala do apartamento sendo usado para manter a condenada, e as duas escadas que permitiam a descida para o primeiro andar.

Mas no dia da execução, a realidade que Gustavo assegurou era outra. Não havia nenhum policial guardando as saídas do castelo pelo terceiro e pelo quarto andar. Apenas um guardava uma das saídas pelo segundo. No primeiro andar havia sete policiais magos, e o garoto suspeitava que outros dois ou três, possivelmente no comando da operação, um degrau hierárquico abaixo do delegado, estivessem próximos do palanque, na praça. Possivelmente tinham acesso às portas trancadas, que seriam, também possivelmente, usadas para levar Anabel para a forca.

O plano de Gustavo dependia do sucesso de seu cuidadoso puxar de cordas — um processo que levou quase cada minuto de vigília desde que se infiltrou no local-chave.

Seu pai ficaria orgulhoso.

Engoliu as palavras, balançando a cabeça, reorganizando os pensamentos.

Não era hora de pensar nisso. Onde estaria ele? Não era hora de pensar naquilo. Ele estava bem? “Sim. Sim, sim, sim!”, ele estava bem, é claro que estava bem.

“Aquele idiota tentou me tirar de Anabel, e ele é a razão pela qual ela está aqui hoje.”

“Canalha…”

É claro que o canalha estava vivo. Canalhas não morrem.

Depois...

Quando a porta abriu, o som trovejou em tempestade distante. Era como se acordasse de um sonho e fosse direto para outro, e no segundo dormisse em seu próprio quarto, na própria cama. E chovia.

Anabel meneou a cabeça, a dor lhe dando mais um calafrio de presente.

Não demora mais. Não demora muito mais, respirou; logo a morte vem, calma como a correnteza de um rio. Seria como aquele abrir de portas, só que mais calmo. Tranquilo…

Uma visão escura, envolta em pó fora de foco, e logo um último suspiro do qual ela não teria nenhuma lembrança. Como dormir.

Por outro lado, ela nunca havia morrido para saber que era assim que se morria.

“Olha pra ela, ela nem se mexe!

Ela riu por dentro; só não sentia a vontade de fazer isso com a boca. Era quase uma prisioneira de si mesma, e sabia disso. O fato de que sabia disso era ainda mais deprimente.

“… Fique quieto e me ajude rápido!

Depois...

Anabel foi jogada no chão como um saco de batatas.

Olhou para o teto marrom, com luz amarela enviesada que vinha de uma janela semicerrada, e pensou se aquela era a antessala da forca. Foram policiais que a trouxeram? Porque pareciam policiais.

Pensava devagar, prendendo um elo da corrente de pensamentos a outro como se tivesse o dia inteiro para aquilo. Foi apurando os sentidos. Sensação estranha; o sangue dava nova vida aos braços e ela gostava daquilo. Da forma como ela sentia seus músculos ganharem volume no corpo, das orelhas às mãos, uma coisa de cada vez.

Não fazia ideia de onde estava, mas ouviu passos. Não sabia por quê, mas a familiaridade — que, àquela altura, deveria ser algo ruim — fez seu sangue ferver ainda mais.

Exceto que…

Ainda tinha a testa franzida quando viu alguém entrar no lugar. Quando o maltrapilho jogou-se em cima dela é que ela percebeu, com talvez mais medo do que antes, que era Gustavo.

— Temos que ir agora! — Disse ele, ajoelhado sobre o corpo dela, a palma da mão encaixada em sua bochecha seca.

Anabel o observava, curiosa. Ir para onde? Por quê?

Não era um conceito difícil de dominar. Ela devia ir. Ir embora. Com o mago que veio salvá-la. O mago que ela praticamente treinou para isso.

Não imaginara que precisaria pôr a eficácia da técnica à prova, mas de fato parecia que ela havia feito um bom trabalho…

Ainda assim, levantar-se não estava em seus planos. Deveriam estar, disso ela sabia. Mas não conseguia fazer com que estivessem.

— Não, Gustavo, eu quero… — “Queria?“, doeu-se. — Eu não quero nada…

O sorriso apodrecido só por fora tornou-se roto de espírito; Gustavo olhou para trás, rápido, e checou também Neborum para garantir que estavam completamente a sós.

— Ana, é hora de… Vem comigo…

Gustavo abarcava o pescoço da maga com o braço esquerdo, arrastando-se até poder suportar os joelhos dela com o outro. Ela enlaçava com dificuldade a nuca do rapaz, que a levantava com ainda mais fraqueza, as pernas tremendo até ele conseguir ficar completamente de pé.

— Acho que vou fazer você dormir, está bem? — Ela fazia cara de quem não conseguia acreditar que Roun venceria Nauimior mais uma vez. — Confie em mim…

Depois...

Amanda entrou no prédio azul-claro que encerrava uma região de terra batida, praça sem praça ao lado da praça onde muitos encontraram espaço mesmo sem conseguir ver o que se passava além das árvores. Foi até o terceiro andar e encontrou a passagem que fazia a ligação com o castelo de tijolos claros cujos saguões e torres moldavam, em suas vielas e reentrâncias redondas, umas cinco esquinas curvas por ali.

Residencial como quase tudo por perto, o lugar conseguia reter um silêncio cheio de ecos, próprio de tumbas. Portas grossas e antiquadas, quase rudes de tão rústicas, mantinham todo o barulho das famílias e dos solitários do lado de dentro de cada unidade.

Percorreu os corredores de memória, mexendo os lábios enquanto fazia o caminho para descer o mais perto possível do outro lado. Seguiu Tadeu depois que o achou na multidão e percebeu, não sem sorrir amplamente, seu sinal.

Era um sinal tolo que eles inventaram de brincadeira havia rosanos. Incertos sobre a continuidade — que acabou se mostrando bem longeva — do esconderijo deles, talvez precisassem se encontrar em outro lugar e não tivessem muito tempo para combinar alguma coisa. Um deveria simplesmente esfregar a testa com a palma da mão esquerda.

Passou por paredes argilosas embebidas em luz laranja e por uma grande escadaria circular cujas vidraças da torre filtravam a luz do sol. Quase não encontrou ninguém no trajeto. Quando saiu do castelo virou à direita, acompanhando a parede curva até encontrar o muro reto de novo. Adiante um longo corredor ligava o terceiro andar do prédio ao mesmo piso de uma fina torre mais à esquerda. Era longe o bastante para formar uma pequena rua por debaixo do corredor, o que significa que um arco precisava sustentar a passagem.

Um arco no qual era possível entrar, já que na ponta acoplada ao castelo havia uma portinhola magra e escura, de aparência provisória, que quase se confundia com corvônia. Os que a conheciam jamais pensaram em entrar nela; os que passavam por ali raramente a notavam.

Amanda entrou e fechou a porta atrás de si com cuidado; o lugar era escuro como breu, da largura de duas portas de um armário comum e de profundidade um pouco mais generosa, já que a sala tomava um pouco do espaço do castelo na qual encostava.

Assim que fechou a porta sentiu a presença de Tadeu. Jogou-se na distância que presumiu ser necessária pra se enlaçar nos braços dele, diagnosticando-o: não parecia estar chorando, nem respirando diferente.

Separou-se um pouco, querendo perguntar como ele estava, mas com medo de ser indelicada. É claro que ele não podia estar bem.

Sendo assim, deu-lhe um beijo carinhoso, seu jeito cheio de saudade de dizer que ela estava ali para ele. Ele a puxou de volta, devolvendo o beijo.

Era sincero, pensava ela; se apenas, talvez, desesperado demais. Tadeu tremia um pouco no antebraço, mas a segurava pela cintura com o carinho guardado em estoque que ela tanto desejava. Agora que o tinha, sinceramente, derretia.

Suas mãos recuaram até sentir seu rosto com a ponta das unhas; os lábios separaram-se um instante só, não muito, e ela queria poder ouvir o que os olhos dele, certamente abertos, tinham para dizer.

Claro que era importante ouvi-lo, não era? Ele não podia estar passando por uma boa situação. Impossível, com Anabel condenada à forca enquanto centenas de pessoas reuniam-se para assistir.

Sim, ele precisava de apoio; agora, depois, alguma hora. Possivelmente um ombro no qual pudesse chorar, um tempo para desabafar, para declarar-se culpado sem ter feito nada, para poder ser absolvido, poder aceitar que não havia nada que pudesse fazer tampouco.

Enquanto pensava Amanda avançou num beijo ainda mais claro.

Era possivelmente muito errado o que estavam fazendo, continuou pensando. Parecia um reforço inverso: o que sua cabeça dizia, seu corpo fazia o contrário.

Pare de pensar“, disse a si mesma, prensando Tadeu contra a parede.

Sentia o calor das pernas dele passar para as próprias; as articulações, em polvorosa, pareciam prontas para correr dali a Al-u-een se fosse preciso por algum motivo.

“Faz tanto tempo”, lamentava em angústia, recuando um pouco. “Eu queria mesmo ver os olhos dele, no final das contas”.

Voltaram a se encontrar, e enquanto ela começava a considerar a ideia de tirar as roupas, um novo pensamento a interrompeu.

Freou as mãos, deixando-as bem onde estavam. Ficou mais consciente quanto às dele — paradas na cintura, com a mesma tensão nos braços — enquanto o beijo prosseguia, lerdo.

Ainda que fosse verdade o quanto ela o queria, o quanto a magia os tinha tirado de um caminho de longa e próspera paz e os jogado num turbilhão de emoções e encontros nada íntimos, ela não poderia querer realmente…

E a forma como ela se separara de repente de vez em quando, racionalizando aquilo com a poesia do olhar de Tadeu…

E se ele a estivesse controlando?

Era esse o jeito dele de se distrair da morte?

Deu dois passos para trás, desfazendo o abraço como um laço mal feito, parando no meio do nada até decidir o que pensar.

— A-Amanda? — Perguntou Tadeu, algumas respirações altas depois.

Sua voz despedaçada fez Amanda fechar os olhos, sentindo-se ridícula como nunca. Já não bastava desconfiar do próprio pai, que era também seu mestre, agora desconfiava do namorado?

Talvez fosse bom que não pudesse olhar para Tadeu. O silêncio já era constrangedor o bastante.

Será que só sendo bomin ela se sentiria mais segura perto de um?

Lembrou do que o pai lhe dissera. Se ela tivesse um companheiro preculgo… Ela saberia exatamente com quem estava lidando.

Mas ela se enganou quanto à Gustavo. E ela sabia quem Tadeu era.

— Aman… — Começou a mesma versão confusa de Tadeu. — Amanda, Neborum… Neborum!

Amanda foi de dentro de uma de suas torres para a passarela entre elas; via alguns castelos aqui e acolá, provavelmente moradores dos apartamentos logo ao lado e acima de onde estavam em Heelum.

Virou-se para o outro lado e, ao prestar atenção em dois castelos praticamente grudados um no outro, reconheceu um deles.

— A-aquela é a Anabel! — Exclamou Tadeu, trazendo-a de volta para Heelum.

— Mas um deles é o Gustavo!

Amanda achou que Tadeu ficaria no mínimo surpreso.

— E-eu não sei, eu…

— Tadeu, EU sei!

Ela deu as costas para ele, ouvindo seu nome ser misturado a cautela e medo.

Voltou a Neborum para reencontrar os castelos e retornou a Heelum com mais senso de direção. Avançou por debaixo do arco na direção contrária à da praça da forca e virou à esquerda, passando por debaixo de outra passarela até chegar à torre mais fina. Esgueirou-se na parede, circundando-a com cuidado; sentia os castelos mais próximos agora. Tinha ficado de frente para uma ruela arborizada do outro lado de um grande castelo comercial. Sabia que Tadeu estava logo atrás, quieto.

Atravessou o campo de pinheiros altos até chegar a uma passagem que ligava já no piso térreo o centro comercial a um complexo quadrado com torres baixas em cada ponta. Ali já andavam mais normalmente, buscando não chamar a atenção de quem andava à frente do prédio ou ali permanecia, como um grupo de homens e mulheres que conversava em uma das altas entradas.

— Lá… — Disse Tadeu.

Depois do grupo havia um homem aparentemente jovem com uma roupa escurecida — ou seria suja? — carregando uma garota ruiva nos braços que parecia desmaiada. Um garoto de pele negra passou por eles, virando-se para olhar a cena incomum antes de seguir seu caminho até um banquinho perto dali.

Como ele consegue fazer isso?

Amanda só podia concluir que ele devia estar usando magia para fazer com que ninguém prestasse atenção nele. O problema é que havia no mínimo uma dúzia de pessoas ali, sem contar as que deveriam estar dentro do prédio, olhando para fora.

— Ninguém viu a Anabel… — Disse Tadeu, respondendo a charada ao olhar para o chão. — Desde que ela foi presa, ninguém conhece o rosto dela… Q-quer dizer, quase ninguém nunca viu ela…

Tudo a partir dali aconteceu rápido demais; o muxoxo frustrado de Amanda e a decisão irrefletida de segui-la — a lista de motivos era grande, mas ele não conseguia escolher: segui-la para protegê-la, para evitar que ela fizesse alguma conexão entre ele, Gustavo e Anabel… Para impedir que Gustavo fugisse com Anabel…

Mas ele deveria entregar Anabel à polícia, caso a conseguisse de volta?

Parou de correr quando Amanda parou num pequeno bosque cerrado em que Gustavo se embrenhara, finalmente percebendo que era seguido. O parque não estava deserto, mas não estava exatamente cheio; um grupo de idosos deixava o local quando parou para ver a dinâmica esquisita dos quatro jovens.

Gustavo voltou-se para os dois, lentamente pondo o corpo de Anabel no chão. Tadeu olhou para ela tentando verificar se estava viva. Seu coração batia morno quanto menos conseguia chegar a um veredito.

Quem é você? — Disse Gustavo, franzindo o rosto seco para Tadeu.

— Gustavo, o que…— Amanda tentou perguntar, boquiaberta.

Um dos idosos do outro grupo, que vestia uma felpuda capa marrom, começou a se aproximar deles. Gustavo rolou os olhos para a direita por um momento.

— Vão embora…

Tadeu começou a ir e voltar de Neborum; em Heelum, não sabia para quem olhar.

— Como é que você conhece ela, Gustavo? Pra onde você quer levar ela?

— Isso não interessa a você, sua idiota, e acho melhor você ir embora e não me seguir mais!

— Tadeu, você vai… — Amanda olhou para trás momentos antes de ter uma realização que a forçou a olhar para Gustavo de novo. — E-espera, a-a Anabel é bomin!

— Há algum problema aqui? — Perguntou o velho homem assim que chegou perto o bastante.

Gustavo bufou de olhos revirados antes de virar o rosto para responder.

— NÃO! VÁ EMBORA!

— Mas o-o que é isso, o-o q-que que é essa garota no chão…

Gustavo marchou até apertar o homem pelos ombros; Amanda e Tadeu deram passos instintivos para a frente, alarmados, e Gustavo respondeu rugindo entre os dentes alguma instrução que a raiva deformou demais.

Tadeu viu quando o iaumo de Gustavo, muito mais limpo e vestindo roupas escuras em perfeito estado, atravessou a distância até o castelo de Amanda.

A preculga saiu do castelo quando ele chegou, e Tadeu forçou-se a deixar a janela e correr para fora do castelo. Sentiu breve o contato da mão de Amanda à sua em Heelum.

Suas mãos já pegavam fogo quando ele se aproximou da dupla em combate, com Amanda esquivando os golpes lentos da espada de Gustavo.

— AMANDA!

Imaginando que ajudaria Tadeu, jogou-se para trás para escapar a um ataque; ele lançou uma labareda da qual Gustavo esquivou correndo para o lado mais rápido do que se mostrara até então: em um instante estava ao lado de Tadeu, que precisou pular para trás para sair do alcance da lâmina.

Sentiu uma perturbação que o trouxe para a visão de Amanda empurrando Gustavo no chão; ele parecia ter vindo para cima dele, mas ela o defendera.

Apoiado com uma mão e um joelho no chão, Gustavo tirou uma adaga das costas com a mão esquerda e ergueu-se num impulso contra eles — Tadeu puxou Amanda para trás, tirando-a do perigo dos golpes amplos… Que na verdade, percebeu, não ofereceram tanto perigo assim.

A dor e o chão lhe receberam de volta a Neborum; situou-se e logo o viu à frente do castelo de Amanda, segurando-a pelas costas, as mãos dela amarradas à frente do próprio corpo e as pernas cobertas por uma montanha de terra até a metade das coxas. Ela ainda resistia, dentes apertados à mostra, enquanto ele confessava alguma coisa ao pé do ouvido.

Buscou correr até lá, arranjando-se tarde; Gustavo ateou-lhe fogo e sumiu.

Tadeu sentiu o berro que surgia rápido na garganta sugar-lhe o ar até que Neborum tornou-se Heelum com um soco no nariz que o derrubou.

De olhos fechados ou, mesmo abertos, lacrimejados, ouviu Gustavo resmungar de dor e dar alguns passos; Amanda grunhir por algum motivo e depois soltar um grito breve depois que Gustavo urrou de novo.

Começou a perceber o cheiro de sangue no nariz molhado por dentro e a dor, que veio de repente; quando abriu os olhos, não viu mais sinal de Gustavo ou Anabel; só Amanda, ali do lado, levantando-se devagar com um rosto doente.

Ela se sentou o mais rápido que pôde; tirou um fino anel dourado do dedo e o lançou para Tadeu antes de uma olhada furtiva pela região.

— Pega esse anel… — Explicou, preparando-se para terminar a ideia numa respirada só. — Para ter uma desculpa para me ver depois…

Tadeu não sabia como ela conseguia manter a cabeça fria daquele jeito, mas obedeceu. Sentou-se também, guardando o anel no bolso da calça.

— Tadeu?

Ele se virou na direção de onde tinham vindo e avistou Joana correndo para ele com as sobrancelhas abaixadas.

— O que fizeram contigo? Estás bem?

Tadeu fez que sim.

— Estás sangrando… Quem foi?

Tadeu não queria responder.

— Um homem… Novo, com umas roupas rasgadas… — Começou, sem olhar para trás. — Ele estava com a Anabel.

— A prisioneira.

— Sim.

— Filha! — Berrou Barnabás de longe, chegando no bosque.

— Tu sabe pra onde ele foi? — Insistiu Joana.

— N-não, mas… Foi… Pra lá, mais ou menos.

— Filha! Filha! O que aconteceu, filha?

— Estou bem, pai… Foi… — Tadeu virou-se para ela, olhares chocando-se num estranho instante. — Alguém fugiu com a prisioneira…

— Sim, já sabemos… Cadê você em Neborum? Dentro?

Barnabás ajudou Amanda a se levantar. Trazia no rosto uma mistura pouco compreensível de ódio assassino e preocupação paternal.

— Eu fui… Morta lá. — Explicou, envergonhada.

— E-ela lutou, senhor, ela lutou muito bem.

Barnabás voltou-se pela primeira vez para Tadeu. Parecia menos paternal e mais revoltado a partir do ângulo que favorecia a convergência das sobrancelhas tensas.

— Vocês lutaram juntos, Tadeu?

Tadeu balançou a cabeça, rápido.

— Mas ele era… M-muito forte. Demais para nós.

— De que tradição era?

— Bomin. — Disse Amanda.

— Preculgo. — Disse Tadeu, ao mesmo tempo.